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Bastonária da Ordem dos Enfermeiros: “Temos de assumir a nossa humanidade”

quinta, 15 outubro 2020 11:46

 JLP7889 1 d3994Numa entrevista a propósito do Ano Internacional do Enfermeiro, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, defende que, em primeiro lugar, os enfermeiros devem proteger-se para poderem, depois, cuidar dos outros. E, neste contexto, afirma que estes profissionais devem assumir a sua humanidade. Sobre a atual crise sanitária, sublinha o papel central que a classe tem desempenhado e alerta para a escassez de recursos.

Jornal Enfermeiro | A Organização Mundial de Saúde declarou 2020 como o Ano Internacional do Enfermeiro. Qual é a importância desta distinção?

Ana Rita Cavaco | Nunca pensámos que o facto de este ser o Ano Internacional do Enfermeiro fosse assim tão marcante. É mesmo o Ano Internacional do Enfermeiro por causa da pandemia. Nunca como agora, esteve tão a nu a questão da necessidade de enfermeiros e a falta de enfermeiros. Portugal, como é sabido, é dos países da OCDE com menor número de enfermeiros por mil habitantes, mas esta é uma questão que afeta também outros países e a própria OMS já veio fazer vários apelos sobre a necessidade de todos os países contratarem mais enfermeiros. Isso no início da pandemia, porque ninguém estava preparado nem ninguém estava à espera… A guerra que foi um bocadinho por equipamentos de proteção individual, rapidamente passou a ser também por enfermeiros.


JE | Tendo em conta que os enfermeiros representam uma peça vital na prestação dos cuidados de saúde, que papel estão a desempenhar na atual crise sanitária?

ARC | Digamos que é o papel que sempre desempenharam, a única grande questão aqui é que as pessoas têm necessidades em saúde resultantes de um novo vírus e de uma nova doença. O que fez com que os enfermeiros trabalhassem mais horas: tivemos de abrir mais camas, mais serviços; e, no fundo, cresceu a insegurança dos cuidados porque as lotações seguras, o número mínimo de enfermeiros para manter a segurança das pessoas já não era bom e piorou. Nós temos 20 mil enfermeiros no estrangeiro, portugueses, que não voltam porque as condições continuam a ser as mesmas e, pandemia por pandemia, optam por crescer nos países para onde emigraram. E, neste momento, o mercado inverteu-se: Portugal teve sempre um problema não de formação em excesso, mas de contratação em défice, mas, como foi preciso ir à procura de enfermeiros, começa-se a assistir a uma escassez de enfermeiros para contratar. No caso concreto dos lares, há cinco anos que andávamos a dizer que não tinham enfermeiros e com a pandemia isso ficou à vista de todos.


JE | Com os receios em ir ao centro de saúde e ao hospital, como é que os enfermeiros podem dar alguma segurança aos doentes, tendo em conta que, muitas vezes, acabam por estar mais próximos deles do que os médicos?

ARC | O enfermeiro é o único que faz a vigilância 24h por dia, todos os outros profissionais vêm e vão e o enfermeiro é aquele que assegura a prestação de cuidados de saúde, em turnos, 24h por dia. Falamos em segurança, mas, durante uma pandemia, é muito difícil mantermos e aumentarmos as questões de segurança, pela questão dos equipamentos de proteção individual, pela questão dos assintomáticos, pela questão da falta de espaço, nomeadamente associado a um período gripal, porque, mesmo sem pandemia, nós todos sabemos que, nos outros anos, as urgências enchiam. É muito difícil, tem de haver circuitos muito bem definidos, circuitos de controlo de infeção muito bem definidos, e, de facto, precisávamos de ter mais enfermeiros. Isso tem sido feito. Vamos ver agora como é que correm os próximos meses, mas, efetivamente, é um desafio muito grande, porque temos enfermeiros a trabalhar cada vez mais horas, estratégias como trabalhar em espelho obrigam a uma sobrecarga maior, uma exaustão muito maior. Depois há as pessoas que, não tendo covid, têm todas as outras doenças que precisam de ser atendidas.


JE | Pensando no papel do enfermeiro nas equipas multidisciplinares de profissionais de saúde, como é que se podem fortalecer essas ligações para tudo funcionar melhor?

ARC | Penso que a pandemia, só por si, fez com que isso acontecesse. E, numa situação destas, aguda, em que precisamos de intervir rapidamente, falamos sobretudo nos profissionais de primeira linha: enfermeiros, médicos, assistentes operacionais, aqueles que estão mesmo no primeiro atendimento, farmacêuticos também, técnicos de diagnóstico. No fundo, a pandemia fez com que as pessoas que já trabalhavam em equipa conseguissem fortalecer esse trabalho conjunto.


JE | A propósito da efeméride que se assinala, qual é a sua visão quanto ao que é ser enfermeiro ou à enfermagem na era moderna?

ARC | Há vários projetos em que já estávamos a participar e que, no fundo, se anteciparam ou aceleraram um bocadinho, também por força destas novas circunstâncias. Há até um estudo muito interessante da União Europeia que diz que os enfermeiros são aqueles que dificilmente poderão ser substituídos por máquinas ou atividade robotizada, porque há aqui uma dimensão do cuidar na enfermagem que envolve toque, que envolve aproximarmo-nos, que não consegue ser substituída por uma máquina. Enquanto, por exemplo, em cirurgias conseguimos utilizar novas tecnologias. Mas há um projeto em que estávamos a trabalhar com a SPNS, que é a teleconsulta em enfermagem e que, no fundo, está a avançar mais rápido pela força das circunstâncias. Portanto, o papel do enfermeiro continua a ser o mesmo do ponto de vista do cuidado, fazendo com que haja cada vez mais o desenvolvimento e a consolidação das nossas competências. A Ordem contribuiu para isso, através da criação de novas áreas de especialidade, das competências acrescidas, mas é preciso consolida isso ou fazer com que se traduza também na utilização ou na associação a novas tecnologias. Não só por causa da pandemia, mas também pelo conforto das pessoas. Por exemplo, na questão dos idosos, nós defendemos um modelo que já existe nalguns países da Europa e que tem a ver com o cuidar ou privilegiar o cuidar das pessoas na sua casa muito antes de as institucionalizar num lar. E, portanto, se eu quero fazer isso, também tenho de ter o recurso às novas tecnologias, para fazer teleconsultas, por exemplo.


JE | Quer deixar uma mensagem final, uma palavra de incentivo aos enfermeiros?

ARC | Eu sei que é incontornável este momento, que está a ser muito difícil atravessar esta fase não só pela exaustão e pelo excesso de trabalho, mas também pelo medo, porque, antes de sermos enfermeiros, somos pessoas com famílias e muitos de nós estiveram longe das suas famílias durante estes meses todos e provavelmente irão voltar a estar longe com este aumento de casos e uma nova vaga. Por isso, acho que, cada vez mais, devemos assumir esta nossa humanidade: nós não somos máquinas, ter medo não faz mal nenhum, o medo faz com que nós consigamos proteger-nos, que é isso que se exige que nós façamos também. Nós não podemos ser úteis a ninguém se estivermos doentes ou se nos acontecer alguma fatalidade e, portanto, a mensagem que eu quero deixar neste momento específico aos enfermeiros é que, em primeiro lugar, se protejam. Sem segurança ninguém avança. No fundo, é uma premissa básica para que nós consigamos depois prestar os melhores cuidados. Antes de tudo, protegerem-se para depois conseguirem proteger os outros.