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O legado de Florence Nightingale e a recomposição de saberes e práticas da enfermagem

quinta, 15 outubro 2020 15:48 Carlos Louzada Subtil, presidente da Presidente da Sociedade Portuguesa de História da Enfermagem

Carlos Louzada Subtil 1 fdd68A Organização Mundial de Saúde (OMS) proclamou 2020 o Ano Internacional do Enfermeiro e da Parteira, assumindo que os “enfermeiros e parteiras desempenham um papel vital na prestação de serviços de saúde. (…) dedicam suas vidas a cuidar de mães e filhos, vacinam e fazem educação para a saúde, cuidam de idosos e, em geral, atendem às necessidades diá-rias essenciais de saúde; costumam ser o primeiro e único ponto de atendimento nas suas comunidades” e fazendo coincidir esta proclamação com o bicentenário do nascimento da enfermeira Florence Nightingale (1820-1910).

 

 

Perante os desafios atuais e futuros que se colocam à Enfermagem portuguesa e no mundo, em termos do seu empoderamento enquanto grupo profissional, é oportuno trazer à luz do dia o legado que esta enfermeira transmitiu às gerações de enfermeiros que lhe sucederam, desconstruindo, assim, a imagem iconográfica com que, por vezes, é apresentada.

Nascida numa família tradicional e aristocrática inglesa, Florence Nightingale viveu grande parte da sua vida na Era Vitoriana (1838-1901), uma era de prosperidade e paz, mas num qua-dro mental em que as mulheres estavam aprisionadas a questões de género que iriam influ-enciar as opções de vida que fez.

Foi uma época de incremento do conhecimento nomeadamente na área da Economia, da Psicologia e da Biologia, uma época de importantes descobertas para o avanço da medicina e o desenvolvimento do Higienismo e da Saúde Pública, da Bacteriologia e da Microbiologia, da Cirurgia e Anestesiologia. Aos 24 anos, assistiu à grande reforma do Sistema de Saúde Inglês impulsionada por Edwin Chadwick.

Mas o ambiente em que nasceu, cresceu e viveu foi marcado por rígidos costumes, mora-lismo social e sexual e fundamentalismo religioso. Estava em curso um forte movimento a favor do abolicionismo da escravatura e o Projeto de Reforma de 1832 tinha sido o ponto de partida para a agitação sufragista das mulheres inglesas.

Os movimentos feministas a favor da igualdade de género ganhavam força por várias razões. Os níveis de escolaridade eram muito baixos e a instrução das mulheres era objeto de dispu-ta de poder entre a Igreja e o Estado; as mulheres, pelo casamento, perdiam a sua individua-lidade e só em 1870 é que foi reconhecida personalidade jurídica às mulheres casadas; toda-via, ao homem era tolerado o adultério, a bigamia, incesto, rapto e violação de mulheres; era frequente o trafico e lenocínio das mulheres, o aborto e o infanticídio.

Florence Nightingale escolheu um de dois caminhos possíveis às raparigas do seu tempo e da sua condição: ou se assujeitava ao casamento e o seu futuro seria muito previsível ou optava por entrar em ruturas, desafiando os pilares da moral dominante, os bons costumes e a tradição, a favor duma causa que tinha um valor simbólico muito forte: ser enfermeira e dedicar-se à proteção dos mais pobres e desfavorecidos.

Esta opção não foi, por certo, original, pois já antes outras mulheres suas coevas tinham as-sumido essa opção. De igual modo, mais tarde, o seu exemplo foi seguido na Europa e, em Portugal, por uma plêiade de mulheres também de “famílias antigas e nobres”, que abraça-ram a enfermagem e criaram a Cruzada das Mulheres Portuguesas para a assistência aos soldados na 1ª. Guerra Mundial, ou as Damas Enfermeiras da Cruz Vermelha Portuguesa.
Florence Nightingale deve ser comemorada como uma enfermeira que inaugurou uma nova etapa no desenvolvimento da profissão, que beneficiou e soube aplicar à Enfermagem o novo conhecimento que estava a ser produzido.

Passando ao lado da sua extensa biografia, realço o que considero ser o seu mais valioso legado e que lhe conferiu competências extraordinárias ou seja, a sua sagacidade (compe-tência) política, a sua capacidade para observar e analisar as situações e os problemas, defi-nir objetivos e estratégias, falar e negociar com as pessoas certas, transigir naquilo que não é essencial, ser perseverante e não desistir, saber mobilizar a opinião pública, ser astuta, saber fazer pressão, saber argumentar e arranjar maneira de colocar os problemas na agenda dos decisores políticos.

Para quem não tem memória curta e conhece a história recente de Portugal, este tipo de enfermeiros foram indesejáveis durante a ditadura. Hoje, em democracia, os enfermeiros com competência política devem saber desconstruir discursos e práticas políticas enganado-res e ardilosos.

Em que é que incidiu a ação de Florence Nightingale e que continua hoje a fazer sentido? Destacaria três áreas a manter na agenda da atual e das futuras gerações de enfermeiros: a formação, hoje com novas questões, as condições de trabalho, um velho problema que se mantém, e o papel dos enfermeiros nos sistemas de saúde, na promoção da saúde e nos cuidados de saúde primários.

Para além das competências técnico-científicas e relacionais das quais os enfermeiros sem-pre deram provas da sua proficiência, a sagacidade (competência) política permitirá influen-ciar as tomadas de decisão a vários níveis, no que se refere às políticas e aos cuidados de saúde, uma competência que, aliás, decorre do compromisso social dos enfermeiros.

 

Carlos Louzada Subtil
Presidente da Sociedade Portuguesa de História da Enfermagem (SPHE)

www.sphenf.com