Entrevistas

"Os enfermeiros oncologistas são preponderantes, em particular nos cuidados primários"

02 Fev. 2021

A SPEO – Sociedade Portuguesa de Enfermagem Oncológica considera indispensável reforçar as equipas de saúde com recursos humanos especializados na área da Oncologia. Envolver mais os cuidados de saúde primários no rastreio e diagnóstico precoce. E alargar as parcerias do setor público com o privado, olhando para o SNS como um todo. Em entrevista, a presidente, enfermeira Carla Rodrigues Silva, aborda também a realidade particular do cancro do colo do útero e do cancro da mama.

 

Jornal Enfermeiro | Que implicações principais está a ter, no dia a dia dos enfermeiros oncologistas, a evolução da Covid-19?

Carla Rodrigues Silva | A situação pandémica que se arrasta há aproximadamente um ano tem representado uma amputação à liberdade de ação e de afetos que, associada à incerteza face ao futuro, coloca sérios desafios à saúde mental da população em geral e dos profissionais de saúde em particular, dentre estes, os enfermeiros. No caso particular dos enfermeiros oncologistas, acrescem, ainda, situações de stresse e angústia inerentes à prestação de cuidados que se relacionam com a vivência de situações limite – como a morte – e com o confronto diário com experiências dolorosas, em que a dor ultrapassa o corpo, ao extravasar a dimensão física. Trata-se de uma dor dita total porque afeta várias esferas da vida da pessoa com doença oncológica, assim como da sua família, sendo esta verdadeiramente mais difícil de aliviar. Vale a pena sublinhar que, no contexto da situação pandémica em que nos encontramos, estas vivências acontecem sem a segurança e o conforto que a presença da família – ou de pessoa significativa – ancoram. Os profissionais de saúde passam a ser a única presença física de relação, porém, de uma relação permeada e possível pelo uso de equipamentos de proteção individual (EPI), numa dialética que acaba por ser contraditória – ao permitirem-nos uma proximidade segura, os EPI transformam-nos em pessoas sem rosto e, nesse sentido, distanciam. Importa frisar, também, a enorme responsabilidade profissional e pressão social sentidas pelos enfermeiros oncologistas, no sentido de não se constituírem veículos de transmissão do SARS-CoV2 à pessoa que vive com doença oncológica, já por si debilitada pelas suas idiossincrasias e por aquelas impostas pelo próprio processo de doença. A evolução galopante desta pandemia está a transformar o mundo num lugar progressivamente ameaçador à pessoa que vive com doença oncológica. Por um lado, existe um crescente número de pessoas a ver os seus tratamentos adiados por se encontrarem positivas para o SARS-CoV2, com todas as repercussões significativas que daí advêm; outros, findados os tratamentos, regressam a uma realidade hostil para um sistema imunitário vulnerável. Por outro lado, e no contexto da gestão da disponibilidade dos recursos de saúde existentes, não são raras as vezes em que a pessoa com doença oncológica se vê confrontada com a necessidade de ser transferida para outra instituição hospitalar, abandonando aquela que era a da sua referência emocional e afetiva. Em tempos em que o tempo é escasso e o trabalho extremamente abundante, existe um risco acrescido dos enfermeiros oncologistas desenvolverem burnout, dado o estado de esgotamento físico e mental que experienciam. É premente, por isso, cuidar também daqueles que cuidam, uma vez que situações de stresse elevado podem, numa espiral de sofrimento, conduzir a situações graves de erosão das competências cognitivas, técnicas e relacionais destes profissionais de saúde.

 

JE | Para a SPEO, de que forma e com que meios será possível recuperar os níveis de resposta ao diagnóstico e tratamento da doença oncológica?

CRS | A recuperação deverá implicar diferentes níveis de atuação. É fundamental o reforço das equipas de saúde com recursos humanos especializados na área da Oncologia e o envolvimento dos cuidados de saúde primários no âmbito do rastreio e diagnóstico precoce. Do mesmo modo, é premente que se reforcem as parcerias do setor público com o privado, olhando para o Sistema Nacional de Saúde como um todo, potencializando-se os recursos disponíveis. Importa incrementar a utilização de tecnologia baseada em inteligência artificial, enquanto estratégia fundamental na identificação precoce de novas patologias. Não sendo novo, é importante o acesso facilitado dos cidadãos mais distantes dos centros urbanos ao telediagnóstico e telemedicina, no sentido do diagnóstico precoce com impacte significativo no prognóstico, qualidade de vida e bem-estar das pessoas que vivem com doença oncológica. Destacaria, ainda, a relevância de se criarem programas de gestão de casos para a identificação de pessoas mais vulneráveis e que necessitem de intervenções mais diferenciadas, em prol da garantia contínua da qualidade da assistência.

 

JE | Pandemia à parte, e em circunstâncias normais, vejamos o caso do HPV/cancro do colo do útero. Como enquadra os enfermeiros oncologistas, desde a prevenção até ao acompanhamento do doente?

CRS | Apesar dos avanços significativos no rastreio, diagnóstico e tratamento, este continua a ser um dos cancros mais frequentes e que mais vidas tem ceifado entre as mulheres de todo o mundo. O Programa Nacional para as Doenças Oncológicas (PNDO) tem como visão, atualmente, a diminuição dos cancros evitáveis e os diagnósticos tardios através da prevenção e diagnóstico precoce, nos quais o cancro do colo do útero se incluí. Na generalidade dos casos, este cancro resulta da infeção genital pelo Vírus do Papiloma Humano (Human Papillomavirus – HPV). Um vírus silencioso que, por isso mesmo, nos convoca, enquanto enfermeiros oncologistas, a sensibilizar para a importância da vacina e do rastreio, devendo investir-se, impreterivelmente, na prevenção primária e secundária, que se traduz em “vacinar as jovens e rastrear as mães”. Importa, no âmbito da vacina contra o cancro do colo do útero, já integrada no Plano Nacional de Vacinação, que as mulheres vacinadas não deixem de ser rastreadas. E assim deve ser, uma vez que este cancro pode ser provocado por tipos de vírus não cobertos pela vacina. Os enfermeiros oncologistas assumem um papel preponderante neste campo, principalmente ao nível dos cuidados de saúde primários, contribuindo para fazer eco da importância do rastreio junto das mulheres, intervindo ao nível dos cuidados de saúde primários, na comunidade local, e até pela criação de medidas com visibilidade nacional. Defendemos que esta sensibilização deve chegar também às crianças, através de projetos adequados, por exemplo, na área da saúde escolar. O rastreio do cancro do colo do útero causa, por vezes, ansiedade na mulher – é frequente ser o médico de família a realizar o exame, inibindo-a. O rastreio pode ser encarado, portanto, como algo constrangedor ou, até mesmo, doloroso; e o período de espera pelos resultados e a necessidade de, em alguns casos, se repetir o exame, são alguns dos motivos de não adesão aos rastreios. Por outro lado, além do estigma associado ao cancro, a mulher vê-se confrontada com uma doença que atinge um órgão carregado de simbolismo nos domínios da sexualidade, feminilidade e reprodução. O cancro do colo do útero interfere, assim, na esfera pessoal, familiar e social da mulher. Em termos pessoais, afeta a capacidade fértil e a sua vida afetiva e sexual. A obrigatoriedade dos tratamentos e os respetivos efeitos secundários limitam a capacidade de resposta às responsabilidades profissionais. E estas alterações pessoais e profissionais acabam por se repercutir no plano familiar. Cabe ao enfermeiro oncologista a responsabilidade de recolher dados para identificar o que motiva a não adesão ao rastreio do cancro do colo do útero. Temos, sublinhe-se, um conhecimento diferenciador na gestão de sinais e sintomas associados à modalidade ou modalidades terapêuticas instituídas, intervindo ao nível da adesão e capacitação para a gestão do regime terapêutico. As nossas competências passam por promover a adaptação da pessoa que vive com cancro do colo do útero à nova condição, atuando no campo das estratégias de coping, da reabilitação e no seguimento dos sobreviventes de doença oncológica.

 

JE | No que reporta ao cancro da mama, que ideias-chave devemos reter das recomendações da SPEO e do papel que cabe aos enfermeiros oncologistas?

CRS | Estamos perante o tipo de cancro mais comum entre as mulheres, causado, na maioria dos casos, por uma anomalia genética (um “erro” no material genético), sendo reduzida a percentagem de cancro da mama hereditário. As referidas anormalidades genéticas acontecem em resultado do processo de envelhecimento e do “desgaste” da vida em geral. E, embora existam fatores de risco associados, importa que os enfermeiros oncologistas desconstruam sentimentos de culpa apresentados, por vezes, pela pessoa que vive com cancro da mama. A gestão de expectativas e a desmistificação e o esclarecimento de ideias pré-concebidas ou “falsas verdades”, tendo por base a evidência científica atual, estão entre as funções do enfermeiro oncologista no cuidado à pessoa que vive com cancro da mama e sua família. Importa sensibilizar a população, sobretudo a feminina, para a importância da redução de fatores de risco como a obesidade, o consumo etílico e tabágico, assim como para os benefícios da adoção de estilos de vida saudáveis. É fundamental, igualmente, aumentar a sensibilização para o rastreio preventivo e o diagnóstico precoce. Mas, fazê-lo, não passa por trabalhar apenas o conhecimento da população, já que a assunção de um dado comportamento requer conhecimento – e, acima de tudo, consciencialização. Razão pela qual os enfermeiros oncologistas deverão evoluir para a avaliação daquela que é a consciencialização da população. Deixou de ser suficiente “ensinar sobre…”. Se conhecimento fosse sinónimo de consciencialização, as pessoas não adotariam comportamentos de risco numa “sociedade da informação”, em que esta circula e é difundida ao segundo. E assim sucede em resultado do desenvolvimento das novas tecnologias da informação, do audiovisual e das comunicações, com um forte impacto em vários domínios da vida humana, como é o caso da saúde. O autoexame é a pedra angular do diagnóstico precoce do cancro da mama e, apesar das numerosas campanhas de sensibilização, há pessoas que não o fazem. Resta perguntar: “porquê?”. A resposta poderá estar alinhada com a tal falta de consciencialização. Será que a pessoa acredita ser verdadeira a informação? Será que acredita, efetivamente, na importância do autoexame? Ou será que não o faz porque não se acha capaz? Ou porque tem medo de detetar alguma alteração na mama? Estas são perguntas para as quais os enfermeiros oncologistas devem recolher dados de forma intencional, no sentido de perceber se existem outros fatores a condicionar aquela tomada de decisão, que não apenas o défice de conhecimento. Cabe-nos, ao longo do processo de enfermagem, recolher dados centrados em domínios como os da consciencialização, autoeficácia e significados, de forma a garantir uma maior completude na identificação das necessidades destas pessoas. É esperado que os enfermeiros oncologistas se constituam agentes facilitadores do processo de transição saúde/doença, contribuindo para a promoção de uma adaptação saudável. A nossa ação centra-se, fundamentalmente, na promoção das capacidades de autocuidado e na capacitação da pessoa para prevenir as complicações que decorrem do tratamento, por meio de intervenções de enfermagem no âmbito da educação e da instrução/treino, que promovam o desenvolvimento de competências cognitivas e instrumentais, respetivamente. No contexto em que vivemos, ganham corpo estratégias de ensino-aprendizagem à distância, com o uso de equipamentos de multimédia, aplicações interativas on-line e o acompanhamento via telenursing. A mama está associada à feminilidade, sensualidade e maternidade, justificando que a mutilação física (e, porventura, principalmente, emocional), que ocorre aquando do tratamento cirúrgico (mastectomia), seja outro aspeto de relevo considerado pelos enfermeiros oncologistas. São comuns sentimentos de inferioridade num mundo que preza a beleza, a produtividade e a perfeição. Os mass media perpetuam, por sua vez, a obsessão pela aparência, potenciando sentimentos de insegurança. Em situações mais graves, a pessoa submetida a mastectomia pode acabar por internalizar o estigma, passando a assumir uma postura de depreciação/desvalorização do eu, por se considerar um ser desviante, principalmente quando o “defeito” é evidente. O enfermeiro oncologista tem, portanto, um papel determinante na avaliação das estratégias de coping mobilizadas pela pessoa que vive com cancro da mama, no sentido de perceber se o coping é adaptativo ou não, além de assumir uma figura de destaque nos cuidados de suporte, desde o diagnóstico até aos cuidados de enfermagem inerentes ao tratamento instituído. É fundamental que o acompanhamento da pessoa que vive com cancro da mama seja feito por uma equipa multidisciplinar, em que tanto fatores internos como externos são avaliados, pelo forte impacto que operam no curso do processo de recuperação/adaptação.

 

JE | Com que palavras, com que sugestões a SPEO reflete sobre o Dia Mundial do Cancro assinalado em 2021?

CRS | O Dia Mundial do Cancro é um evento global que une a população, em geral, e os profissionais de saúde, em particular, em torno de uma luta imparável e, por isso, inadiável. Trata-se de uma iniciativa levada a cabo pela União Internacional do Controlo do Cancro, baseada na Carta de Paris, documento aprovado em 4 de fevereiro de 2000, e que visa unir esforços em prol da prevenção e da cura da doença oncológica. A comemoração deste Dia pretende aumentar a consciência da população a respeito do cancro, dos seus fatores de risco, assim como das formas de diagnóstico e de tratamento. A prevenção, assim como o diagnóstico precoce, são as prioridades na luta contra o cancro. Importa, nesse sentido, capacitar a população para a escolha informada e consciente de estilos de vida saudáveis e protetores. Só aumentando o empowerment dos cidadãos, no que toca a decisões na área da saúde, será possível envolver toda a sociedade, na certeza de que cada indivíduo tem um papel preponderante a desempenhar nesta luta. O slogan da campanha do Dia Mundial do Cancro para 2019-2021 é “Eu sou… e Eu Vou…”. Esta afirmação é tradutora do compromisso que, em primeira instância, se apresenta como individual, mas que, em boa verdade, assume um caráter coletivo. As ações de cada um podem reduzir de forma considerável o impacte do cancro na própria pessoa (p.e: ter um estilo de vida saudável), nas pessoas que nos são significativas (p.e: deixar de fumar) e no mundo em geral (p.e: vacinar-se). Os enfermeiros são uma peça fundamental neste contexto, nomeadamente os enfermeiros oncologistas, que, segundo a Sociedade Europeia de Enfermagem Oncológica, prestam cuidados mais seguros e com maior qualidade à pessoa que vive com cancro, assim como à sua família/cuidadores. Assumem um papel pivô na prevenção, no rastreio e diagnóstico precoce e no acompanhamento da pessoa e sua família durante todo o processo de doença oncológica e folllow-up, com resultados positivos sensíveis às intervenções de enfermagem. Importa, definitivamente, que a luta contra o cancro constitua uma prioridade na saúde mundial e na agenda política. E que cada pessoa, per se, seja o herói da sua história e contribua para o sucesso no combate ao cancro, que é uma história de todos!

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