Imprimir esta página

O papel do enfermeiro na gestão da Diabetes em época de pandemia Covid-19

terça, 12 maio 2020 14:47

Considerando o estado de pandemia declarada pela Organização Mundial da Saúde e a rápida evolução/disseminação da infeção causada pelo agente coronavírus SARS-CoV2 (COVID-19), é muito importante que a pessoa com Diabetes mantenha bons hábitos alimentares e se mantenha ativa, de forma a controlar a sua glicémia e uma boa compensação da sua patologia. Uma descompensação da Diabetes condiciona a uma maior suscetibilidade à patologia infeciosa, bem como quadros de maior gravidade e prognóstico menos favorável.

Existem quatro cuidados gerais que não se podem descurar. São eles: manter a glicémia controlada, manter-se ativo no domicílio, manter-se hidratado e com uma alimentação saudável e cumprir o regime medicamentoso. ​

Intervenções de enfermagem ao utente com Diabetes

  • Ensinar/instruir sobre regime medicamentoso

- Cumprir todos os dias a medicação e respeitar os horários e posologia da mesma.

  • Incentivar hábitos alimentares saudáveis

Nesta fase, o utente deve continuar a ter uma alimentação saudável e adequada à sua Diabetes.

- Evitar ir demasiadas vezes ao supermercado, procure comprar alimentos de maior durabilidade. Opte por exemplo por maçãs e peras, peixe congelado, conservas de sardinha, cavala ou atum, legumes congelados, frutos secos;

- Preferir pão de mistura ou integral que poderá congelar fresco para poder comer mais tarde;

- Em vez de comprar queijos frescos ou requeijão, optar por adicionar azeite ao seu pão com alho picado e orégãos se gostar;

- Entre refeições evitar os petiscos frequentes de bolachas. Estar muito tempo em casa poderá aumentar a vontade de comer mais vezes;

- Fazer sopas ricas em vegetais sem batata (ex.: curgete, cenoura, cebola, cogumelos, brócolos, colocando um fio de azeite no final da cozedura, evitando o excesso de sal e optando por adicionar salsa, coentros ou hortelã à sopa para lhe dar mais sabor);

- Consumir ervilhas, feijão, grão, lentilhas ou favas como fonte de hidratos de carbono;

- Evitar usar sempre massas, arroz e batatas; colocar cerca de ¼ do prato de leguminosas acompanhadas por uma boa quantidade de vegetais, peixe, carne ou ovo.

  • Incentivar a ingestão de líquidos

- O utente, se estava habituado a ter a sua garrafa de água no local de trabalho, deve manter esse hábito também em casa, bebendo pelo menos 1,5l/dia. Se tem dificuldade em conseguir beber água, adicione um ramo de hortelã, um pau de canela e rodelas de laranja para lhe dar sabor, por exemplo.

  • Ensinar sobre hábitos de exercício

- O utente deve manter-se ativo mesmo não saindo tantas vezes à rua. Colocar uma música de que goste e dançar sozinho ou acompanhado. Fazer jardinagem, subir e descer escadas, saltar à corda, caminhar um pouco à volta de casa ou praticar alguma ginástica na sala.

  • Ensinar sobre sinais de hipoglicemia e hiperglicemia
  • Ensinar sobre prevenção de hipoglicemia e hiperglicemia
  • Incentivar auto-vigilância dos pés

- Observar diariamente os pés (usar um espelho para observar a planta), e se tiver diminuição de visão pedir auxílio a outra pessoa (observar planta, dedos e espaços interdigitais relativamente a presença de fissuras, flictenas, calosidades, edema e diferente coloração do pé ou calor localizado);

- No fim, observar as unhas (despistar unhas encravadas, onicomicoses).

  • Ensinar a prevenir úlceras dos pés e instruir a tratar dos pés

- Controlar temperatura da água com o pulso ou com um termómetro (usar água tépida);

- Secar muito bem os espaços interdigitais;

- Aplicar creme hidratante na planta e dorso do pé (evitar os espaços interdigitais);

- Mudar de meias diariamente e que sejam de preferência de lã ou algodão sem orifícios e sem costuras que não comprimam as pernas;

- Arejar o calçado todos os dias;

- Não usar calicidas, tesouras ou canivetes para remover calosidades;

- Cortar unhas a direito e com tesouras de ponta curva de forma a evitar unhas encravadas;

- Limar as unhas com lima de cartão em vez de limas metálicas;

- Inspecionar o interior do calçado antes de colocar o pé;

- Evitar fontes de calor perto dos pés (botijas de água quente, cobertores elétricos, aquecedores, radiadores, almofadas de aquecimento, entre outras);

- O calçado não deve ser demasiado apertado ou largo;

- O interior deve ter um comprimento com mais 1cm que o dedo hállux;

- Deve ter uma caixa alta com espaço para os dedos;

- O ajuste do sapato deve ser com cordões ou velcro;

- O tacão deve ser largo e não excessivamente alto (2-4cm).

  • Informar sobre recomendações de prevenção Covid-19 segundo DGS (Direção-Geral da Saúde)

- Manter-se no domicílio, reduzindo o número de saídas ao mínimo possível; evitar multidões ou aglomerados;

- Promover o arejamento da habitação;

- Tomar precauções diárias, mantendo distância de segurança de 2 metros de outras pessoas;

- Evitar o contacto com pessoas doentes ou que apresentem tosse, febre, dores musculares, cefaleias ou dificuldade respiratória;

- Lavar frequentemente as mãos com água e sabão ou desinfetante;

- Não partilhar comida nem utensílios;

- Cumprir as regras de etiqueta respiratória (quando assoar, espirrar ou tossir – lave as mãos; tape o nariz e boca sempre que tossir ou espirrar com o braço e não com as mãos; use um lenço de papel ou o braço, nunca as mãos; deite o lenço de papel no caixote de lixo);

- Perante aparecimento de sintomas como febre, tosse, dores musculares, cefaleias ou falta de ar, deve manter-se em isolamento no seu domicílio e contatar SNS 24 – 808 24 24 24.

  • Explicar como contatar equipa de saúde (via e-mail ou via telefone), sempre que necessário 
  • Informar sobre linhas de apoio gratuitas com equipas especializadas

- APDP – 213816161 das 08:00-20:00, todos os dias incluindo, fins -de -semana;

- Linha de informação Diabetes/Covid-19: 300 003 800 das 08:00-22:00, todos os dias, incluindo fins -de -semana.

Termino referindo que todas estas intervenções são essenciais para a prevenção de complicações e redução de internamento hospitalar, contudo devemos sempre: escolher o método para cada utente; simplificar e transmitir de forma clara a informação e estudar a agenda e adaptar a consulta a cada utente (não presencial – via telefone, presencial ou visitação domiciliária, sempre que necessário).

Mais uma vez, o enfermeiro une dedicação e conhecimento na arte de cuidar de vidas. E como Florence Nightingale referia: “A Enfermagem é uma arte e para realizá-la como arte, requer uma devoção tão exclusiva, um preparo tão rigoroso, quanto a obra de qualquer pintor ou escultor”.

Bibliografia:

1.ECDC (2020): https://www.ecdc.europa.eu/sites/default/files/documents/Publichealth-management-contact-novelcoronavirus-cases-EU_0.pdf
2.European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC). Technical Report: Public health management of persons having had contact with novel coronavirus cases in the European Union. Estocolmo: ECDC, 30 janeiro 2020. https://www.ecdc.europa.eu/sites/default/files/documents/Public-healthmanagement-contact-novel-coronavirus-casesEU_0.pdf.
3.WHO (2020). https://www.who.int/publications-detail/global-surveillance-forhuman-infection-with-novel-coronavirus(2019-ncov) WHO (2020). https://www.who.int/publications-detail/home-care-for-patients-with-suspectednovel-coronavirus-(ncov)infection-presenting-with-mild-symptoms-and-managementof-contacts.
4. International Working Group on the Diabetic Foot. International Consensus on The Diabetic Foot & Pratical Guidelines on the management and prevention on the diabetic foot. 2007.

Sónia Carneiro, enfermeira, ACES Porto Oriental – USF Arca d´Água