Opinião

HPV – Da infeção ao carcinoma, a importância da prevenção

02 Fev. 2021

A importância da prevenção da infeção pelo Vírus do Papiloma Humano, nomeadamente através da vacinação, é o foco da análise da enfermeira Ana Margarida Seixas, da Unidade Colo-Laser do Hospital da Luz, Lisboa.

“Estima-se que mundialmente ocorram, atribuídos à infeção por Vírus do Papiloma Humano (HPV), 570.000 novos casos de carcinoma em mulheres e 60.000 novos casos de carcinoma em homens.

As pessoas sexualmente ativas, independentemente do género, podem contrair HPV em qualquer fase da sua vida, sendo assim considerada a infeção sexualmente transmissível mais comum.

O HPV tem afinidade para infetar células epiteliais cutâneas e das mucosas podendo evoluir para carcinoma do colo do útero (CCU), vagina, vulva, orofaringe, anal e do pénis. Embora o CCU seja o mais prevalente, o risco de a infeção por HPV afetar tecidos de diferentes estruturas leva-nos à necessidade de definir estratégias de prevenção primária, secundária e terciária em ambos os sexos.

A OMS defende a prevenção primária para o CCU através do aumento da literacia e da vacinação. Com intervenções de educação para a saúde é possível informar a população de que: a transmissão do HPV dá-se através de qualquer epitélio infetado; é possível o rastreio para deteção de lesões pré-cancerígenas do CCU através da genotipagem, citologia e colposcopia; existem fatores de risco que influenciam a persistência de HPV. Só desta maneira é possível emponderar a comunidade de forma a que esta opte por práticas sexuais seguras e adote comportamentos promotores de saúde que evitem a propagação viral.

A vacinação surge como um dos comportamentos promotores de saúde. Esta é mais eficaz antes do primeiro contacto sexual, pelo que está contemplada no Plano Nacional de Vacinação português, para raparigas e rapazes com 10 anos de idade. A cobertura vacinal do género masculino tem aumentado em muitos países sendo justificada por diversos fatores, como: não existir rastreio para o género masculino, a imunidade de grupo ter uma fraca expressão num contexto de globalização e não abranger os homens que têm sexo com homens.

Os benefícios da vacinação não se cingem a estes grupos etários, estando recomendada a mulheres e homens de outras faixas etárias, inclusive aqueles com infeção prévia a HPV, oferecendo também proteção cruzada para serotipos que não os contemplados na vacina.

O tratamento das lesões pré-malignas detetadas precocemente é fundamental para impedir a progressão viral para cancros associados, estando em Portugal definidos dois tipos de tratamentos para as lesões pré-malignas: destrutivos (criocoagulação, diatermocoagulação, ou vaporização laser) ou excisionais (conização).

Tem sido alvo de discussão a importância da vacinação dos profissionais de saúde expostos a partículas virais provenientes do fumo cirúrgico provocado pelo tratamento destas lesões, juntamente com a utilização de equipamentos de proteção individual e aspiradores específicos de fumo.

São vários os fatores que influenciam a infeção e progressão do HPV. A literacia, a vacinação, o rastreio e o tratamento das lesões pré-malignas são estratégias para o declínio da doença, cujo envolvimento dos profissionais e da comunidade deverá ser cada vez mais efetivo.”

 

Ana Margarida Seixas

Enfermeira na Unidade Colo-Laser do Hospital da Luz, Lisboa

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