"Os enfermeiros não são parte da despesa"

terça, 28 março 2017 10:10 Fernando Vilares, presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros de Diálise e Transplantação

fernando vilar 100 56ed8"Os enfermeiros não são parte da despesa, mas sim uma mais-valia para obter ganhos", afirma Fernando Vilares, presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros de Diálise e Transplantação (APEDT), que a poucos dias do Encontro Renal 2017 fala destes enfermeiros e das estratégias que considera necessárias para a saúde.

 

Jornal Enfermeiro | Nos dias 6, 7 e 8 de abril terá lugar o Encontro Renal 2017, onde se inclui o XXXI Congresso da APEDT, em simultâneo com o XXXI Congresso Português de Nefrologia e o IX Congresso Luso-Brasileiro de Nefrologia. Qual a mais-valia de um encontro como este, que envolve diversos profissionais da área e de diferentes países?

Fernando Vilares | Mais uma vez vamos ter a oportunidade de nos reunirmos para ouvir e debater temas científicos de grande atualidade e interesse, proporcionado aos profissionais de enfermagem de nefrologia uma permanente atualização. O programa é muito interessante e tem como foco áreas que habitualmente não são abordadas com tanta profundidade, como os cuidados prestados aos doentes com insuficiência renal terminal em ambiente hospitalar e continuados. A participação de profissionais de vários setores é uma mais-valia para o enriquecimento dos nossos conhecimentos nesta área.

JE | Um dos temas em foco no Congresso da APEDT é o ensino aos doentes em diálise peritoneal. Cabe aos enfermeiros este papel de ensinar a viver com este problema e de educar para a saúde?

FV | A informação, ensino, treino e tratamento do doente com insuficiência renal fazem parte das intervenções autónomas do enfermeiro de nefrologia. Na área da diálise peritoneal estas atividades estão bem presentes e estruturadas. A educação do doente renal em diálise peritoneal é uma tarefa multiprofissional, em que a intervenção do enfermeiro é importante pelas competências adquiridas e relação de proximidade com o doente. No contexto da diálise peritoneal, a educação (que engloba o ensinar e aprender) é uma atividade que leva a aprendizagens relacionadas com a saúde, doença, tratamento e favorece mudança de comportamentos e de estilo de vida.

JE | Sabe-se que a diálise peritoneal, pelo processo em si, está fortemente sujeita a infeções. Os enfermeiros têm aqui especial relevância, nomeadamente quanto ao controlo destas situações?

FV | A infeção mais relevante em diálise peritoneal é a peritonite que pode, em muitos casos, condicionar a continuidade do tratamento. A prevenção desta complicação é multidisciplinar, mas o doente tem um papel importante porque é ele, ou o cuidador informal, que executa o seu tratamento. O enfermeiro tem uma forte intervenção na educação do doente, permitindo que este conheça bem o seu estado de saúde, a doença, a terapêutica, a tecnologia, a técnica de tratamento, assim como os comportamentos a adotar que influenciam uma melhor adaptação à doença e adesão ao tratamento. A intervenção do enfermeiro requer um comportamento sistematizado e planeado, com base em conhecimentos técnicos e científicos adequados às necessidades dos doentes e enquadrados com a realidade sociocultural dos mesmos.

JE | Os enfermeiros são dos principais responsáveis pelos tratamentos de diálise, necessitando para isso um conjunto alargado de conhecimentos. Atualmente, a formação obrigatória nesta área tem a duração de três meses. Considera suficiente?

FV | De acordo com a legislação em vigor, a formação exigida aos enfermeiros não é objetiva, limitando-se a referir que o enfermeiro deve fazer a sua aprendizagem durante três meses, sem especificar conteúdos programáticos teórico-práticos e horas mínimas gastas para a formação inicial. A APEDT sempre se preocupou com a importância das competências dos enfermeiros que trabalham em hemodiálise, tendo proposto à Ordem dos Enfermeiros criar um grupo de trabalho para estudar e propor orientações que possam contribuir para a melhoria da qualidade dos cuidados prestados pelos enfermeiros aos doentes em diálise. Surgiu assim a publicação do Guia Orientador de Boa Prática (GOBP).

Para a intervenção do enfermeiro em técnicas dialíticas, devido à sua complexidade e grau de exigência, é recomendado que o enfermeiro tenha uma formação inicial com uma duração de três meses, num total mínimo de 420 horas, supervisionado por um enfermeiro reconhecido pela organização como possuindo as competências científicas e pedagógicas para o efeito. Compete às organizações envolvidas no processo de tratamento dialítico criar as condições para satisfazer as necessidades dos enfermeiros favorecendo o seu empenhamento e formação contínua, em prol da qualidade dos cuidados a atingir. Não chega aprovar projetos de qualidade, é necessário criar e manter um ambiente favorável à sua implementação e consolidação.

JE | A APEDT foi fundada também para promover a formação. Têm conseguido atingir os vossos objetivos nesse campo? Hoje, a formação disponível em Portugal já é suficiente?

FV | Podemos dizer que, apesar de os objetivos de uma maneira geral terem sido conseguidos, há sempre mais que poderemos fazer com o apoio de todos. De ano para ano, a qualidade científica dos trabalhos apresentados no congresso e no encontro regional tem vindo a melhorar muito. O nosso site e a revista Nephro’s têm sido espaços privilegiados para todos os enfermeiros divulgarem os seus trabalhos. Gostaríamos de ter mais publicações da revista, mas nem sempre os enfermeiros nos enviam os seus trabalhos, que tanta importância poderão ter para quem trabalha na área. Hoje em dia, existe muita informação disponível no âmbito da nefrologia, talvez o que teremos de repensar e melhorar são as estratégias ao nível das organizações para aumentar a motivação direcionada para a pesquisa e apropriação da informação que nos é disponibilizada nos diferentes canais de informação.

JE | Estima-se que mais de 800 mil portugueses sofram de insuficiência renal crónica, aos quais o Estado disponibiliza o tratamento. Os tratamentos estão disponíveis para todos e no tempo desejável?

FV | Portugal é dos países, ao nível europeu, que tem indicadores que refletem a boa qualidade do tratamento que é proporcionado a todas as pessoas portadoras de doença renal terminal. Existem em Portugal mais de 100 unidades de diálise públicas e privadas que dão cobertura a todas as regiões do país. O nosso Sistema Nacional de Saúde está bem estruturado e garante a todos os doentes o tratamento e alguns medicamentos complementares, gratuitamente.

JE | Em termos de equipamentos, os serviços em Portugal estão bem munidos?

FV | Também ao nível das estruturas das organizações estamos muito bem. A legislação que regula o funcionamento das unidades de diálise é muito completa e atual e todo o equipamento técnico e material de consumo clínico respeitam as normas nacionais e europeias.

JE | O manual de boas práticas, que regula o trabalho dos enfermeiros de diálise, foi um passo essencial para a "especialidade"?

FV | O GOBP recomenda que os serviços ou unidades devem caminhar no sentido de que, pelo menos, 50% dos enfermeiros possuam competências específicas do enfermeiro especialista em enfermagem em pessoa em situação crítica ou pessoa em situação crónica e paliativa. Esta especialidade já está estruturada, podendo, no nosso entender e no futuro, haver ainda mais especificidade com a derivação para a área do tratamento por técnicas de substituição da função renal. A creditação é fundamental para a sustentabilidades dos cuidados.

JE | Na sua opinião, o que é preciso mudar na enfermagem em geral e para estes enfermeiros em específico?

FV | Ninguém tem dúvidas que o enfermeiro é imprescindível no processo do cuidar em nefrologia, devendo estar atento e não deixar que decisões mal fundamentadas e tomadas apenas em critérios economicistas venham lançar os enfermeiros para uma prática sem segurança e qualidade… os indicadores muitas vezes não refletem toda a realidade da prestação dos cuidados de enfermagem. Será importante para o futuro analisar com rigor se a prestação de cuidados de enfermagem é assegurada com dotações e rácios recomendados pelas organizações e instituições responsáveis, para garantir cuidados com qualidade e segurança. É preciso que se comece a pensar que os enfermeiros não são parte da despesa, mas sim uma mais-valia para obter ganhos em saúde. As organizações podem sempre melhorar a sua intervenção, mas também é preciso a colaboração de todos para que o seu trabalho possa influenciar de forma mais eficaz os envolvidos no processo de tratamento do doente com insuficiência renal crónica.

JE | Durante o congresso, irão também decorrer eleições para os corpos gerentes da associação. Vai recandidatar-se? Quais os objetivos para um próximo mandato?

FV | As últimas direções têm apelado a novos projetos de liderança para APEDT. Na realidade não têm havido. Talvez por confiarem na direção atual, também este ano existe uma única lista para os corpos gerentes, na qual continuo como presidente. A nossa preocupação durante este triénio continua a ser promover encontros técnico-científicos, realizar jornadas e congressos e difundir as revistas relacionadas com a área. Manteremos o envolvimento com outras organizações, como a Ordem e a EDTNA/ERCA, dando continuidade ao projeto proposto pela APEDT sobre dotações seguras e rácio enfermeiro-doente ao nível europeu. Continuaremos também o projeto que foi lançado através da elaboração do Manual de Qualidade das Atividades Formativas, documento institucional da Associação, que surge como parte integrante da política de qualidade e melhoria contínua da APEDT.


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