Entrevistas

Covid-19 e cuidados respiratórios: o ano da resistência

19 Abr. 2021

Os cuidados respiratórios de reabilitação tornaram-se particularmente relevantes devido à Covid-19, uma pandemia que, pela dimensão e gravidade, reforçou o diálogo entre os profissionais de saúde, unidos no combate contra um mesmo inimigo. Muitas são as batalhas já ganhas, mas o fim da “guerra” é, por enquanto, uma miragem. Nas palavras da enfermeira Carmo Cordeiro, membro da Comissão Organizadora do 1.º Congresso Cuidados Respiratórios em Enfermagem de Reabilitação, se 2020 foi o ano da resiliência, 2021 será o ano da resistência, mas também o da esperança renovada.

Jornal Enfermeiro | “Acrescentar valores, inspirando boas práticas respiratórias” deu o mote a este congresso. Com que expetativas? 

Carmo Cordeiro | O ano transato foi completamente atípico para todos, quer para a população em geral quer para os profissionais de saúde. Neste âmbito, esperamos que o congresso, mais do que um ponto de encontro entre profissionais, constitua uma oportunidade para analisar e realçar o papel dos enfermeiros, em particular os de reabilitação, enquanto cuidadores de doentes respiratórios em contexto de Covid-19. Como é sabido, a pandemia trouxe-nos muitos desafios ao nível dos diferentes contextos clínicos, desde as unidades de cuidados intensivos às unidades de internamento alocadas para o efeito e nos cuidados de saúde primários, tornando necessário reajustar o acompanhamento prestado aos doentes respiratórios. No fundo, pretendemos que este congresso reflita as experiências vividas por todos e por cada um de nós.

JE | O facto de o evento ter um formato híbrido, presencial apenas para os preletores, refletiu-se no programa científico? 

CC | Não, de modo algum. O programa manteve a riqueza e a excelência que lhe são naturalmente devidas, e os palestrantes são honrosos nas temáticas que abordaram. Penso que o conteúdo científico superou até o das Jornadas (de Enfermagem em Cuidados Respiratórios) que antecederam este 1.º Congresso, devido à pertinência dos temas em análise. No que se refere aos webinares, pela atualidade, destaco dois: “Terapia de Alto Fluxo: Impacto Atual” e “Terapia Inalatória: Novos Desafios na Educação dos Doentes Respiratórios na Pandemia”. O primeiro por abordar uma terapia recente, mas muito utilizada no doente com Covid-19. Incidirá sobre os desafios enfrentados pelos profissionais em termos de atualização sobre técnicas que não dominavam. Quanto ao webinar sobre terapêutica inalatória, tem a ver com uma alteração de paradigma. As consultas presenciais que habitualmente tínhamos com os doentes respiratórios, deram lugar a outros formatos de aconselhamento. Por exemplo, passámos a ensinar os doentes a utilizar os seus dispositivos através de zoom, videoconferência ou de WhatsApp.

JE | A Covid-19 teve lugar de destaque no programa científico. Quais foram as principais alterações que a pandemia suscitou no que se refere à Enfermagem de Reabilitação? 

CC | Basicamente passou pela inequívoca necessidade de readaptação de todos os profissionais de saúde a novas dinâmicas e formas de cuidar. Enquanto enfermeiros de reabilitação, é muito diferente cuidarmos dos doentes munidos apenas de máscara cirúrgica, do que fazê-lo totalmente protegidos com EPI (equipamentos de proteção individual). O olhar passou a ser o principal meio de comunicação, quando anteriormente a expressão facial e as mãos eram predominantes, além de as consultas presenciais terem dado lugar às virtuais. A nova realidade, pelas razões que facilmente se depreendem, mostrou que estes doentes evidenciavam até necessidade de maior acompanhamento. As consultas foram adiadas, mas não deixou de haver doentes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) ou com asma, entre outras doenças, a precisar do nosso acompanhamento.  

JE | Os nossos profissionais estavam capacitados para as diversas terapias de suporte respiratório na abordagem ao doente com Covid-19?

CC | Em termos de competências profissionais, sim, mas foi preciso reajustar os programas de reabilitação respiratória, quer em contexto domiciliário, quer hospitalar. É preciso não esquecer que a pandemia veio limitar o número de doentes agendados e não só. Estavam muito habituados ao acompanhamento presencial que fazíamos e, de repente, a situação criada pela pandemia fê-los sentir perdidos. Cabe aqui salientar que a Ordem dos Enfermeiros e a Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação tiveram, neste contexto, um papel muito relevante, promovendo webinares com o objetivo de dar suporte e capacitar os enfermeiros para enfrentar este inimigo invisível e até então desconhecido. Nota positiva, igualmente, para a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), através da emissão de documentos de orientação.  

JE | Foram introduzidos cuidados especiais com vista ao tratamento do doente com Covid-19? 

CC | No que concerne especificamente aos enfermeiros de reabilitação, foi necessário reajustar algumas técnicas, que deixaram de poder ser aplicadas como até então. Estou a referir-me, por exemplo, a atos ligados a terapêutica inalatória – aerossóis –, que passaram a estar contraindicados exceto em condições muito específicas e desde que cumprindo todas as indicações da SPP, bem como determinadas técnicas respiratórias.

JE | Como vê o papel da Enfermagem de Reabilitação e como se processa a reabilitação respiratória em doentes ventilados? 

CC | Como disse já, essencialmente, houve que reajustar todas as dinâmicas ante uma situação nova e muito preocupante. O doente com Covid-19, cuja função pulmonar é muito mais suscetível, motivou diversas alterações, quando comparado, por exemplo, com o doente com pneumonia. E, nunca será demais sublinhá-lo, o papel do enfermeiro de reabilitação em cuidados intensivos é da maior relevância. 

JE | No que se refere à reabilitação em situação pós-Covid-19, o que destaca?

CC | Basta pensar que mesmo depois de terem alta, findo o período de internamento, o processo destes doentes não está de modo algum terminado. A infeção por Covid-19 não se encerra com a superação do quadro agudo. O impacto da doença, quer a nível muscular, quer pulmonar, leva muitos doentes, mesmo após a alta, a referir um cansaço extremo, entre outros sintomas. Deste modo, torna-se evidente a necessidade de manter o seu acompanhamento, privilegiando a articulação hospitalar com os cuidados de saúde primários. Estes doentes, depois de terem passado pelos cuidados intensivos e pelo internamento, precisam de reabilitação no domicílio, e o enfermeiro de reabilitação é determinante para a sua recuperação funcional e respiratória.

JE | Quais são os desafios que enfermeiros e doentes enfrentam atualmente?

CC | No contexto de trabalho passa por nos adaptarmos, cada vez mais, às novas realidades que surgiram e vieram para ficar, como a telerreabilitação e a teleconsulta. Por outro lado, há que procurar dar resposta às necessidades reais dos doentes respiratórios e estarmos efetivamente alocados à nossa especialidade, que devemos desenvolver. É ainda fundamental que as entidades organizacionais deem o devido valor ao enfermeiro de reabilitação na abordagem do doente respiratório, e a pandemia veio efetivamente confirmar o papel primordial que o enfermeiro de reabilitação tem em todos os contextos clínicos, hospitalar, cuidados de saúde primários e domiciliários. 

Anuário

Anuário Enfermeiro 2019

PUB