Associação Portuguesa de Infeção Hospitalar: Enfermeiros são os profissionais de primeira linha no controlo da infeção

segunda, 19 outubro 2020 13:30 Associação Portuguesa de Infeção Hospitalar

Lucio Meneses de Almeida Presidente APIH d70fbAs infeções associadas aos cuidados de saúde são um problema de saúde pública e preveni-las é assegurar o direito a cuidados seguros e de qualidade. Quem o defende é Lúcio Meneses de Almeida, presidente da Associação Portuguesa de Infeção Hospitalar, destacando o papel dos enfermeiros como verdadeiros agentes de cidadania em controlo da infeção.

Jornal Enfermeiro | As infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS) representam um problema de saúde pública à escala global. Que impacto têm a nível social e económico, e na vida dos doentes?
Lúcio Meneses de Almeida | As IACS e as resistências aos antimicrobianos são um problema de saúde global porque afetam a generalidade dos países – e, muito em particular, os países menos desenvolvidos. Nestes países, as condições de trabalho e o treino e formação dos profissionais, em controlo da infeção, são deficitários, o que torna a frequência de infeção assistencial muito superior à de países com mais recursos.
As consequências das IACS são várias: morbilidade e mortalidade, aumento da demora média hospitalar, custos associados ao tratamento e, acima de tudo, sofrimento. São, conceptualmente, um problema de saúde pública – tanto mais que, na sua maioria, são evitáveis.
Portanto, têm um impacto, não só clínico-assistencial, mas, sobretudo, societário. Tendo os serviços de saúde como missão prevenir e tratar a doença, as IACS são, na sua essência, inaceitáveis. Preveni-las é assegurar o direito a cuidados seguros e de qualidade.

JE | Quais são as mais comuns infeções associadas aos cuidados de saúde?
LMA | As associadas a procedimentos invasivos, como algaliações (infeções do trato urinário), acessos vasculares ou ventilação mecânica. Mas, também, as associadas a procedimentos cirúrgicos (infeções do local cirúrgico), necessariamente invasivos.

JE | Que medidas e comportamentos devem ser tomados para as evitar?
LMA | Genericamente, o respeito pelas medidas de controlo da infeção, de âmbito individual e ambiental. No primeiro caso, temos a lavagem/higienização das mãos (que é a medida singularmente mais efetiva em controlo da infeção) e o uso apropriado dos equipamentos de proteção individual (EPI).
A adequação do uso dos EPI tem a ver, primariamente, com o contexto assistencial e, secundariamente, com a sua utilização correta (colocação e remoção). Há que evitar, igualmente, procedimentos invasivos, quando não necessários ou não justificados – é a chamada prevenção quaternária.
Da parte dos doentes, temos o cumprimento da terapêutica antimicrobiana e, da parte das visitas, o respeito pelas normas e regulamentos da instituição.
O Natal é uma época propícia à visitação de doentes internados (em hospitais ou em unidades de cuidados continuados) e de residentes em lares. No presente contexto pandémico, mais do que nunca, deve ser garantido um controlo da infeção estrito e isso implica restrições ou condicionamentos de acesso por parte das visitas.

JE | Qual o papel dos enfermeiros na prevenção das infeções hospitalares?
LMA | Os enfermeiros têm um papel essencial na prevenção e controlo da infeção, independentemente do contexto de prestação de cuidados – que vai do hospital ao domicílio, passando pelas unidades de cuidados continuados e paliativos e pelos centros de saúde.
São os profissionais de saúde que mais tempo contactam com os doentes individuais. Executam procedimentos muitas vezes invasivos e prestam cuidados a doentes particularmente vulneráveis, como é o caso dos idosos, acamados ou portadores de doença crónica.
Ser enfermeiro é cuidar dos doentes. E cuidar implica zelar pela sua segurança e bem-estar. O ambiente hospitalar é particularmente hostil, não só do ponto de vista microbiológico, mas, também, psicossocial.
Sem querer depreciar as outras profissões da saúde – todas elas essenciais – diria, mesmo, que os enfermeiros são os profissionais de primeira linha no controlo da infeção. E são, perante a sociedade, verdadeiros agentes de cidadania em controlo da infeção, porque reconhecidos na sua prática profissional e no conhecimento que detêm nesta área.

JE | A abordagem das IACS implica uma perspetiva multidisciplinar. O que podem os vários profissionais de saúde fazer para contribuir para a sua prevenção e controlo?
LMA | Devem conhecer e respeitar as boas práticas de controlo da infeção e colaborar, com os GCL do PPCIRA, na sua implementação. Trabalhar, acima de tudo, como equipa e em equipa.
Mas, para que isso aconteça, tem que ser disponibilizada formação e treino regular na área. E têm que existir, no local onde os profissionais prestam cuidados, os meios e os recursos necessários - a começar pelos lavatórios de mãos e, em alternativa ou complemento, pelos dispensadores de SABA. De nada serve o conhecimento sem os meios para o traduzir em práticas corretas.
Abordar as IACS é, como foi dito, uma tarefa multidisciplinar e multiprofissional. Enfermeiros, médicos, assistentes operacionais, técnicos de diagnóstico e terapêutica, farmacêuticos… São todos elos da “cadeia profissional” do controlo da infeção: se algum falhar, falham todos. E para todos serem bem-sucedidos, cada um tem que cumprir a sua parte.
Os GCL do PPCIRA têm que ser dotados dos meios, técnicos e organizacionais, para executar a sua missão. Ora isso pressupõe a legitimação e apoio inequívoco por parte das lideranças de topo.
A criação de serviços de epidemiologia hospitalar, previstos, em 2015, num diploma legal nunca cumprido, teria sido um poderosíssimo aliado dos GCL do PPCIRA no combate à infeção hospitalar. A APIH orgulha-se de ter levado a cabo, em junho de 2019, em Lisboa, as I Jornadas de Epidemiologia Hospitalar e Controlo da Infeção. Tratou-se de um contributo para voltar a colocar estes serviços na agenda da Saúde.

JE | Quais os desafios atuais de um hospital, tendo em conta a pandemia de Covid-19?
LMA | Basicamente, gerir muitos doentes, num contexto de grande pressão assistencial e infeciosa. E a verdade é que as pessoas continuam a adoecer com outras doenças, prognosticamente mais graves, até. A incidência da COVID-19 tem vindo a aumentar, nas últimas semanas, de forma sustentada e acima de um limiar compatível com uma segunda onda pandémica.
Portanto, os desafios atuais de uma entidade hospitalar, individual ou agrupada, são muitos e particularmente complexos. Estão relacionados, não só, com o controlo da infeção, mas, também, com a capacidade de resposta do internamento médico, altamente pressionado.

JE | Além da medicina interna e da pneumologia, os cuidados intensivos são uma das áreas críticas, na resposta hospitalar a esta epidemia global.
LMA | Outro desafio para os hospitais e restante rede de serviços de saúde é o “burn out” dos seus profissionais. Tem implicações diretas, na saúde dos próprios, e implicações indiretas, na qualidade e segurança dos cuidados prestados. E a verdade é que a pandemia de COVID-19 obrigou a maioria dos profissionais de saúde a um volume de trabalho extraordinário sem precedentes…
Há que assegurar o refrescamento das equipas e os rácios seguros profissional-doentes e isso pressupõe mais profissionais. Em termos económico-financeiros, compensa largamente, se considerarmos os custos, diretos e indiretos, das IACS.
Mas há, igualmente, que retomar uma normalidade necessariamente anormal. É como nas guerras: um país não pode parar e tem que continuar a funcionar, sob pena da organização social colapsar. Os hospitais nunca mais serão os mesmos e o planeamento de contingência tem que ser internalizado em definitivo.
Para terminar, gostaria de felicitar, em nome da Associação Portuguesa de Infeção Hospitalar (APIH), todos os enfermeiros portugueses, neste Ano Internacional do Enfermeiro. Bem-hajam pela vossa dedicação e competência!