“Não podemos nunca perder o foco no doente”

segunda, 19 outubro 2020 11:48 Dulce Cachata Gonçalves, diretora de enfermagem do Hospital de Cascais

Dulce Goncalves HC site ad131Estar na linha da frente de combate é estar na organização, nos serviços e, simultaneamente, garantir os cuidados aos doentes. Não podemos nunca perder o foco no doente, nem mesmo quando surge algo muito desconhecido, com um impacto enorme e que nos obriga a fechar um país, como foi o caso da pandemia de Covid-19.

No início foi muito complicado gerir o medo do desconhecido. Este foi um receio partilhado pela população e, acredito, por muitos profissionais de saúde. As pessoas começavam a ficar mais ansiosas pelo que viam acontecer nos outros países e havia o medo de que os equipamentos de proteção individual, não chegassem para todos. Outro grande desafio, mais ao nível da gestão, era não ter os meios suficientes para cuidar de todos os doentes que precisassem de nós. Não sabíamos se ia chegar o momento em que não conseguiríamos ter capacidade de resposta. Podia ser por falta de pessoas para trabalhar, por falta de espaço, indefinição de circuitos ou falta de equipamentos para cuidar de todas as pessoas. No fundo, o maior medo era que chegasse o dia em que tínhamos de decidir se existiam todos os meios para dar resposta a todos os doentes.

Tivemos vários receios, como é normal, mas que acabaram por desaparecer rapidamente a partir do momento em que iniciámos as formações e organizámos todos os circuitos e procedimentos. O facto de não termos sido um dos primeiros países a ser afetados pela covid-19, permitiu que nos preparássemos muito bem nos hospitais. Felizmente, tivemos mais tempo que outros países e toda a classe de enfermeiros estava muitíssimo bem preparada quando a pandemia chegou. Os enfermeiros agiram sem medo e com muito respeito pela pandemia, atuando sempre em conformidade com aquilo que foram as diretrizes. Estes profissionais demonstraram um espírito de missão e disponibilidade muito acima daquilo que esperava. Ainda nos dias de hoje temos profissionais, alguns que devido à idade fazem parte do grupo de risco, que se disponibilizam para estar no hospital diariamente e em qualquer serviço. Tínhamos, aliás, pessoas que não faziam noites há muitos anos e que estavam noutras áreas e foram as primeiras a demonstrar a sua prontidão e vontade de ajudar.

Destaco também todo o apoio dado aos profissionais de saúde neste momento tão difícil. Os enfermeiros mantiveram o espírito de missão porque tinham o reconhecimento dos pares, dos doentes, da comunicação social e muito apoio de toda a comunidade no geral. Foi de uma solidariedade incrível.

Tenho muita esperança que 2021 seja um ano mais promissor, embora ainda não saibamos bem como é o comportamento exato do vírus. É ainda demasiado desconhecido para termos alguma projeção de segurança com uma definição de tempo, mas quero acreditar que vamos estar em 2021 ainda muito melhor preparados do que estávamos em 2020.

A todos os enfermeiros do país, queria deixar o meu profundo agradecimento por estarem sempre aqui para aqueles que não podem cuidar de si próprios, garantindo que estes tiveram sempre alguém para cuidar deles.

 

Dulce Cachata Gonçalves, diretora de enfermagem do Hospital de Cascais