Pensar os recursos humanos em saúde – desafios do ensino

sexta, 04 setembro 2015 13:22 José Carlos Rodrigues Gomes, Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica

Jose Carlos Gomes p 58fecOs recursos humanos em saúde têm sofrido uma total falta de planeamento a médio e longo prazo em Portugal. Para pensar recursos humanos em saúde, é necessário pensar todo um longo e permanente processo que se inicia na formação pré-graduada. É importante ainda reflectir como utilizamos as competências de cada profissional de saúde na resposta efetiva às necessidades dos cidadãos e das comunidades. É ainda necessário ousar quebrar paradigmas e preconceitos e fazer esta reflexão centrada no cidadão e na sustentabilidade e efetividade do serviço nacional de saúde, valor central da democracia portuguesa e uma das principais heranças do 25 de abril.

A formação em saúde funciona por ilhas, completamente separadas entre si. Temos de ser capazes de criar um arquipélago destas ilhas, com ligações funcionais e entreajuda recíproca, no uso inteligente dos recursos e das competências instaladas em cada estrutura de ensino e da prestação de cuidados de saúde. Com base nestes pressupostos, fomentando igualmente uma prática na resposta às necessidades de saúde dos cidadãos e das comunidades baseada num skill mix, a mudança exige, em primeiro lugar, a criação de estruturas de ensino superior com possibilidade de ensino dos ciclos curtos ao doutoramento, onde estejam integradas as diferentes formações em saúde, permitindo um crescimento e desenvolvimento de competências paralelo entre os diferentes profissionais, independentemente do chapéu onde a estrutura se encontre sediada (universidade ou politécnico) – se não for possível pôr cobro a esta visão preconceituosa e retrógrada de sistema binário que temos entre nós.

A mudança atrás proposta potencia o desenho de um planeamento efetivo dos recursos humanos em saúde a médio e longo prazo, baseado em projeções demográficas, alimentando o reforço da reorganização do serviço nacional de saúde, evidenciando os ganhos em saúde para os cidadãos e para a comunidade e uma maior sustentabilidade do próprio sistema.

Desta forma, estaremos em condições de criar uma efetiva ligação entre instituições de ensino e instituições prestadoras de cuidados de saúde. O divórcio a que temos assistido nos últimos anos, entre ensino e clínica, tem diminuído as possibilidades de suporte mútuo entre estes dois tipos de estruturas e dificultado a investigação aplicada e a transferência de conhecimento para as instituições de saúde (incluímos aqui os ensaios clínicos). Num momento em que defendemos em voz alta a ligação entre ensino e mundo empresarial, na área da saúde estamos em contraciclo. A criação de academias de saúde que ligue, também em termos organizacionais e legais, instituições de ensino e instituições prestadoras de cuidados de saúde, é uma prioridade para garantir, não só a qualidade assistencial, mas também a sustentabilidade do sistema e a criação de um verdadeiro processo de recertificação de competências em todos os profissionais de saúde habilitados ao exercício. A partilha de recursos entre instituições de ensino e instituições prestadoras de cuidados de saúde, possibilitando aos docentes uma atividade clínica regular, por um lado, e reconhecendo nos profissionais de saúde da clínica o seu importante papel na tutoria e supervisão, por outro, promove uma efetiva ligação entre estes dois pilares, e uma adequação mais fundamentada da oferta formativa nas necessidades da clínica. A idoneidade formativa dos serviços é, por si só, um dos garantes necessários á qualidade assistencial, nomeadamente no que diz respeito às dotações seguras e á adequação dos modelos e das técnicas utilizadas na prestação de cuidados de saúde, mas também, um dos garantes de que os novos profissionais de saúde são formados em contextos de qualidade reconhecida.

O desafio é uma efetiva mudança de paradigma: perceber que a clínica precisa de uma estrutura de ensino e de investigação forte e reconhecida, e que o ensino precisa de uma clínica ousada, arrojada e que acompanhe a evolução dos saberes… E que devem caminhar de mãos dadas.