Entrevistas

Amália Pacheco: “A vacina é a melhor forma de prevenir os cancros associados ao HPV”

28 Abr. 2021

“O cancro do colo do útero é o resultado final e felizmente raro da infecção pelo HPV”. E “só aparece nas mulheres que não fazem prevenção com rigor”. São palavras da coordenadora da Unidade de Patologia do Trato Genital Inferior, Colposcopia Laser do Centro Hospitalar Universitário do Algarve, Amália Pacheco, em entrevista ao Jornal Enfermeiro, no âmbito da sua participação no webinar “Juntos pelo HPV – Questões práticas sobre prevenção”, promovido pela MSD Portugal, a 14 de abril. A especialista frisa a importância da recomendação médica e levanta a ponta do véu relativamente ao estudo que realizou para conhecer os fatores associados à aceitabilidade da mulher em fazer a vacinação contra o HPV.

Jornal Enfermeiro (JE) | Qual a importância da recomendação médica relativa ao HPV?

Amália Pacheco (AP) | O profissional de saúde deve apostar no aumento da adesão ao rastreio através de programas de informação e sensibilização das mulheres (educá-las para que a adesão ao rastreio aumente, pois, se não houver adesão, não se consegue atingir os objetivos do rastreio).

Por outro lado, o profissional de saúde tem um  papel importante no aconselhamento da vacinação, que deverá centrar-se na relação interpessoal, assegurar a compreensão da informação (precisa e pertinente relativa à infeção por HPV e doenças associadas, bem como benefícios das vacinas), esclarecer dúvidas, ouvir prioridades , valores, ter em atenção a  relação benefício-custo, para assegurar uma correta utilização.

JE | O cancro do colo do útero continua a ser frequente no nosso país. Considera que as mulheres não fazem a prevenção adequada?

AP | O cancro do colo do útero é o 3.º tipo de cancro mais frequente nas mulheres, representando 6,6% das mortes femininas por doença oncológica em todo o mundo. Na Europa, são detetados cerca de 58 mil novos casos todos os anos. É a 2.ª causa de morte por cancro em mulheres jovens (menos de 44 anos) em Portugal, ocorrendo cerca de 720 novos diagnósticos por ano.  Em Portugal, a incidência é de 16 casos/100 000 mulheres /ano. Segundo dados da Direção-Geral da Saúde, morre uma mulher por dia com este cancro. Segundo dados da OMS, Portugal é o país da Europa Ocidental com a taxa de incidência mais elevada deste tipo de cancro; A diminuição da incidência e da mortalidade do cancro do colo do útero são objetivos do Plano Nacional de Saúde desde 2001, através da criação de programas de rastreio com base populacional.  A realização de rastreios organizados demonstrou uma redução da mortalidade na ordem dos 80% nesta patologia, pelo que, desde 2008, teve início a sua implementação em Portugal. O cancro do colo do útero é o resultado final e felizmente raro da infecção pelo HPV. Contudo, o HPV é responsável por 99,7% dos cancros do colo útero, 78% da vagina, 25% da vulva, assim como das lesões pré-invasivas e invasivas anogenitais, da cabeça e pescoço.  A prevenção do HPV continua a ser a forma mais eficaz de combater a doença.

JE | Quais as razões para não o fazerem?

AP | Uma das possíveis razões que, a meu ver, leva muitas mulheres a não realizarem rastreio prende-se com a falta de pressão do lado de fora dos serviços: o rastreio é um direito dos doentes, tem de haver uma responsabilização das utentes. A população tem de saber aproveitar os benefícios que tem.

JE | Qual o foco do estudo que realizou em dois hospitais portugueses?

AP | Avaliar os fatores associados à adesão à vacinação contra o HPV nas mulheres não abrangidas pelo Programa Nacional de Vacinação (PNV).

JE | Quais as principais conclusões?

AP | A vacinação contra o HPV está associada à sua recomendação especialmente se recomendada para ser feita de imediato.

As mulheres vacinadas eram mais novas, apresentavam maior nível de escolaridade, tinham trabalho mais estável, e eram predominantemente não casadas. Os fatores que tiveram maior peso na decisão da vacinação foi terem citologia alterada, infeção por HPV de alto risco e terem sido sujeitas a tratamento excisional da zona de transformação.

JE | Qual a aceitabilidade da mulher em fazer a vacinação contra o HPV? É significativa? Que fatores a condicionam? Como melhorá-la?

AP | Uma vez aconselhada, a mulher tem boa adesão à vacina, se bem que o custo seja, para muitas, um obstáculo.

Nós, profissionais de saúde, devemos lembrar: a vacina é a principal via de prevenção primária, sendo o rastreio a principal estratégia de prevenção secundária. A primeira evita a infeção e, por sua vez, o aparecimento da doença. A segunda evita que uma lesão já existente progrida para cancro. Assim, a vacina contra o HPV é a melhor forma de prevenir os cancros associados ao HPV, pois está diretamente relacionada com a diminuição do risco de contágio pelo vírus. Alguns trabalhos já demonstraram, ao fim de 10 anos de utilização universal , que houve redução da infeção persistente aos HPV contidos nas vacinas, redução dos condilomas genitais e redução das lesões genitais de baixo e alto grau.

JE | O principal respon­sável deste cancro é o vírus do papiloma humano de alto risco (HPV). Considera fundamental a prevenção com a vacina e o rastreio?

AP | A principal medida é impedir a infeção do HPV (muito frequente em adolescentes e adultos jovens). Então temos de falar em vacinação, porque a vacina contra o HPV previne o cancro associado a estas infeções, os condilomas genitais e induz imunidade de grupo, com proteção adicional de não vacinados. 

A estratégia de prevenção primária consiste na vacinação contra o HPV. Esta vacina, que integra o Programa Nacional de Vacinação (PNV) desde 2008 e contempla, desde então, todas as raparigas e mulheres nascidas após 1992, confere uma proteção estimada em 90% para o cancro do colo do útero, 95% para o cancro do ânus, 90% para o da vulva, 85% para o da vagina e 90% para verrugas genitais.

A eliminação do cancro do colo do útero é uma realidade que se pode perspetivar num futuro mais ou menos próximo, dependendo da capacidade de cada país de implementar planos de prevenção primária (vacinação) e secundária (rastreios organizados);

Portugal foi um dos primeiros países a nível mundial a incluir a vacina contra o HPV no seu PNV e dos países com maiores taxas de cobertura vacinal nas raparigas (90%). Foi uma decisão visionária e que resultará em significativos ganhos em saúde para as mulheres Portuguesas.

A realização de rastreios organizados demonstrou uma redução da mortalidade na ordem dos 80% nesta patologia, pelo que desde 2008 teve início a sua implementação em Portugal.

JE | No que concerne à prevenção no âmbito da patologia ginecológica, considera que tem sido feito um investimento suficiente a nível nacional?

AP | Sim, tem sido feito. Mas devemos refletir: a infeção por HPV tem a sua máxima prevalência nos primeiros anos após o início da atividade sexual, o risco de adquirir novas infeções por HPV permanece elevado com a idade, 75% das quais por HPV de alto risco oncogénico.

Devemos, então, criar estratégias para mudar este panorama, e, de acordo com as metas da OMS, estas estratégias assentam em três pilares: vacinação, rastreio e tratamento. Para cumprir estas estratégias, é necessário um aconselhamento baseado na melhor evidência científica, de modo  a  aumentarmos a adesão à  vacinação, ao rastreio a ao tratamento e, assim, podermos cumprir a estratégia global que a OMS lança para eliminar o cancro do colo útero como problema de saúde pública –  uma oportunidade para tornar este cancro uma  doença do passado.

Anuário

Anuário Enfermeiro 2019

PUB