Esclerose Múltipla: a perspetiva da Neurologia e a da Psicologia

sexta, 16 outubro 2020 07:46

Na sala virtual de Esclerose Múltipla foram apresentadas duas perspetivas, relativamente à reabilitação física em doentes com esta patologia, bem como à prática da Psicologia e neurocognição no seguimento destes doentes.

 

Dr. Joaquim Pinheiro 2 original ba145Dra Claudia Sousa 87233O primeiro tema foi abordado pelo Dr. Joaquim Pinheiro, neurologista do Centro Hospitalar Gaia/Espinho, e o segundo pela Dr.ª Cláudia Sousa, psicóloga no Centro Hospitalar e Universitário de São João.

Sendo a esclerose múltipla (EM) uma doença do sistema nervoso central imunologicamente mediada e que causa disfunção dos movimentos e da sensibilidade e que tem uma sintomatologia subjetiva também muito incapacitante, o Dr. Joaquim Pinheiro aconselha a que os doentes não deixem de praticar exercício e atividade física a partir do momento em que a doença é diagnosticada.

“Perante a atividade física, nós, médicos, temos um dilema; por um lado, dizemos aos doentes ‘tem de se mexer, tem de praticar exercício’, mas eles respondem que não podem, porque têm muita fadiga. O nosso papel, como profissionais de saúde, é conseguir que eles ultrapassem este dilema e tentem ser o mais ativos possível”, afirmou o clínico.

Na sua perspetiva, existem dois fatores essenciais para promover a reabilitação motora na EM: manter a mobilidade e frequentar programas de reabilitação. Durante a sua apresentação, aproveitou para distinguir os conceitos de atividade física, exercício e fitness/aptidão.

Entende-se por exercício “qualquer movimento do corpo produzido pela contração dos músculos esqueléticos, que resulta no aumento substancial do consumo de energia”; o segundo é “a atividade planeada, estruturada e repetitiva com o objetivo de melhorar ou manter o fitness”, sendo o fitness ou a aptidão “um conjunto de caraterísticas que uma pessoa tem ou adquire para realizar uma atividade física”.

O médico partilhou a sua experiência, afirmou que diz várias vezes aos seus doentes que prefere que “andem dez vezes 100 metros e que vão insistindo consigo próprios na execução de movimentos ao longo do dia, do que andem dois quilómetros de seguida, não fazendo qualquer outro exercício no resto do dia”.

“Nós temos mais de dez medicamentos, de primeira, segunda e terceira linha e até tratamentos experimentais e há muita coisa em investigação. Também tratamos naturalmente os sintomas e também a disfunção, mas existem estudos que comprovam a eficiência da atividade física no atraso da evolução dos sintomas incapacitantes”, sublinhou.

Relativamente aos programas de reabilitação, o Dr. Joaquim Pinheiro referiu que “têm mais efeito quando são iniciados em fases mais precoces da doença. Devem ser feitos em equipa, para que o doente perceba melhor a mensagem. A equipa deve ser composta por fisiatras, fisioterapeutas, psicólogos, enfermeiros, neurologistas – quando mais diversa for a equipa, melhor é a capacidade”.

Posteriormente, foi dada a palavra à Dr.ª Cláudia Sousa, que trabalha em consultas de avaliação neuropsicológica. “Recentemente, temos a noção que o defeito cognitivo aparece em todos os fenótipos da doença, e que, embora sejam controversos os resultados, mesmo os doentes com baixa capacidade física também apresentam défice cognitivo”.

Enquadrou que “o défice/defeito cognitivo foi descrito por Chacot (1987) por “enfraquecimento da memória”, sendo que este conceito foi deixado um pouco de lado até aos anos 90. Aí percebeu-se que 34% a 65% dos doentes apresentam um defeito cognitivo”.

“Quando estamos perante um defeito cognitivo nestes doentes, nós, muitas vezes, classificamos o perfil cognitivo como ‘disfunção subcortical’, tendo em conta que todos os domínios estão mais relacionados com o funcionamento executivo”, afirmou.

Para rastrear e avaliar este fator existem múltiplas baterias e testes de avaliação. A bateria de Rao é a mais conhecida; já a bateria de MACFIMS não é tão utilizada e não está tão validada à população portuguesa, pois apresenta uma duração de 90 minutos.

A bateria mais utilizada em Portugal denomina-se por BICAMS e é constituída por três testes, que duram cerca de 15 minutos. Neste rastreio existe um primeiro teste que avalia a memória e a aprendizagem verbal (California Learning Verbal Test), outro de velocidade de processamento (Symbol Digits Modalities Test) e outro de memória viso-espacial (Brief Visuospatial Memory Test). “Para todos eles somente precisamos de um papel, cronómetro e lápis”.

“Em 2018 saiu a validação para a população portuguesa, por isso hoje em dia já todos o podemos utilizar de forma segura. Os autores pretendem, através do seu site, que sejam colocadas todas as validações a nível mundial, para ser do conhecimento público. Estas três provas podem ser utilizadas por qualquer profissional de saúde, inclusive obviamente os enfermeiros, sem qualquer problema”, concluiu a psicóloga, encorajando os enfermeiros a utilizarem mais esta ferramenta prática no diagnóstico diário do doente de esclerose múltipla.

 

MAT-PT-2001011-1.0 – Outubro de 2020