Proximidade e qualidade: alguns apontamentos do enfermeiro de família

sexta, 08 maio 2015 15:51 Isabel Espírito Santo, Licenciada em Enfermagem e História*

IsabelEspiritoSantoCom o recentrar do debate, nos meses que se seguiram à criação de um grupo de trabalho e à publicação do decreto-lei 118/ 2014, de 5 de Agosto, sobre o enfermeiro de família, importa relembrar que o tema não é novo mas deve ser desenvolvido, alargado e integrado à luz de novas realidades que foram acontecendo, neste caminho nada linear da reforma dos cuidados de saúde primários.

Penso aliás que, quer o pensamento, quer as experiências, quer o que se preconiza como uma nova área de especialização em enfermagem, não pode e não deve ser dissociado dessa reforma, em nome do respeito e da memória, por um trabalho que se iniciou nos anos 70 do século passado e de muitos profissionais que implementaram novas práticas e novos modelos organizacionais nos cuidados de saúde primários. De facto, há múltiplos exemplos de equipas que conhecem e acompanham as suas famílias, no momento do parto, no retorno ao domicílio, na identificação dos seus dependentes, na procura de respostas locais integradas. É esse o conceito de “enfermeiro de família”, que se desenvolveu e se reafirma, com cuidados de proximidade, realizados por equipas multiprofissionais, núcleo da reforma. Esta soube integrar experiências, fazê-las crescer, balizou práticas com princípios orientadores, não descurando a qualidade e a metodologia de avaliação.

Importa relembrar aos mais distraídos que se exige às unidades de saúde familiar, como critério obrigatório à sua candidatura a um nível de maior rigor no desempenho, de maior maturidade e escrutínio, que é a passagem a modelo B, a comprovação da sua organização por enfermeiro de família. Não é de ontem, está na grelha DiOr. Também não é novidade que esta organização trouxe maior satisfação aos profissionais e aos cidadãos. Na realidade, eles conhecem, identificam e procuram o seu enfermeiro de família. Relacionam-se.

Importa, no entanto, fazer uma reflexão sobre o que falta por um lado fazer, para que o “enfermeiro de família” seja uma realidade para todos e não pertença de alguns e por outro, como compatibilizar as diferentes áreas de intervenção.

Para a OMS, o enfermeiro de família é responsável por um conjunto de famílias, e deve estar junto destas, também em períodos de crise. Ele assume a responsabilidade pela prestação de cuidados de enfermagem a um grupo de famílias em todo o ciclo vital, da pré-concepção à morte, incluindo a promoção da saúde, a reabilitação e os cuidados de fim de vida, numa lógica de cuidados centrados no cidadão. Não se trata de um mero executor de cuidados, relembrando uma velha organização por tarefa ou programa, mas de um promotor de saúde, junto da comunidade e de interventor na prevenção da doença, proporcionando ao indivíduo e família, uma resposta global e integrada, garantindo-lhe uma verdadeira continuidade de cuidados, em “ todas as fases da vida”.

A ser assim, quando se pensou na atribuição de 300, 400 famílias, importa lembrar que tal implicava a globalidade dos cuidados, assumindo, como me parece ser por todos, o conceito anterior. Em Portugal, surgiram as unidades de cuidados na comunidade, que vão prestar a estas mesmas famílias de maior risco, cuidados domiciliários e comunitários, em situações de maior dependência física e funcional, ou doença, que requeiram acompanhamento mais próximo. Estas acompanham ainda, muitas vezes em articulação com as unidades de saúde pública, a criança na idade pré-escolar e escolar. São dimensões dessas mesmas famílias.

Se os recursos humanos, no que se refere aos enfermeiros, são claramente deficitários, e se constatamos hoje que não temos enfermeiros para todas as famílias, é no meu entender necessário repensar a integração destes cuidados e a atribuição de responsabilidades. Definir quem se assume como gestor, como dar continuidade a cuidados que se pretendem integrados e como assegurar que todos os cidadãos têm direito a um enfermeiro, deveria ser o que nos une, não o que nos separa.

 

* Licenciada em Enfermagem e História. Pós-graduada em Educação para a Saúde e Administração dos Serviços de Saúde. Coordenadora da Equipa Coordenadora Local do ACES Arco Ribeirinho da rede nacional de cuidados continuados integrados. É membro da Equipa Regional de Acompanhamento da ARSLVT e Auditora Externa da DGS no Programa Nacional de Acreditação.