Entrevistas

Vacinação e rastreio: Dois aliados na prevenção do HPV

06 Abr. 2021

“O cancro do colo do útero só aparece nas mulheres que não fazem prevenção com rigor”. Quem o diz é Daniel Pereira da Silva, ginecologista no Hospital CUF Coimbra e membro do Instituto Médico de Coimbra, em entrevista ao Jornal Enfermeiro, no âmbito da sua participação, dia 14 de abril, no webinar “Juntos pelo HPV – Questões práticas sobre prevenção”, promovido pela MSD Portugal. O especialista frisa a importância de se cruzar a vacinação e o rastreio para prevenir a infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV).

Jornal Enfermeiro | O cancro do colo do útero continua a ser um tumor relativamente frequente no nosso país. Acha que as mulheres não fazem a prevenção adequada?

Daniel Pereira da Silva | O que se passa no nosso país é exatamente igual ao que se passa em todo o mundo – o cancro do colo do útero só aparece nas mulheres que não fazem prevenção com rigor.

JE | Quais as razões para não o fazerem?

DPS | Nos países com sistemas de rastreio melhor organizados, quando a mulher não comparece ao exame são chamadas e se não respondem uma assistente social ou uma enfermeira entra em contacto com ela pessoalmente. Temos de convir que há muitas mulheres que vivem vidas muito difíceis, têm múltiplas tarefas. Cuidam de tudo e de todos, e esquecem-se delas, o que é perfeitamente compreensível. As mulheres que têm cancro do colo do útero, pertencem a classes sociais com enormes carências. O sistema de saúde tem de pensar nessas mulheres, tem de atuar para as lembrar da necessidade de fazerem o rastreio e tem de facilitar a sua ida ao rastreio.

JE | O principal respon­sável deste cancro é o vírus do papiloma humano de alto risco (HPV). Acha fundamental a prevenção com a vacina e o rastreio?

DPS | A estratégia mais eficaz na prevenção do cancro do colo do útero é, sem dúvida, associar a vacina ao rastreio. A vacina deve ser feita por todas mulheres, independentemente da idade e vida sexual. Também aí as mulheres mais carenciadas têm mais dificuldades. A vacina não é comparticipada para as mulheres adultas fora do plano nacional de vacinação e devia ser.

JE | O método de rastreio mudou: deixou de ser a citologia e passou a ser a pesquisa do vírus (HPV). Como decorre o processo deste novo método?

DPS | O teste faz-se no mesmo material em que se faz a citologia. O teste tem uma sensibilidade superior, com menos falsos negativos. No mesmo material podemos fazer uma citologia, caso seja necessário.

JE | Com que periodicidade deve ser feito?

DPS | Deve ser repetido de 5 em 5 anos.

JE | A vacina para o HPV está disponível no Programa Nacional de Vacinação (PNV) apenas para as raparigas. Sendo os rapazes também transmissores do vírus, não seria ainda mais custo-efetivo incluir os rapazes nessa imunização a nível nacional?

DPS | Os rapazes também já estão a ser vacinados no âmbito do PNV. É, de facto, um avanço importante porque é um sinal de que todos estamos envolvidos neste processo, independentemente do género, o que corresponde à história natural da infeção pelo HPV.

JE | A vacinação permite reduzir o risco de infeção persistente, mesmo em pessoas sexualmente ativas e já tratadas a lesões causadas pelo vírus?

DPS | Sim, é verdade. Existe uma vacina com 7 tipos de HPV oncogénicos, o que dá uma abrangência de proteção para mais de 90% dos casos de cancro do colo do útero. Mesmo que uma mulher esteja infetada para um desses HPV, vai beneficiar da proteção para os outros que estão cobertos pela vacina. Em relação às mulheres que são tratadas por leões do colo do útero, há evidência de que a vacina protege significativamente contra o reaparecimento da lesão, para além de proteger para outros tipos de HPV que integram a vacina.

JE | No que concerne à prevenção no âmbito da patologia ginecológica, considera que tem sido feito um investimento suficiente a nível nacional?

DPS | O país tem feito um percurso interessante nesse aspeto. A incidência e mortalidade por cancro do colo do útero tem vindo a diminuir significativamente. Os casos graves reduziram de forma acentuada, mas continua a haver bolsas da população que não faz o rastreio e muito menos a vacina.  Mais de 90% das mulheres com menos de 29 anos estão vacinadas. A possibilidade de fazer o rastreio é uma realidade em todo o território nacional. Nesses aspetos estamos bem, mas temos de afinar a estratégia – temos de ter uma atuação especifica para as mulheres que não fazem o rastreio. Temos de as convidar, temos de “ir atrás delas”. Essas são o nosso problema atual e não faz nenhum sentido que não nos encontremos soluções para elas.

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