Pode definir-se como sendo um serviço que fornece intervenções de saúde complexas, de curto prazo, no domicílio das pessoas e que visa substituir totalmente a hospitalização convencional, em que os cuidados são prestados por profissionais do hospital (Hernández et al., 2018). Nesta perspetiva, a HD surge como estratégia de humanização dos cuidados, com o doente e o cuidador como foco de atenção, encerra no objetivo da preservação dos valores socioculturais da pessoa mantendo a contextualização dos cuidados hospitalares no seu domicílio.
No âmbito do processo de modernização do SNS e valorização do Centro Hospitalar Tondela Viseu (CHTV), a UHD iniciou a sua atividade no dia 15 de abril de 2019. Contando com uma equipa de 2 médicos, 1 farmacêutico, 6 enfermeiros e 1 assistente técnico, iniciou-se com 6 camas domiciliárias, chegando atualmente às 12 camas. Disponibiliza apoio médico e de enfermagem em permanência 24 horas por dia, 7 dias por semana.
A referenciação dos doentes, tendo por base critérios clínicos e sociais, e a admissão no internamento domiciliário estará sempre dependente do acordo do doente e da família e está integrada no processo de planeamento de cuidados, que contempla a transição entre os diferentes níveis de prestação.
Especificamente na realidade da UHD do CHTV, a maioria dos doentes internados, 40%, são do foro respiratório e necessitaram (transitória ou definitivamente) de algum tipo de suporte ventilatório. A abordagem ao doente com estas necessidades requer uma avaliação multidisciplinar, na qual as empresas fornecedoras de gases medicinais e equipamentos respiratórios domiciliários têm um papel de destaque. A sua intervenção, baseada em décadas de experiência, torna-os num parceiro ideal para gerir os cuidados ao doente com patologia respiratória em contexto de internamento domiciliário.
Torna-se, assim, ainda mais premente uma avaliação adequada do nível de atividade do doente, condições habitacionais (espaço para circular com mínimo risco de queda) e suporte familiar (capacidade cognitivo-funcional e disponibilidade do cuidador). Uma avaliação dirigida permite assim uma adequação da prescrição e escolha do equipamento, potenciando o uso benéfico deste equipamento pelo doente.
A capacidade de agilização destes recursos e articulação com parceiros experienciados no apoio ao doente no domicílio, permite uma prestação de cuidados nesta área de elevada qualidade, garantindo o acesso ininterrupto aos cuidados adequados.
A presente pandemia alterou os alicerces da sociedade a nível mundial, colocando os holofotes nas instituições de saúde e nos seus profissionais. As alterações focaram-se numa palavra, mas com um impacto tão grande como a pandemia – segurança. Os procedimentos definidos pela UHD na sua prestação diária foram revistos. Definiram-se medidas a adotar e adaptadas ao contexto vivenciado e que foram contempladas no Plano de Contingência da UHD em resposta à pandemia pela COVID-19. Foram implementadas medidas de proteção fundamentadas nas orientações emitidas pela DGS pela CCIRA e com bastante rigor redefiniram-se circuitos de equipamento, transporte individualizado da medicação e métodos de desinfeção de equipamentos e viaturas. Numa ameaça real e efetiva, o novo vírus aprimorou, pela necessidade, a intervenção segura ao doente e o desempenho em segurança de todos os profissionais.
Os registos em saúde fazem parte do compêndio da segurança do doente e com grande impacto na sua recuperação, mesmo sem ter influência direta nele. Em contexto de UHD, a utilização segura de medicação em perfusão (contínua ou intermitente) é possível através de equipamento específicos CADD.
A tomada de decisão eletrónica é atualmente uma realidade para todos os profissionais do serviço. Os registos das intervenções estão todos informatizados, desde o processo de validação dos critérios de admissão ao simples efetuar da gestão de contacto telefónico para o doente/cuidador.
O modelo de prestação de cuidados encontra-se fora das paredes do hospital, passando o profissional de saúde a ser o convidado em casa do doente, ainda que a hospitalidade lusa emane de todas as paredes. A capacitação (e devida validação) do doente/cuidador é um desafio permanente, investindo-se em cada contexto na transmissão da informação de forma que se sinta objetivamente que o doente está seguro em sua casa. A literacia em saúde toma um espaço por reclamar, estando o profissional de saúde num local privilegiado para capacitar o doente – o seu domicilio. Não é um processo fácil, mas a aprendizagem é um processo contínuo, inicialmente exige um acompanhamento mais próximo, que se distancia à medida que a segurança preenche o seu espaço.
Num futuro próximo, acreditamos que a missão fundamental é conseguirmos uma maximização do valor em saúde sempre centrado na pessoa, na qualidade e segurança, inovação, tecnologia e sustentabilidade em tempos de crise. Os resultados vão depender dos ganhos em saúde e não do volume dos serviços prestados. Para reduzir os custos, a melhor abordagem é muitas vezes, investir mais em cuidados de grande valor.
Seguir os princípios de uma boa gestão como a transparência, partilha de responsabilidade, desenvolvimento profissional contínuo e informação, não esquecendo a motivação dos profissionais de saúde para a mudança e para o compromisso de prestar cuidados de qualidade.
Contudo, o nosso grande enfoque prende-se em estabelecer uma maior proximidade com os doentes/cuidadores, indo assim ao encontro das suas necessidades, enaltecendo a cultura de humanização e proximidade tão característica da hospitalização domiciliária.
Equipa da Unidade de Hospitalização Domiciliária do Centro Hospitalar Tondela Viseu
Referências bibliográficas:
Cotta, R., M., M., Suarez-Varela, M., M., González, A., L., Filho, J., S., C., Real, E.R. & Ricós, J., A. (2001). La Hospitalización Domiciliaria: antecedentes, situación atual y perspectivas. Revista Panamericana de Salud Publica/Pan American Journal of Public Health, 10 (1), 45-55. Disponível em http://scielo.iec.gov.br/pdf/rpsp/v10n1/5850.pdf
Hernández, C., Aibar, J., Seijas, N. & Puig, I. (2018). Implementation of Home Hospitalization and Early Discharge as an Integrated Care Service: A Ten Years Pragmatic Assessment. International Journal of Integrated Care, 18(2), 1-11. doi: http://doi.org/10.5334/ijic.3431
Qaddoura, A., Yazdan-Ashoori, P., Kabali, C., Thabane. L. (2015). Efficacy of Hospital at Home in Patients with Heart Failure: A Systematic Review and Meta-Analysis. PLoS One. 10(6), 1-15. doi: 10.1371/journal.pone.0129282. eCollection 2015
A hospitalização domiciliária (HD) surge pela primeira vez em 1945, nos Estados Unidos da América, com a experiência “Home Care”, que visava descongestionar os hospitais, assim como criar um ambiente psicológico mais favorável para o doente (Cotta & Suarez-Varela, 2001). Estando já difundida por vários países, Portugal iniciou-se com a Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD) no Hospital Garcia de Orta, em 2015.