Tem mesmo a certeza de que está doente? Uma em cada dez pessoas contrai infeções em hospitais

quarta, 11 novembro 2015 11:55 Isabel de Jesus Oliveira, Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação, Presidente do Conselho Diretivo Regional da Secção Regional do Centro da OE

Enf Isabel Oliveira opiniao ed5dfSabia que Portugal tem uma das maiores taxas de prevalência de infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS) da Europa? Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2011 foram gastos mais de 500 milhões de euros para as tratar. Este é um problema que os políticos se esquecem de mencionar, mas de consequências gravíssimas. Causam a morte, deixam sequelas e provocam incapacidades temporárias e permanentes.

Estamos no final de verão... Mais alguns dias e começa novamente a azáfama das gripes, das vacinações e das urgências sobrelotadas!

E no meio de toda esta confusão, prevalece, resiste e persiste uma doença silenciosa...

Essa doença, que apesar de não ser nova, é daquelas que nunca dá muito jeito falar. Principalmente aos governantes e aos responsáveis pela saúde dos portugueses!

Essa doença chama-se: infeção associada aos cuidados de saúde (IACS).

Mas afinal o que é isto das IACS?

São infeções, geralmente graves, que são contraídas nos serviços de saúde: na urgência, num bloco operatório, numa consulta externa ou num qualquer outro serviço de saúde por esse país a fora.

Escassez de profissionais nos serviços é um dos fatores

Alguns dos fatores que contribuem para a propagação das IACS são o uso inapropriado de antibióticos, a existência de condições ambientais hospitalares inadequadas ou gestão incorreta de resíduos hospitalares, infraestruturas dos serviços inadequadas, equipamento insuficiente ou inadequado, insuficiência de profissionais nos serviços e a sobrelotação dos serviços. A soma de todos estes fatores leva a que se crie o ambiente ideal para o desenvolvimento de microrganismos resistentes e que facilmente se propagam pelos utentes que recorrem aos serviços. A questão do número de profissionais nos serviços é de extrema importância. Vários estudos internacionais apontam para uma relação direta entre a diminuição do número de enfermeiros nos serviços, com o aumento das IACS.

Dados do Ministério da Saúde de 2011 apontam para um custo anual em Portugal de mais de 500 milhões de euros no tratamento das IACS, sendo que, em 2010, 1 em cada 10 doentes tratados num hospital português contraíram uma IACS. Mas mais grave do que o custo que estas infeções representam para o erário público são as complicações de saúde que daí podem decorrer, nomeadamente a morte. Estima-se que todos os anos na Europa morram 37.000 pessoas vítimas de IACS.

A prevalência das IACS é uma daquelas estatísticas em que Portugal ocupa a dianteira da Europa! Portugal tem uma das taxas de prevalência de IACS mais elevada da Europa.

A segurança do doente nos hospitais deveria ser preocupação dos políticos.

A garantia das condições de segurança para os doentes que recorrem aos serviços hospitalares do nosso país deveria ser preocupação dos nossos governantes, nomeadamente mediante a colocação de profissionais em número suficiente nos serviços e a criação das condições de trabalho adequadas à garantia da qualidade dos cuidados prestados e segurança dos doentes! Os doentes quando recorrem ao hospital não esperam sair de lá mais doentes do que o que entraram.

Como esta não tem sido preocupação dos governantes – a taxa de prevalência das infeções fala por si... Devem os utentes, enquanto financiadores do nosso serviço nacional de saúde, exigir que se cumpram as dotações seguras de profissionais nos serviços e condições de trabalho adequadas. Os serviços de saúde devem ser lugares seguros... Para utentes e profissionais.

No entanto, enquanto não se cumprem as condições de segurança, pense bem antes de se dirigir a um serviço de saúde... Tem mesmo a certeza de que está doente...?