Opinião

Ventilação não invasiva em contexto hospitalar: o papel do enfermeiro

21 Abr. 2021

O papel do enfermeiro na ventilação não invasiva em contexto hospitalar é abordado neste artigo pela enfermeira Lucía Méndez. Dada a relevância dessa intervenção, advoga a necessidade de mais formação específica, com vista ao uso adequado desta técnica.

 

“O enfermeiro é o profissional de saúde mais próximo do paciente durante o internamento hospitalar, sendo sob os seus cuidados que está as 24 horas. Desta forma, assume um papel decisivo na ventilação não invasiva (VNI). Esta é a terapia de eleição em diversas patologias, cada vez mais utilizada pelos múltiplos benefícios e reduzidas complicações. 

Desde a origem da VNI surgiram muitos avanços tecnológicos que permitiram que, hoje em dia, existam ventiladores de pequenas dimensões, portáteis e silenciosos, assim como múltiplas interfaces que se adaptam a todos pacientes, permitindo ter uma boa qualidade de vida. De forma simplificada, um ventilador de VNI é um equipamento que capta o ar ambiente e através de uma turbina produz um fluxo de ar que exerce uma pressão positiva sobre a via aérea do paciente. Este fluxo permite melhorar o intercâmbio gasoso, diminuir o esforço respiratório, evitar a fadiga muscular e aumentar o volume corrente. 

Os ventiladores podem operar em dois modos: (i) por pressão, no qual a pressão sobre a via aérea vai ser constante e vamos ter um volume variável ou (ii) por volume, no qual temos um volume constante, previamente fixado, com uma pressão variável. Os modos de volume podem funcionar, com ou sem intervenção do paciente para iniciar o ciclo respiratório, dependendo do modo selecionado. Mais recentemente surgiram novos modos ventilatórios como são os modos VAPS (Volume-Assured Pressure Support), nos quais se pretende um volume alvo estabelecido com um intervalo de IPAP (initial inspiratory positive airway pressure), ou seja, fixamos um limite superior com uma IPAP máxima e um limite inferior com um IPAP mínima. O surgimento dos servo-ventiladores contribuiu para oferecer um suporte ventilatório adaptável às fases da respiração, necessárias em diversos pacientes com patologias do sono que apresentam apneias centrais. Para ajudar a adaptar e sincronizar o paciente ao ventilador, também é importante programar outros parâmetros como o “Trigger” ou sensibilidade, o tempo inspiratório, o “Rise Time” ou a ciclagem ou “Trigger expiratório”. 

Em Portugal, os ventiladores de VNI disponíveis diferem nas denominações dos modos ventilatório e nas escalas dos parâmetros programáveis. Dada a diversidade de equipamentos existentes no mercado, o importante é conhecer os equipamentos que temos no nosso hospital de forma a conseguir utilizá-los facilmente. O profissional de saúde deverá estar “confortável” no seu manuseamento. 

O surgimento da pandemia COVID-19 trouxe muitas preocupações relacionadas com a indicação para realizar VNI, em especial relacionadas com a elevada transmissibilidade do vírus e o potencial risco de contágio a outros pacientes e aos profissionais de saúde. À medida que o conhecimento foi aumentando, vários investigadores incluíram sem reservas a utilização da VNI em pacientes com COVID-19, especialmente em pacientes com DPOC, pacientes sem indicação para realizar ventilação mecânica invasiva (VMI) ou para desmame ventilatório após VMI. 

É importante recordar que, para garantir a segurança de cuidados, é imprescindível utilizar, em ambiente hospitalar, um filtro bacteriológico à saída do ventilador e utilizar uma interface não ventilada, com outro filtro imediatamente a seguir a interface, para filtrar o ar expirado. Este filtro é recomendável que seja humidificador, pois é desaconselhada a humidificação ativa pelo risco de aerossolização de gotículas, e também regulador da temperatura do fluxo de ar, introduzido para otimizar o conforto dos pacientes. 

O enfermeiro desempenha um papel fundamental na VNI, pois, em algumas ocasiões o êxito desta terapia depende dos seus cuidados, pelo que precisa de conhecimentos aprofundados nesta terapia, sendo de extrema importância promover formações em VNI para enfermeiros.”

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