Associação Portuguesa de Sono: Enfermeiros têm papel fundamental na identificação precoce

quinta, 15 outubro 2020 13:07

Daniela Ferreira site 3b4e9Joaquim Moita site 5660fO sono é o terceiro pilar para uma vida saudável, a par da alimentação e do exercício regular, mas é desvalorizado. O alerta é da Associação Portuguesa de Sono, pelas palavras de dois elementos da direção: Daniela Ferreira, do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, e Joaquim Moita, do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Advogam, neste cenário, que os enfermeiros têm um papel primordial na identificação precoce destas patologias.

Jornal Enfermeiro | De que modo é que o sono afeta a saúde? Existe já uma tomada de consciência da população quanto à sua importância?

Daniela Ferreira e Joaquim Moita | O sono é uma necessidade básica, vital para a saúde humana e necessária para a vida. Desempenha um papel fundamental nas funções cerebrais, incluindo o desempenho neurocomportamental, cognitivo, na consolidação da memória e na regulação do humor.
O sono também está envolvido na fisiologia sistémica, incluindo o metabolismo, a regulação do apetite, a função imunológica e hormonal e o sistema cardiovascular.
O sono é primordial, mas vivemos numa sociedade que desvaloriza a sua importância. Associam o cansaço e a irritabilidade ao trabalho, mas não ao facto de dormirem pouco e mal.
Dormir menos horas do que as necessárias tem repercussões importantes a nível de aumento do risco de infeções, doenças metabólicas como diabetes mellitus, doenças cardiovasculares e perturbação de humor.
É essencial a consciencialização da população para o sono e da sua importância para o nosso bem-estar. Nunca se deve esquecer o triângulo da vida cujos vértices são uma alimentação equilibrada, o exercício regular e o sono.


JE | A síndrome de apneia obstrutiva do sono é uma das doenças respiratorias do sono. Qual a sua prevalência em Portugal?


DF e JM | A apneia de sono traduz-se em episódios repetidos de obstrução total ou parcial da via aérea durante o sono (apneias ou hipopneias), com consequente fragmentação do sono e dessaturação intermitente durante o sono.
São vários os fatores de risco associados à doença, como álcool, tabaco, alterações anatómicas craneofaciais, idade e uso de hipnóticos. A obesidade é o grande fator de risco da apneia de sono e, por isso, a maior causa do aumento da prevalência da doença.
Os sintomas da apneia de sono podem ser divididos em sintomas noturnos e sintomas diurnos. A roncopatia, sensação de sufocação noturna e apneias presenciadas pelo companheiro/a do doente são a tríade de queixas mais frequentemente. São também referidos os despertares noturnos, nictúria e sonhos vívidos.
As queixas diurnas mais frequentes são a sensação de sono não reparador, irritabilidade, flutuações do humor, problemas de memorização e sonolência diurna excessiva com o consequente impacto a nível laboral e de acidentes de viação.
A apneia de sono representa um fator de risco independente de problemas cardiovasculares importantes como a hipertensão arterial, arritmias, doença coronária e acidentes vasculares cerebrais. São vários os estudos que demonstram a relação da apneia do sono com o risco cardiovascular e que esse risco é maior quanto maior for a gravidade da SAOS.
A síndrome de apneia obstrutiva de sono é um distúrbio de sono muito prevalente, com valores que podem rondam os 10-40% na população geral, valores muito dependentes da metodologia usada.
Em Portugal, não temos ainda estudos populacionais para saber a prevalência da doença. Os estudos que foram desenvolvidos sugerem ainda um subdiagnóstico no nosso país.
Esta síndrome, quer pela sua prevalência, quer pelas suas consequências cognitivas e cardiovasculares, deve ser encarada como um problema de saúde pública. O índice de suspeição deve ser elevado com encaminhamento dos doentes suspeitos para uma consulta de medicina do sono, para realização de um estudo de sono, uma polissonografia, que pode ser efetuada a nível hospitalar ou em ambulatório.


JE | É importante existir um trabalho conjunto de várias especialidades para um diagnóstico mais correto?


DF e JM |
É essencial o trabalho conjunto de várias especialidades desde a base da suspeita até ao diagnóstico final de apneia do sono.
Sabendo-se que a doença é ainda subdiagnosticada, deve haver um alto índice de suspeita e uma sensibilização de várias especialidades nesse sentido. Deve fazer parte das consultas de Medicina Geral e Familiar um inquérito a nível do sono, e, principalmente, perante a presença de um doente obeso com patologia cardiovascular associada.
Nunca esquecer que a apneia de sono aumenta o risco de hipertensão arterial resistente ao tratamento, o risco de arritmias e de acidentes vasculares cerebrais e a recidiva destes. É essencial haver essa consciencialização por parte dos colegas que lidam com esses doentes nas consultas de Medicina Interna, Neurologia e Cardiologia. A associação da depressão com a apneia de sono é cada vez mais reconhecida e isso não deve ser esquecido nas consultas de Psiquiatria.
Só com o trabalho de todos, o doente poderá ter a orientação adequada para estudo do seu distúrbio respiratório do sono em Pneumologia, com realização de polissonografia.
É importante, por isso, a consciencialização para os seus distúrbios de sono, não só da população, mas de todas as especialidades médicas, para um diagnóstico atempado e seu tratamento, e, desse modo, melhorarmos a qualidade de vida do doente.


JE | Os tempos de pandemia Covid-19 têm alterado os padrões do sono?

DF e JM | Sim, o padrão de sono foi alterado com a pandemia e o confinamento em particular. Uma grande maioria de pessoas passou a levantar-se duas horas mais tarde. Sabemos isto por um estudo realizado pela empresa Águas do Tejo Atlântico, abrangendo 2,4 milhões de pessoas, que mostrou que o pico dos efluentes residuais passou das 8:00 para as 10:00.
Já estão a ser divulgados vários estudos que mostram que os níveis de ansiedade, medo, pânico aumentaram e, consequentemente, o número de indivíduos que desenvolveram ou agravaram insónia crónica.
Estão disponíveis vários textos sobre o assunto no site da Associação Portuguesa de Sono http://apsono.com/.

JE | Consideram que estão a ser prestados os cuidados adequados aos doentes respiratórios crónicos com patologias associadas ao sono?

DF e JM |
Não! A mais comum destas patologias, o SAS, tem já uma grande notoriedade junto do público e, em particular, junto das mulheres. Elas sabem que o ressonar e a existência de apneias é patológico. Recorrem ao médico de família e este encaminha o doente para o hospital. E é aqui que surge o estrangulamento: as consultas e, sobretudo, os exames de diagnóstico têm atrasos cada vez maiores.
São, pois, necessários mais recursos humanos e técnicos e uma melhor articulação entre cuidados de saúde primários e hospitalares. O doente típico com SAS tem 50-60 anos. Sofre de comorbilidades cardiovasculares, metabólicas, neurológicas e ainda de insónia. É tratado em 90 % dos casos com CPAP, e o CPAP é para toda a vida. Na minha perspetiva faz todo o sentido que o doente seja seguido no SNS, sem prejuízo de contributos que a medicina privada possa fazer, nomeadamente a nível do diagnóstico.


JE | Qual o papel dos enfermeiros no acompanhamento dos doentes com distúrbios do sono?


DF e JM | O enfermeiro é, frequentemente, o profissional de saúde que deteta, no ambiente de enfermaria, a existência de ressonar e de apneias e alerta para a necessidade de diagnóstico e tratamento nos serviços adequados. São eles que sabem que os ventiladores de pressão positiva contínua (CPAP) devem acompanhar o doente o período de internamento, e que, salvo raras exceções, o devem cumprir durante o sono.
Também são quem identifica muitas vezes o doente com insónia crónica com dependência de benzodiazepinas. O mesmo com a síndrome de pernas inquietas.
As doenças do sono – e são cerca de 100 – têm um enorme impacto na saúde e na mortalidade cardiocerebrovascular e metabólica. A sonolência diurna que acompanha a maioria destas doenças tem um enorme impacto social e económico.
Ora, nas unidades de saúde familiar, onde os enfermeiros têm um papel primordial na monitorização destas patologias crónicas, faz todo o sentido que o façam também para o SAS. Estimulando a adesão, por exemplo, e mesmo administrando inquéritos que podem identificar os doentes com alta probabilidade de SAS, como o questionário STOP-BANG.
Mais, é importante divulgar o conceito de que o sono de qualidade é o terceiro pilar da vida saudável e a base na qual assentam os outros dois: alimentação e exercício.