SPEO quer mais enfermeiros na definição de políticas de saúde

quinta, 23 fevereiro 2017 11:10 Henrique Pereira, presidente da Sociedade Portuguesa de Enfermagem Oncológica

Henrique Pereira 100 7c236"O enfermeiro é um profissional bem formado intelectualmente, com conhecimentos e formação específica na área da gestão e, por isso, munido de ferramentas para poder discutir o que são e, essencialmente, como devem ser implementadas políticas de curto, médio e longo prazo para o desenvolvimento e sustentabilidade do sistema de saúde."

A opinião é do presidente da Sociedade Portuguesa de Enfermagem Oncológica (SPEO), Henrique Pereira, que defende um "aumento exponencial da participação dos enfermeiros nesta atividade". 

Jornal Enfermeiro | Qual o papel dos enfermeiros na prevenção do cancro?

Henrique Pereira | Uma das atividades/funções dos enfermeiros relaciona-se com a educação para a saúde, que exige, para que se obtenham ganhos em saúde, conhecimentos específicos na área de oncologia, como por exemplo aspetos epidemiológicos de cancro, factores de risco, formação e desenvolvimento da doença oncológica, os diferentes tipos de cancro e seu comportamento. Só com um conhecimento específico e profundo é que o enfermeiro pode informar devidamente a população para que esta tome decisões adequadas e fundamentadas sobre a sua saúde. Também os saberes relacionados com o rastreio e meios de diagnóstico pode ser um contributo muito importante quer para a prevenção quer para o diagnóstico precoce da doença. Os enfermeiros, principalmente aqueles que exercem a sua actividade nos Centros de Saúde (nas mais diversas unidades ou serviços), têm uma grande responsabilidade em matéria de melhoria efetiva da literacia em saúde, onde se inclui, naturalmente, a área de oncologia. Existe hoje em dia um conjunto muito vasto de estudos científicos que evidenciam que o melhor é prevenir, porque o tratamento, apesar dos avanços extraordinários terapêuticos que se têm registado, é sempre um processo difícil e doloroso para o indivíduo portador da doença e sua família.

JE | Há dados sobre o número de enfermeiros a trabalhar em oncologia?

HP | É muito difícil porque hoje em dia o doente oncológico pode recorrer a qualquer serviço de saúde público e privado. Mesmo que o motivo que o leva a procurar um determinado serviço não seja relacionado com a sua doença oncológica, ele é portador dessa doença e o profissional de saúde, neste caso o enfermeiro, deve estar preparado para lidar com a situação. É certo que a vivência de um enfermeiro que trabalhe num serviço específico de oncologia será muito mais rica nas especificidades que caracterizam a doença. Em teoria todos os enfermeiros podem ter de atender, num qualquer momento ou serviço, um doente oncológico. Por isso, se assume que a formação contínua nesta área é muito importante.

JE | Estes enfermeiros recebem formação específica?

HP | Os planos de estudo da licenciatura em enfermagem integram matérias relacionadas com a oncologia, mas, em minha opinião, sobejamente insuficientes para que o enfermeiro se possa sentir confortável a cuidar de um doente oncológico. Neste sentido a formação ao longo da vida não é só necessária como obrigatória para a aquisição de competências de diversa ordem, técnicas, cientificas, relacionais e outras.

JE | Como é feita a articulação entre enfermeiros/médicos e enfermeiro/famílias (cuidadores)?

HP | Creio que cada vez mais se valoriza e se pratica o trabalho em equipa no âmbito da oncologia. Também tem vindo a ser reforçado o papel do doente e família no percurso da doença. A autoresponsabilização no cumprimento da colaboração que lhe é pedida, uma participação ativa na procura de informação e colaboração com os profissionais de saúde é uma boa medida no processo colaborativo e também no processo de aprender a lidar com a sua doença, na sua reintegração no trabalho, na família e na escola quando se trata, por exemplo, de crianças e jovens.

JE | Qual a importância dos enfermeiros na definição de políticas de saúde?

HP | Felizmente que hoje já temos muitos enfermeiros que ocupam lugares estratégicos que lhe permitem uma participação ativa na definição das políticas de saúde. Contudo, considero que é necessário aumentar exponencialmente a participação dos enfermeiros nesta atividade, seja ela de carácter mais formal ou de participação cívica. O enfermeiro é um profissional bem formado intelectualmente, com conhecimentos e formação específica na área da gestão e, por isso, munido de ferramentas para poder discutir o que são e, essencialmente, como devem ser implementadas políticas de curto, médio e longo prazo para o desenvolvimento e sustentabilidade do sistema de saúde. Também as vivências únicas que os enfermeiros têm, quer em contexto hospitalar quer comunitária permitem-lhe ter uma visão e opinião fundamentada das falhas do sistema e das reais necessidades das populações em matéria de cuidados de saúde.

JE | Segundo dados do relatório "Doenças Oncológicas em Números - 2015", da DGS, nos últimos anos, subiram os números de adesão ao rastreio e aumentou também a dispensa de medicamentos no SNS, mas estão a morrer cada vez mais pessoas com tumores malignos. Como se explica?

HP | Esta é uma questão que pode ter uma explicação multifactorial, contudo existem razões conhecidas de todos. Por um lado, as pessoa hoje em dia estão mais bem informadas quer por uma questão de motivação ou necessidade e, por isso, mais sensibilizadas para aderir aos rastreios oncológicos. Também os meios de informação e comunicação estão mais acessíveis e são muito diversificados. Por outro, a longevidade trás consigo um aumento significativo de doenças crónicas onde se inclui, naturalmente, o cancro e por isso a probabilidade de vir a morrer por cancro também é maior.

JE | Apesar de uma maior adesão ao rastreio, de acordo com o relatório da DGS, em 2014 as taxas de adesão, em geral, estavam abaixo dos 80% e em alguns casos até abaixo dos 50%. Os portugueses não estão a dar a devida importância à doença?

HP | A mudança de comportamento é um processo lento e moroso, por conseguinte é natural que existam assimetrias regionais no que se refere à adesão aos rastreios. A importância que as pessoas dão ou não dão aos rastreios deve ser contextualizada a determinadas variáveis que podem ser definidas como o nível de literacia em saúde, as condições socioeconómicas, a acessibilidade à informação, à disponibilização de meios locais ou regionais, até aos aspetos culturais. As pessoas até podem atribuir importância à doença mas pode não ter, por um lado, uma atitude proativa, por outro, não possuir ao seu alcance os meios necessários.

JE | A SPEO está a conseguir cumprir os seu objetivos de divulgação de práticas de prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento?

HP | A SPEO, em termos gerais, penso que tem cumprido os seus objetivos. Porém, para que pudéssemos fazer um trabalho mais consistente, precisávamos de ter secretariado e enfermeiros a full-time. Trata-se de um trabalho muito exigente e merecedor de uma continuidade que não é possível sem pessoas dedicadas a 100% a esta atividade. Estamos num processo de reorganização interna, que nos pode levar para o desenvolvimento de atividades que se coadunem com o que atrás foi dito. A investigação e a formação contínua são dois pilares prioritários e estratégicos para dar maior visibilidade ao nosso trabalho.

JE | Os congressos que organizam servem também para isso. O 10º Congresso Nacional de Enfermagem Oncológica foi reagendado para 30 de março e 1 de abril. Quais as expectativas para o congresso?

HP | As nossas expectativas relativamente ao modo como o congresso vai decorrer são muito positivas. Os temas e os intervenientes escolhidos são à partida garantia de sucesso. Pensamos que a adesão por parte dos enfermeiros também segue essa tendência.

JE | O tema escolhido para o congresso foi "Inovação e Multidisciplinariedade". É também isso que falta nos cuidados oncológicos em Portugal?

HP | Este tema deve estar sempre em discussão. Um e outro são dinâmicos, devem ser olhados como uma fonte de melhoria continua. Cada doente oncológico é único e, por isso, age e reage de forma única. Assim, quer numa perspectiva de uma única profissão e ou das diferentes profissões da saúde devem estar atentas a esta realidade para que as suas respostas sejam ajustadas e tornem efetivo o benefício para o doente e família, benefícios em termos de saúde pública e benefícios financeiros para o estado. Os cuidados em oncologia exigem que estas duas dimensões estejam sempre presentes.

angeladosvais@newsengage.pt