Hospitalização domiciliária: o foco na proximidade

quinta, 15 outubro 2020 18:42 Equipa da Unidade de Hospitalização Domiciliária do Centro Hospitalar Tondela Viseu

Anuario Enfermeiro 2020 VitalAire 01 e90cfA hospitalização domiciliária (HD) surge pela primeira vez em 1945, nos Estados Unidos da América, com a experiência “Home Care”, que visava descongestionar os hospitais, assim como criar um ambiente psicológico mais favorável para o doente (Cotta & Suarez-Varela, 2001). Estando já difundida por vários países, Portugal iniciou-se com a Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD) no Hospital Garcia de Orta, em 2015.

Pode definir-se como sendo um serviço que fornece intervenções de saúde complexas, de curto prazo, no domicílio das pessoas e que visa substituir totalmente a hospitalização convencional, em que os cuidados são prestados por profissionais do hospital (Hernández et al., 2018). Nesta perspetiva, a HD surge como estratégia de humanização dos cuidados, com o doente e o cuidador como foco de atenção, encerra no objetivo da preservação dos valores socioculturais da pessoa mantendo a contextualização dos cuidados hospitalares no seu domicílio.

No âmbito do processo de modernização do SNS e valorização do Centro Hospitalar Tondela Viseu (CHTV), a UHD iniciou a sua atividade no dia 15 de abril de 2019. Contando com uma equipa de 2 médicos, 1 farmacêutico, 6 enfermeiros e 1 assistente técnico, iniciou-se com 6 camas domiciliárias, chegando atualmente às 12 camas. Disponibiliza apoio médico e de enfermagem em permanência 24 horas por dia, 7 dias por semana.

A referenciação dos doentes, tendo por base critérios clínicos e sociais, e a admissão no internamento domiciliário estará sempre dependente do acordo do doente e da família e está integrada no processo de planeamento de cuidados, que contempla a transição entre os diferentes níveis de prestação.

Especificamente na realidade da UHD do CHTV, a maioria dos doentes internados, 40%, são do foro respiratório e necessitaram (transitória ou definitivamente) de algum tipo de suporte ventilatório. A abordagem ao doente com estas necessidades requer uma avaliação multidisciplinar, na qual as empresas fornecedoras de gases medicinais e equipamentos respiratórios domiciliários têm um papel de destaque. A sua intervenção, baseada em décadas de experiência, torna-os num parceiro ideal para gerir os cuidados ao doente com patologia respiratória em contexto de internamento domiciliário.

Torna-se, assim, ainda mais premente uma avaliação adequada do nível de atividade do doente, condições habitacionais (espaço para circular com mínimo risco de queda) e suporte familiar (capacidade cognitivo-funcional e disponibilidade do cuidador). Uma avaliação dirigida permite assim uma adequação da prescrição e escolha do equipamento, potenciando o uso benéfico deste equipamento pelo doente.

A capacidade de agilização destes recursos e articulação com parceiros experienciados no apoio ao doente no domicílio, permite uma prestação de cuidados nesta área de elevada qualidade, garantindo o acesso ininterrupto aos cuidados adequados.

A presente pandemia alterou os alicerces da sociedade a nível mundial, colocando os holofotes nas instituições de saúde e nos seus profissionais. As alterações focaram-se numa palavra, mas com um impacto tão grande como a pandemia – segurança. Os procedimentos definidos pela UHD na sua prestação diária foram revistos. Definiram-se medidas a adotar e adaptadas ao contexto vivenciado e que foram contempladas no Plano de Contingência da UHD em resposta à pandemia pela COVID-19. Foram implementadas medidas de proteção fundamentadas nas orientações emitidas pela DGS pela CCIRA e com bastante rigor redefiniram-se circuitos de equipamento, transporte individualizado da medicação e métodos de desinfeção de equipamentos e viaturas. Numa ameaça real e efetiva, o novo vírus aprimorou, pela necessidade, a intervenção segura ao doente e o desempenho em segurança de todos os profissionais.

Os registos em saúde fazem parte do compêndio da segurança do doente e com grande impacto na sua recuperação, mesmo sem ter influência direta nele. Em contexto de UHD, a utilização segura de medicação em perfusão (contínua ou intermitente) é possível através de equipamento específicos CADD.

A tomada de decisão eletrónica é atualmente uma realidade para todos os profissionais do serviço. Os registos das intervenções estão todos informatizados, desde o processo de validação dos critérios de admissão ao simples efetuar da gestão de contacto telefónico para o doente/cuidador.

O modelo de prestação de cuidados encontra-se fora das paredes do hospital, passando o profissional de saúde a ser o convidado em casa do doente, ainda que a hospitalidade lusa emane de todas as paredes. A capacitação (e devida validação) do doente/cuidador é um desafio permanente, investindo-se em cada contexto na transmissão da informação de forma que se sinta objetivamente que o doente está seguro em sua casa. A literacia em saúde toma um espaço por reclamar, estando o profissional de saúde num local privilegiado para capacitar o doente – o seu domicilio. Não é um processo fácil, mas a aprendizagem é um processo contínuo, inicialmente exige um acompanhamento mais próximo, que se distancia à medida que a segurança preenche o seu espaço.

Num futuro próximo, acreditamos que a missão fundamental é conseguirmos uma maximização do valor em saúde sempre centrado na pessoa, na qualidade e segurança, inovação, tecnologia e sustentabilidade em tempos de crise. Os resultados vão depender dos ganhos em saúde e não do volume dos serviços prestados. Para reduzir os custos, a melhor abordagem é muitas vezes, investir mais em cuidados de grande valor.

Seguir os princípios de uma boa gestão como a transparência, partilha de responsabilidade, desenvolvimento profissional contínuo e informação, não esquecendo a motivação dos profissionais de saúde para a mudança e para o compromisso de prestar cuidados de qualidade.

Contudo, o nosso grande enfoque prende-se em estabelecer uma maior proximidade com os doentes/cuidadores, indo assim ao encontro das suas necessidades, enaltecendo a cultura de humanização e proximidade tão característica da hospitalização domiciliária.

 

Equipa da Unidade de Hospitalização Domiciliária do Centro Hospitalar Tondela Viseu

 

Referências bibliográficas:
Cotta, R., M., M., Suarez-Varela, M., M., González, A., L., Filho, J., S., C., Real, E.R. & Ricós, J., A. (2001). La Hospitalización Domiciliaria: antecedentes, situación atual y perspectivas. Revista Panamericana de Salud Publica/Pan American Journal of Public Health, 10 (1), 45-55. Disponível em http://scielo.iec.gov.br/pdf/rpsp/v10n1/5850.pdf
Hernández, C., Aibar, J., Seijas, N. & Puig, I. (2018). Implementation of Home Hospitalization and Early Discharge as an Integrated Care Service: A Ten Years Pragmatic Assessment. International Journal of Integrated Care, 18(2), 1-11. doi: http://doi.org/10.5334/ijic.3431

Qaddoura, A., Yazdan-Ashoori, P., Kabali, C., Thabane. L. (2015). Efficacy of Hospital at Home in Patients with Heart Failure: A Systematic Review and Meta-Analysis. PLoS One. 10(6), 1-15. doi: 10.1371/journal.pone.0129282. eCollection 2015