Determinação e resiliência em tempos de adversidade

quinta, 15 outubro 2020 16:48 Sara Martins, enfermeira diretora no Hospital CUF Porto e presidente do Conselho de Enfermagem da José de Mello Saúde, Isabel Aragoa, enfermeira diretora no Hospital CUF Coimbra e Natasha Pedro, enfermeira diretora no Hospital CUF Viseu

Sara Martins1 CUF site 23037Isabel Aragoa CUF site 0c81fEnf. Natasha Pedro CUF site b0932Este é o ano em que celebramos a enfermagem em todo o mundo, comemorando os duzentos anos do nascimento de Florence Nightingale. A Organização Mundial de Saúde definiu 2020 como “Year of the Nurse and the Midwife 2020”.

Nightingale nasceu a 12 de maio de 1820 e morreu a 13 de agosto de 1910. Durante a sua vida escreveu cerca de 200 obras, entre livros, relatórios e panfletos, todos eles com um enorme impacto na saúde e na reorganização dos serviços. Distinta pela sua visão diferenciadora, Nightingale define a enfermagem como uma nova profissão, conseguindo através dos seus conhecimentos e estatuto social, uma influência nas políticas de saúde e de educação.

Nightingale iniciou a profissão de enfermagem com a criação da sua escola em 1860 no Hospital St. Thomas, em Londres, atualmente parte do King's College de Londres. Era necessário qualificar e instruir os profissionais, partindo de saberes fundamentados e criar a evidência de resultados sensíveis aos cuidados e decisões dos enfermeiros.

Realizámos uma breve reflexão sobre o conhecimento desenvolvido por Nightingale que ainda hoje utilizamos no contexto atual de pandemia por COVID-19.

Durante a campanha britânica na Crimeia, Nightingale sistematizou a informação sobre qual a causa de morte dos soldados no lendário infográfico de 1858 “Diagrama das causas de mortalidade no Exército no Leste”. Percebeu que a principal causa não estava relacionada com lesões de guerra, mas com febre tifóide e cólera. As decisões estratégicas adotadas na análise dos dados permitiram revolucionar a medicina de guerra e as práticas de saneamento, ficando Nightingale reconhecida por utilizar informação produzida nos contextos para medir o resultado dos cuidados de saúde.

É na década de 1940 que a OMS utiliza a primeira versão da Classificação Estatística Internacional de Doenças, Lesões e Causas de Morte, atualmente (ICD 11).

A 25 de março de 2020, é emitido um código para COVID-19. Esta codificação é aplicada com o objetivo de termos dados estatísticos que permitem realizar a análise de tendências e definir estratégias de políticas de saúde com base na evidência.

A preocupação de Nightingale com a dinâmica hospitalar, surgiu pela constatação de que a omissão de algumas práticas e a não definição de espaços próprios para os cuidados se apresentavam como fatores determinantes na recuperação dos doentes.

Evidenciou, por exemplo, a importância da lavagem das mãos. No seu livro “Notas sobre Enfermagem” (1860) escreveu que “toda a enfermeira deve ter o cuidado de lavar suas mãos muito frequentemente ao longo do dia. Se lavar o rosto, também, ainda melhor”.

Os planos de contingência no contexto de pandemia atual, tem na sua génese os princípios definidos por Nightingale. Os circuitos, o isolamento e “segregação” de doentes, a utilização do equipamento de proteção individual e a lavagem das mãos são exemplos concretos deste legado, que hoje se constitui como indispensável no combate a este flagelo.

Nightingale publicou vários trabalhos onde detalhou falhas de construção e de instalação de equipamentos, promovendo reformas essenciais nos hospitais militares. Os ambientes hospitalares mais seguros levaram na época vários países a consultarem Nightingale quando pretendiam construir hospitais.

Foram construídos vários hospitais de campanha em tempo recorde, mas obedecendo a critérios básicos inicialmente definidos por Nightingale. A 03 de abril foi inaugurado o Nightingale Hospital London no centro de exposições ExCel no “combate” e tratamento de doentes em estado crítico com COVID-19, em sua homenagem.

 

Nightingale Challenge

Este ano, foi proposta pela OMS a iniciativa Nightingale Challenge, que consiste num programa de desenvolvimento de competências em liderança para jovens enfermeiros.

Em Portugal, apenas a Jose de Mello Saúde (JMS) foi selecionada, tendo sido adiada a data de início do programa. No entanto, a equipa de enfermeiros da JMS foi desafiada a liderar outro programa – o COVID-19. Repensaram a estrutura, os circuitos, os procedimentos e a organização das equipas.

Formaram, treinaram e geriram a mudança de processos e circuitos. Um verdadeiro treino de gestão e liderança!

Este ano será recordado na história da enfermagem pela ação concreta de cada um no “combate” à pandemia. Pela coragem, determinação e resiliência que demonstramos nos momentos de adversidade, tal como Nightingale!

 

Sara Martins, enfermeira diretora no Hospital CUF Porto e presidente do Conselho de Enfermagem da José de Mello Saúde
Isabel Aragoa, enfermeira diretora no Hospital CUF Coimbra
Natasha Pedro, enfermeira diretora no Hospital CUF Viseu