Imprimir esta página

O papel do enfermeiro na adesão às terapias respiratórias (Oxigenoterapia e VNI)

terça, 12 maio 2020 14:51

O Hospital de Dia Pneumológico, integrado no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte – Polo Hospital Pulido Valente, procura, através da sua equipa multidisciplinar, dar uma resposta assistencial eficaz e eficiente ao doente respiratório crónico.

Desta equipa fazem parte um grupo de enfermeiras peritas no Cuidar do doente/família com insuficiência respiratória crónica sob oxigenoterapia domiciliária e / ou Ventilação Não Invasiva.

Neste contexto de ambulatório, o “papel” preponderante da equipa de enfermagem, que tem na sua essência a relação interpessoal enfermeiro/doente/ família, é preferencialmente dirigido a momentos de ensino, treino e validação da utilização das próteses respiratórias prescritas, numa perspetiva de promover o auto-cuidado, a auto-capacitação, a autonomia e, assim, promover a adesão a estas terapêuticas.

São doentes com várias comorbilidades, que pelo risco de múltiplas exacerbações, recorrem frequentemente aos serviços de urgência e muitas vezes com necessidade de internamento. Com estes, verifica-se a progressiva deterioração da sua função respiratória e consequente progressão da doença, com aumento das limitações na realização das suas atividades de vida.

Nesta perspetiva é essencial o cumprimento rigoroso de todo o plano terapêutico instituído.

Quando nos questionamos sobre qual o nosso papel na adesão aos cuidados respiratórios, facilmente percebemos que começamos por delinear o plano de cuidados personalizado e individualizado, começando por procurar identificar no doente/família/cuidador, os vários fatores que possam influenciar a adesão à utilização das terapias respiratórias. Fatores como as características pessoais e familiares, condições socioeconómicas, capacidades cognitivas, funcionais e motoras, mitos, crenças e estigmas, por forma a definir a melhor estratégia para envolver o doente/família/cuidador no cumprimento das recomendações clínicas.

Quando iniciamos todo o processo de ensino e treino, de identificação de sinais e sintomas de exacerbação, de sensibilização para a importância da evicção tabágica, da manutenção da atividade física, alertamos para os benefícios das terapêuticas, ensinamos a manusear os equipamentos e dispositivos acessórios (oxigenoterapia e VNI), solicitamos que demonstrem as aprendizagens, identifiquem os efeitos secundários e saibam como os corrigir, ensinamos a otimizar as horas de tratamento e a cumprir as prescrições (débitos de oxigénio ajustados às diferentes atividades de vida e horas de VNI), que reforçamos com a entrega do plano terapêutico escrito, disponibilizamos também os contactos do Hospital de Dia para ajudar a resolver qualquer dúvida ou questão, julgamos estar a contribuir para a adesão do doente ao tratamento e para o compromisso com a equipa de saúde que o acompanha.

A qualidade de vida destes doentes pode melhorar quando estes assumem uma verdadeira consciencialização do seu estado de saúde e das terapias que têm que fazer, muitos deles de forma contínua, mas também pode melhorar com o empenho e dedicação que os profissionais de saúde colocam em todas as intervenções que desenvolvem.

As avaliações em sessões de Hospital Dia, Consultas de Enfermagem Presenciais e Não Presenciais e a Visita Domiciliária, permitem acompanhar e monitorizar com frequência a evolução do tratamento e rapidamente intervir, ajustando o plano a novas necessidades ou dificuldades que possam surgir.

As múltiplas intervenções de enfermagem ao doente respiratório crónico englobam:

  • aferições de débitos de oxigénio em repouso, quer durante o sono quer no esforço;
  • mudanças de equipamentos e alterações dos débitos de oxigénio tendo em conta as necessidades individuais/familiares/cuidadores, tais como questões sócio económicas e de habitabilidade;
  • mudanças de ventilador e/ou interface, monitorização da VNI;
  • dar resposta às questões manifestadas pelos doentes/familiares/cuidadores;
  • interação com as empresas de cuidados respiratórios que asseguram todos os equipamentos de oxigénio e ventilação e que garantem a continuidade destas terapias no domicílio.

Nesta perspetiva, admitimos que as intervenções de enfermagem contribuem para a melhoria da qualidade dos cuidados de saúde à população e especificamente na Pneumologia. Acrescentamos, ainda, que a outro nível as intervenções da reabilitação ajudam também o doente a melhorar a tolerância ao esforço, a capacidade funcional, a realização de atividades de vida, com a integração das terapias respiratórias nas mesmas, diminuem o medo e ansiedade em sair de casa, promovem hábitos de vida saudável, na procura de uma vida o mais “normal” possível para estas pessoas.

Quando nas avaliações identificamos que o doente passou a fazer as horas recomendadas das terapias, cumpre e adequa as prescrições às atividades de vida, está sem efeitos secundários, passou a conseguir sair de casa, a socializar com a família e amigos, e está sem internamentos, há mais de um ano, toda a equipa dá os parabéns ao doente, e também nós ficamos com um sentimento de satisfação profissional e pessoal de que afinal as nossas intervenções podem ajudar a fazer a diferença na qualidade vida desta pessoa/família, além de contribuirmos para a redução de custos em saúde e para a economia do país.

No futuro, a enfermagem na área da pneumologia poderá enfrentar alguns desafios, como sejam a integração das novas tecnologias em todos os processos de avaliação e monitorização dos doentes sob terapias respiratórias, de que são exemplos a telemonitorização em casa, a partir do hospital, o acompanhamento do avanço tecnológico dos próprios equipamentos de ventilação não invasiva e de oxigenoterapia, só possível com formação constante das equipas.

A utilização de aplicações como a Plataforma de Dados de Saúde (PDS), para acesso e recolha de informação clínica dos doentes que acompanham, utilização dos sistemas de informação em todo o processo clínico do doente respiratório, por parte de toda a enfermagem e a partilha com outras entidades como sejam os cuidados respiratórios domiciliários, em prol da adesão dos doentes, podem ser ainda áreas a melhorar. Futuramente, outros desafios se impõem tal como encontrar estratégias que permitam uma referenciação precoce destes doentes, para estruturas assistenciais como o Hospital Dia Pneumológico, bem como a interação com os cuidados paliativos nas situações que justifiquem.

 

Equipa de Enfermagem do Hospital Dia Pneumológico – CHULN – HPV