Opinião

2030 como meta para a erradicação de todos os cancros por HPV

02 Fev. 2021

O investigador e docente universitário Rui Medeiros analisa as estratégias para erradicar os cancros causados pelo Vírus do Papiloma Humano, considerando que o caso português é um bom exemplo, graças às medidas de rastreio e à vacinação.

A HPV Action Network da European Cancer Organization é uma rede europeia que pretende, até 2030, implementar estratégias eficazes para eliminar todos os cancros causados pelo vírus do papiloma humano (HPV) e desenvolver políticas de saúde que ofereçam um acesso equitativo à vacinação, triagem, tratamento e literacia para a saúde em todos os países da Europa.

A Direção da HPV Action Network foi feita pela Assembleia Geral da European Cancer Organization (ECCO) durante o passado mês de junho. A ECCO é uma Federação que reúne várias organizações europeias –  incluindo a European Association of Urology (EAU), a European Cancer Leagues (ECL), a European Society of Gynecological Oncology (ESGO) e a European Society of Pathology – e faz recomendações junto do Parlamento Europeu sobre questões de saúde pública. Esta liderança é partilhada por mim, em representação do IPO do Porto, e pelo Prof. Daniel Kelly da Universidade de Cardiff.

 O caso português representa um bom paradigma sobre esta possibilidade de eliminação de Cancro por HPV em 2030, graças ao rastreio e à vacinação que estão facilmente disponíveis em todo o território português. Em Portugal temos, todos os anos, cerca de 750 novos casos de cancro do útero – e 350 são fatais.

No caso de cancro do colo do útero, a investigação demonstrou que existe uma causa bem definida (o vírus HPV); que a combinação rastreio/vacinação irá resultar na diminuição do número de casos de cancro por este vírus e, como consequência, numa diminuição do número de mortes.

Sabemos que todas as mulheres estão em risco de terem cancro do colo do útero – o segundo tumor ginecológico maligno mais frequente nas mulheres portuguesas com menos de 50 anos.

Existem estimativas que nos sugerem que a história natural da infeção pelo HPV –  e no caso de esta infeção ocorrer por um HPV oncogénico (ou de alto risco) – é indicada uma evolução para cancro num horizonte temporal de dez a 15 anos. Alguns fatores podem influenciar este efeito oncogénico acelerando o processo. Um dos estudos que publicámos demonstra que, por exemplo, o efeito do fumo do cigarro funciona como um acelerador/catalisador do efeito do vírus HPV. Nas mulheres fumadoras, os tumores provocados pelo HPV apresentam um desenvolvimento dez anos mais cedo. No caso do cancro do colo do útero, o vírus HPV está associado a praticamente 100% dos casos. No entanto, no cancro da cabeça e pescoço e no cancro anal, sabemos que, pelo menos 10% dos casos, são atribuíveis a este vírus. Aqui, os mecanismos de carcinogénese não estão totalmente clarificados, mas não há dúvidas de que o vírus HPV tem um efeito oncogénico na cavidade oral e na zona anal; em particular, quando temos mecanismos de imunodepressão, como acontece em seropositivos para o HIV.

Importa reforçar a ideia de que, neste caso, temos um bom exemplo em que, existindo um agente etiológico bem definido e caracterizado, as medidas de prevenção são bastante lineares, dispondo nós em Portugal de algumas delas (rastreio de base molecular e vacinação anti HPV) que, quando forem totalmente implementadas, irão resultar na erradicação quase total do cancro do colo do útero. O caso da literacia em saúde nesta área é essencial para garantir que a população tenha uma forte adesão a estas estratégias (rastreio e vacinação). A Direção-Geral da Saúde (DGS) e a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) têm realizado um excelente trabalho neste campo, em especial na sensibilização dos mais jovens. Uma das melhorias que poderia ser implementada tem a ver com a possibilidade de promover sinergias entre as diferentes organizações que participam neste esforço. Organizações (como a LPCC) que podem ajudar e, até, ser o braço atuante da DGS/Ministério da Saúde, facilitando, assim, o seu esforço de intervenção.

Devo sublinhar que, na HPV Action Network da European Cancer Organization, as políticas de prevenção e a regulamentação do acesso ao rastreio são as maiores prioridades deste grupo de trabalho. Pretende-se, a partir daí, efetivar recomendações europeias que, mesmo tendo em conta a realidade de cada país, sejam a garantia de que em toda a geografia da União Europeia (UE) existam mecanismos para garantir uma igualdade no acesso a estas medidas de saúde preventiva. O desfasamento entre os diferentes países resulta dos diversos sistemas de saúde, pelo que é evidente – insisto – que dentro da UE há desigualdade no acesso equitativo a medidas como o rastreio e a vacinação.

Graças aos resultados de muitos anos de investigação, foi possível a introdução de uma vacina contra este vírus (Portugal tem uma das melhores taxas de cobertura do mundo: mais de 90%) e a implementação do teste molecular de deteção do HPV como o método mais sensível no rastreio do cancro do colo do útero.

Mas, se recordarmos os princípios iniciais que fundamentaram a origem da UE, temos ainda muito caminho a percorrer.

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