Entrevistas

Paulo Seabra: “Estamos num momento de olhar para os desafios que emergem do crescimento do fenómeno em CAD”

06 Abr. 2021

O 1.º Congresso Internacional da Associação Portuguesa dos Enfermeiros dos Comportamentos Aditivos (IntNSA Portugal) vai decorrer de 12 a 13 de abril, em formato virtual, sob o mote “Desafios, Limites e Competências em Comportamentos Aditivos e Dependências”. Em entrevista ao Jornal Enfermeiro, o presidente da IntNSA Portugal, Paulo Seabra, faz uma antecipação do evento, refletindo sobre a importância da atualização de conhecimentos nesta área.

 

Jornal Enfermeiro | O 1.º Congresso Internacional da Associação Portuguesa dos Enfermeiros dos Comportamentos Aditivos (IntNSA Portugal) arranca dia 12 de abril. Quais os principais desafios do congresso?

Paulo Seabra | Os principais desafios do congresso estão relacionados com a história desta associação. Temos uma história recente (fundada em maio de 2019), começamos como um pequeno grupo de enfermeiros, que quer crescer e agregar mais colegas até de outras áreas. Passamos o primeiro ano a contactar colegas, para expandir a rede e a preparar o nosso 1.º congresso, que estava programado para maio de 2020, presencial e com dois dias de duração. Esse seria o grande momento de apresentação, com a possibilidade de motivar mais colegas a juntarem-se. Bom, veio o Covid e cancelamos o congresso. A partir daí a atividade da associação manteve-se. Realizamos três webinares o ano passado, com diferentes temáticas, à medida que íamos preparando o nosso “novo” 1.º congresso em 2021. E aqui chegados, o desafio é, chegar aos colegas, agregar profissionais, estimular a que mais enfermeiros se juntem, pois, o número de enfermeiros a trabalhar na área dos comportamentos Aditivos e Dependências (CAD), em Portugal, é de algumas centenas, em muitas áreas de intervenção, nas unidades especializadas de tratamento, nas UD, nas CT, nos cuidados de saúde primários, nos hospitais, nas prisões. 

Voltando aos desafios: como fazer um congresso atrativo? a sua duração? a adequação em termos de programação horária para um formato virtal? um valor justo? que temas assumem prioridade na atualidade? como as temáticas podiam despertar interesse em profissionais de várias áreas? Para lá do grande desafio que é fazermos com que a via digital e remota, não nos pregue nenhuma partida nos dias do evento.

JE | “Desafios, limites e competências em comportamentos aditivos e dependências (CAD)” foi o lema deste primeiro congresso. Porquê?

PS | Estamos num momento de olhar para os desafios que emergem do crescimento do fenómeno em CAD (com e sem substâncias) a nível global. E este aspeto já era relevante sem a Covid-19. Esta pandemia só nos convoca para a necessidade de olharmos o crescimento do fenómeno de outra perspetiva, pelos números que possam estar subavaliados ou pelo surgimento de outras formas de expressão.

O país está a apresentar a avaliação do plano nacional dos CAD 2013-2020, temos a nova estratégia europeia 2020-2025, a revisão dos “International standards for the treatment of drug use disorders” 2020, das Nações Unidas, o relatório da Harm Reduction International 2020.

Os desafios emergem deste conjunto de fatores, portanto, sentimos que precisamos de criar um espaço de discussão sobre a intervenção de enfermagem nesta área, que tem a sua história e trabalho sólido com benefícios da população, mas, tem poucos espaços de discussão. Os desafios emergem dos problemas das pessoas, das suas múltiplas e complexas necessidades em saúde, dos novos CAD, das estratégias de proximidade, do combate ao estigma e como nós podemos fazer diferente, como podemos incrementar uma prática baseada na evidencia?

Sobre os limites, importa refletir sobre isso. Se os limites são da natureza do exercício profissional, se existem limites para os profissionais num fenómeno tão complexo e em permanente mutação, ou ainda, se os limites normativos são barreiras ao suporte que as pessoas precisam.

As competências são para ser refletidas enquanto confluência de saberes interdisciplinares, mas também do papel de cada um. Refletir sobre as competências dos enfermeiros para esta intervenção. Claro que na nossa perspetiva, os enfermeiros têm múltiplas competências para responder aos problemas complexos das pessoas, famílias e comunidades. No desenvolvimento recente da enfermagem dá-se um fenómeno interessante. Os enfermeiros ao longo da sua carreira fazem formação avançada, diferenciada (que deve ser aproveitada em prol da saúde das pessoas) mas, na perspetiva de muitos, e não só enfermeiros, está subaproveitada em muitos contextos de saúde e não só na área dos CAD.

Na estrutura da profissão, temos quadros de competências acrescidas avançadas em algumas áreas, e daí, defendemos que esta pode e deve ser uma área de intervenção de prática avançada. Vamos discutir.

JE | O que tiveram em conta para conseguir encontrar um programa que fosse “apelativo” para quem vai assistir ao congresso nestes moldes online?

PS | Um dia e meio pareceu-nos adequado. Mesas temáticas não muito extensas ou com muitos preletores, oportunidade para se discutir e espaço para as questões. Depois, temas atuais e na ordem do dia que alguns membros nos fizeram chegar e tivemos o apoio de uma comissão científica externa aos órgãos da associação. Teremos espaços para apresentação de trabalhos de disseminação de boas práticas e/ou de partilha de resultados de investigação. E aqui mais uma vez estimulando a participação de equipas multidisciplinares.

Tivemos ainda a preocupação de dar espaço de apresentação da nossa ligação internacional à International Nursing Society on Addiction. Acreditamos que no futuro, a partilha de conhecimento, experiências e boas práticas, pode trazer benefícios aos cuidados de saúde que prestamos.

JE | Que temas destaca nesta edição?

PS | Diria todos. Temos em Portugal a problemática do consumo problemático de álcool e com base na evidência das estratégias de proximidade, deteção e intervenção precoce e encaminhamento, vamos discutir. Destaco a reflexão sobre abordagens preventiva e terapêutica junto de pessoas com CAD sem substância. Destaca-se ainda a intervenção e redução de riscos e minimização de danos numa perspetiva internacional. A realidade brasileira, as intervenções de proximidade no contexto de rua em Portugal, a intervenções nas salas de consumo seguro para consumidores de substâncias por via injetável e a sua necessária reflexão ética.

JE |De que forma o congresso contribui para a atualização de conhecimentos sobre comportamentos aditivos e dependências?

PS | Acreditamos que com estes convidados, vão emergir boas práticas e baseadas na evidência. São pessoas que nos podem trazer essa atualização e outras formas de olhar o fenómeno. Depois temos a participação da presidente da International Nursing Society on Addiction, que nos vai trazer o que se passa pelo mundo. A apresentação de trabalhos de investigação que emergem do terreno é sempre um ar fresco e atual nestes eventos.  Na essência, queremos estimular a procura de conhecimento e boas práticas baseadas na evidência.

JE | Qual o papel do IntNSA Portugal na partilha de conhecimento e disseminação de informação sobre a temática?

PS | A IntNSA Portugal tem esse desígnio na sua missão. Ser um veículo de produção, partilha e disseminação de conhecimento. Este congresso é um exemplo. Para fazer mais, precisa de mais membros enfermeiros e da sua participação mais ativa. Acolhemos ainda outros que não sendo necessariamente membros, queiram colaborar. Só assim se pode avançar. Por outro lado, assumimos que devemos aprender com outros, mas precisamos de tomar consciência do nosso papel, do contributo que diariamente fazemos para o bem comum e temos de partilhar. Fazer crescer o potencial das intervenções não farmacológicas, assumir a autonomia e a responsabilidade que as necessidades de saúde das pessoas requerem, assumir a liderança em projetos.

Assumimos ainda o desígnio de estimular a investigação na área dos CAD em geral, na área dos cuidados de enfermagem em CAD em particular. E por isso no evento vão ser anunciados os projetos, que depois de terem concorrido à bolsa de investigação que criámos, foram selecionados e vão ser apoiados monetariamente ao longo do próximo ano.

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