Enfermagem oncológica: que caminho?

segunda, 19 outubro 2020 11:43 Sara Torcato Parreira, Enfermeira Coordenadora de Cuidados de Oncologia – Unidade de Cancro Colorretal

Sara Torcato Parreira CUF artigo enfermagem oncologica site 0f73cOs sistemas de saúde enfrentam cada vez mais dificuldades com o envelhecimento da população e com o aumento do diagnóstico de doenças crónicas ou outras condições de vida possivelmente limitantes. A doença oncológica revela-se como uma das grandes prioridades nos programas nacionais de saúde por toda a Europa. Há uma clara necessidade de investimento na prevenção, no diagnóstico e no acompanhamento dos sobreviventes de cancro. Além disso, entramos na era da “medicina personalizada”, que traz novos conceitos, novos tratamentos e cada vez mais especificidade e complexidade. Torna-se, por isso, fundamental assegurar cuidados especializados que tragam melhores resultados para as pessoas com doença oncológica.

Quem o diz é a Organização Europeia de Cancro (European CanCer Organisation-ECCO), no seu parecer emitido já em 2017, sobre a importância e a necessidade da existência da Enfermagem Oncológica como uma especialidade reconhecida em toda a Europa. Sabe-se, com o trabalho de investigação que tem vindo a ser desenvolvido pela Sociedade Europeia de Enfermagem Oncológica, que nos países com uma prática de enfermagem especializada existem melhores resultados na segurança e qualidade dos cuidados para as pessoas com cancro. Mas não basta, apenas, reconhecer formalmente a especialidade. Para que isto aconteça necessitamos de educação avançada, de uma carreira estruturada e da integração dos enfermeiros nas equipas multidisciplinares. Trabalho interdisciplinar especializado – onde cada disciplina/área tem a sua função, mas todas se complementam – é um dos principais fatores para assegurar melhores resultados para as pessoas com cancro. 


A acrescer a esta necessidade surge a importância do continuum of care, desde o momento do diagnóstico até à fase paliativa ou de vigilância. E, aqui, a enfermagem tem um papel pivô, dada a sua contribuição e presença no percurso da pessoa com doença oncológica. Precisamos de reduzir ineficiências, assegurar a continuidade e ir ao encontro daquilo que as pessoas necessitam e que, na maioria das vezes, vai muito além do tratamento. Em Portugal, existem já contextos onde enfermeiros especialistas assumem o papel de Enfermeiro Coordenador de Cuidados Oncológicos. Estes enfermeiros integram a equipa multidisciplinar de unidades que diagnosticam e tratam determinado tipo de cancro e prestam cuidados de enfermagem especializados às pessoas com esse tipo de tumor, desde o momento do diagnóstico, até à fase de sobrevivência ou cuidados de suporte ou paliativos, acompanhando a pessoa e cuidadores regularmente, estabelecendo planos de cuidados individualizados e assegurando a continuidade de cuidados, mesmo entre diferentes setores ou valências. O objetivo é dar o apoio necessário à pessoa com cancro e seus familiares/cuidadores e criar mais valor durante este percurso, com a prestação de cuidados especializados por um enfermeiro de referência.

De facto, a educação e investimento em cuidados de enfermagem especializados, para benefício dos sistemas de saúde mas, sobretudo, das pessoas com doença oncológica é fundamental e amplamente defendido pelas próprias pessoas com cancro e organizações que as representam. O papel da enfermagem é de extrema relevância no sucesso e na forma como as pessoas com doença oncológica e os seus cuidadores experienciam a doença.

 

Sara Torcato Parreira
Enfermeira Coordenadora de Cuidados de Oncologia – Unidade de Cancro Colorretal
CUF Oncologia – Hospital CUF Infante Santo