Criar valor para o Sistema de Saúde

quinta, 01 outubro 2015 16:24 Raúl Fernandes

Raul Fernandes 6b370As discussões sobre a qualidade dos cuidados de saúde e o respetivo financiamento estão dramaticamente presas num pêndulo que oscila entre a necessidade de redução de custos e a necessidade de garantir melhor saúde e melhores cuidados de saúde para os seus utilizadores.

Quando os orçamentos encolhem o pêndulo oscila para o lado da redução de custos, ou a sua alocação a outros atores. Isto aconteceu no Serviço Nacional de Saúde (SNS) quando o Ministério da Saúde reduziu administrativamente os preços dos medicamentos e as remunerações dos profissionais.

Quando a comunicação social ou a pressão social aperta (política, dos profissionais ou de doentes), o pêndulo tende a dirigir-se para ações de reforço dos serviços de saúde. Isto geralmente ocorre com a contratação de mais médicos e a construção de hospitais (o que claramente falha à resolução do problema).

Lamentavelmente, na oscilação deste pêndulo, falta a avaliação fundamental… qual foi o valor criado por cada euro investido ou retido no financiamento em Saúde?

Michael Porter, Elizabeth Teisberg, Thomas Lee[i] e outros peritos têm ajudado na discussão deste tema e apresentam uma nova estratégia que deve ter no seu núcleo maximizar o valor para os utilizadores – ou seja, alcançar os melhores resultados em saúde ao mais baixo custo. Os autores denominam esta estratégia abrangente por «The value agenda» - a agenda de valor – e implica a reestruturação do modo como se organizam, medem e reembolsam os cuidados de saúde.

Para os autores o objetivo a seguir é aumentar o valor para os clientes, em que o valor é definido como os resultados de saúde alcançados (e que interessam aos utentes) sobre o custo de obter estes resultados. Este valor pode ser obtido com a seguinte fórmula: Valor = resultados / custo

Torna-se, portanto, claro que melhorar o valor implica melhorar os resultados sem aumentar os custos, ou reduzir os custos sem afetar os resultados. Objetivos mais limitados e centrados no processo (p.e. aumentar o acesso, conter os custos, cumprir normas, aumentar o número de atos) não resultam, porque aumentar o acesso a cuidados pobres ou reduzir os custos reduzindo a qualidade não cria valor para o serviço de saúde.

De facto, conforme afirmam os autores, a medição rigorosa do valor (resultados e custos) é provavelmente a medida que, por si só, permite melhorar os cuidados de saúde. Independentemente do país ou do sistema de saúde, quando se mede sistematicamente os resultados dos cuidados de saúde os resultados melhoram.

Atualmente a avaliação do desempenho baseia-se em indicadores de processo ou em indicadores de qualidade facilmente acessíveis (mortalidade, por exemplo). Contudo, poucas instituições conseguem apresentar indicadores de resultado e os custos reais de todo o ciclo de cuidados.

Por exemplo, um prestador pode medir e avaliar os níveis de colesterol LDL e hemoglobina glicosada em pessoas com diabetes, ou mesmo o número de consultas realizadas e checklist de ensinos que foram feitos. Contudo, são ignorantes sobre os seus resultados se não medirem se as pessoas perderam a visão, precisaram de diálise, tiveram um enfarte, uma trombose ou foram amputados.

O SNS é cego para os resultados que produz nas pessoas. Não sabe quantas pessoas saíram a andar de um hospital após um episódio de Acidente Vascular Cerebral. Não sabe quantas pessoas saíram a ver melhor depois de uma operação às cataratas. Não sabe quantos homens ficaram impotentes ou incontinentes após o tratamento a uma hipertrofia da próstata.

Imagine-se que todos os hospitais publicavam os indicadores acima descritos… Qual seria a pessoa que escolhia realizar uma cirurgia às cataratas no hospital em que mais utentes tivessem alta com redução da visão, em vez de melhoria?

As verdadeiras medidas de qualidade conseguem medir os resultados que interessam/têm impacto nas pessoas. Quando estes indicadores são divulgados publicamente os prestadores adotam rapidamente procedimentos que melhoram significativamente estes resultados e adotam boas práticas sem necessidade de intervenção externa.

Medir o conjunto de indicadores que interessam às pessoas é indispensável para atender as necessidades das pessoas, mas é igualmente um dos veículos mais poderosos para reduzir os custos em cuidados de saúde, reconhecendo e premiando os melhores prestadores.

Alterar a forma como medimos os resultados que produzimos é o primeiro passo para gerar valor para a população e fugir de ciclos pouco virtuosos de redução de despesa à custa da qualidade.

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[i] Para mais informações consultar:

Porter M., Teisberg E.; Redefining Health Care: Creating Value-Based Competition on Results; Harvard Business School Press; Estados Unidos da América, 2006, ISBN – 978-1-59139-778-6

Porter M.; Measuring Health Outcomes: The Outcome Hierarchy; New England Journal of Medicine, December 2010

Porter M.; Lee T.; The strategy that will fix health care; Harvard Business Review, Outubro 2013