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Esclerose Múltipla e Covid-19: os desafios para a terapêutica vistos pela enfermagem

sexta, 16 outubro 2020 07:55

Qual a relação entre as terapêuticas utilizadas em doentes com esclerose múltipla e o atual contexto de pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2? Esta foi uma questão que esteve em foco na sessão dedicada à doença no Workshop “Razão vs Emoção – A Procura do Equilíbrio”. E uma das conclusões que emergiu prende-se com o papel central do enfermeiro na promoção da literacia do doente e da adesão à terapêutica.

esclerose e covid original 12c23As apresentações ficaram a cargo de três enfermeiras de diferentes unidades de saúde: Isabel Ribeiro, do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, abordou a sua experiência com doentes em tratamento com Teriflunomida, já a enfermeira Ana Rita Martins falou da sua experiência no uso do Alemtuzumab no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, e, por fim, Teresa Torres, do Hospital Pedro Hispano, debruçou-se sobre as propriedades antivirais no uso de alguns fármacos modificadores da doença e sua administração em tempos de Covid-19.

Enfermeira na especialidade de Neurologia, Isabel Ribeiro explicitou os principais desafios sentidos no seu serviço desde março de 2020 até ao momento. “A partir desta data [aparecimento do coronavírus em Portugal] foram adotadas novas medidas no hospital: houve uma restruturação hospitalar bem como no nosso serviço, tanto em internamento como nas consultas, e criámos novas medidas de segurança para o doente e o profissional. Deu-se também a criação de várias salas individuais e uma triagem individual para cada vez que atendemos um doente”, contextualizou.

Ainda assim, assegura que o principal objetivo do serviço permanece inalterado: “No pós-Covid-19 o nosso foco mantém-se o mesmo, isto é, a capacitação para a gestão do regime medicamentoso, a capacitação da pessoa para a autogestão da sua doença. Garantimos a segurança do doente através da realização de consultas telefónicas e nos casos em que seja necessário deslocarem-se ao hospital, pedimos aos doentes para que na chegada se dirijam diretamente ao serviço de neurologia e não ao serviço de urgência”.

“Esta pandemia trouxe-nos pontos positivos e pontos negativos. Os negativos prendem-se mais com a emoção e os positivos mais com a razão. Tivemos de ser racionais para que a emoção não trilhasse o nosso caminho”, comentou, numa alusão ao tema do workshop.

Seguidamente usou da palavra a enfermeira Ana Rita Martins, que se focou na comparação da administração da terapêutica Lemtrada até março de 2020 e em contexto de pandemia.

“Antes da perfusão os doentes tinham uma consulta com o médico, com o enfermeiro e com o médico infeciologista. E, após essa consulta, tínhamos de, a nível interno, agendar a reserva do serviço e de um quarto individual para o doente. Depois, já com a pessoa em internamento, nós, enfermeiros, fazíamos uma avaliação diagnóstica da gestão do regime medicamentoso daquela pessoa”, descreveu.

“Entregávamos ainda ao doente o seu guia e o cartão de doente e, sobretudo, informávamo-lo da existência do enfermeiro de referência, o que, basicamente, significa que cada doente internado tem um enfermeiro de referência que se prevê que o acompanhe tanto quanto possível”, acrescentou.

Com a pandemia, as principais alterações deram-se no agendamento das consultas e nos momentos após a perfusão, sendo que o protocolo em vigor durante o procedimento de terapêutica não sofreu alterações.

“Antes informamos igualmente sobre todos os procedimentos, reforçando o facto de terem cuidados de higienização acrescidos. Depois da perfusão existe um reforço dos cuidados a ter: higiene pessoal e do ambiente e seguir todas as outras indicações da DGS”, afirmou a enfermeira Ana Rita.

“Relativamente ao agendamento, tentámos voltar à normalidade, mas, durante a pandemia efetuámos teleconsultas. De uma forma muito geral, observámos que a maior parte das incertezas eram relativas à insegurança e muitas dúvidas acerca do próprio tratamento nesta fase, das complicações que podem advir de fazer ou não o tratamento”, concretizou.

Por sua vez, a enfermeira Teresa Torres focou, essencialmente, a sua apresentação nas características de uma terapêutica modificadora da doença. “Sabemos que as terapêuticas utilizadas na EM suprimem e modificam o sistema imunológico e têm surgido algumas orientações a nível mundial utilizando o fundamento nos mecanismos de ação da terapêutica instituída à pessoa portadora de EM”, afirmou.

Além disso, partilhou com os participantes no evento as orientações gerais de terapêutica para pessoas portadoras de EM e afirmou que o Interferon, o Acetato de Glatirâmero, a Teriflunomida e o Fumarato de Dimetilo, “não aumentam de forma significativa o risco de infeções virais ou a sua gravidade”.

Já o Fingolimod pode envolver risco de infeções virais, recomendando-se o controlo analítico periódico para despiste de linfopenia.

O Natalizumab pode aumentar o risco de infeções do sistema nervoso central; ainda assim, recomenda-se a manutenção do tratamento, passando as infusões para um período mais alargado (entre 28 a 45 dias).

O Ocrelizumab, Rituximab, Alemtuzumab e a Cladribina promovem uma alteração a longo prazo no sistema imune, podendo aumentar o risco de contrair a infeção e desta forma ter uma maior gravidade.

“Poderá haver benefício adicional de algum fármaco com propriedades antivirais? Têm surgido estudos que sugerem que existem dois fármacos que poderão ter algum fator protetor. Estamos a falar dos Interferões (modificam a resposta imunitária através do seu efeito antiviral, antiproliferativo e imunomodulador) e da Teriflunomida (efeito imunomodulador e anti-inflamatório, tendo ainda um bloqueio de seletivo da síntese de pirimidinas [bases nitrogenadas])”, disse.

Concluindo sobre o tema das abordagens terapêuticas na EM e a sua relação com a Covid-19, deixou uma recomendação: “Deve-se continuar com os fármacos já anteriormente prescritos. Estes não devem ser trocados nem suprimidos. Ainda assim, caso isso seja necessário, a evidência científica demonstrou que são maiores as consequências de agravamento da EM quando a abordagem terapêutica não é a mais adequada, do que o atual risco infecioso associado à SARS-CoV-2”.

Este painel contou com moderação da enfermeira Cristina Araújo, do Centro Hospitalar de Lisboa Central - Hospital dos Capuchos, que evidenciou alguns aspetos positivos da pandemia, nomeadamente as teleconsultas e a disponibilização da terapêutica nas farmácias comunitárias. Chamou igualmente a atenção para os receios que os doentes sentiram no que respeita à relação entre a terapêutica para a EM e a COVID-19 e os eventuais riscos daí decorrentes. Mas, notou que, depois de um cenário com inícios de terapêutica e suites travados, houve uma consciêncialização do doente. 

Todas as oradoras presentes no painel concluíram que o principal papel do enfermeiro é fornecer as informações mais fidedignas ao doente, promovendo a literacia em saúde e promovendo o regime terapêutico. Apelar à calma e transmitir confiança são as características principais que um enfermeiro deve ter, na opinião das três profissionais de saúde.

 

MAT-PT-2001011-1.0 – Outubro de 2020