Vacinar sim, sempre (parte 2)

sexta, 14 julho 2017 10:40 Vitor Marques, enfermeiro, Associação Portuguesa de Enfermeiros de Cuidado Saúde Primários

Vacinar sim, sempre (parte 2)Vamos então dissecar alguns dos argumentos mais utilizados pelos pais anti-vacinação. Não deixa de ser curioso, que à medida que os argumentos falaciosos vão sendo refutados um a um, pela evidencia cientifica, logo os grupos anti-vacinação tentam arranjar novos.

Influenciados pelo estudo de Andrew Wakefield, afirmam que os casos de autismo não pararam de aumentar devido aos ingredientes usados nas vacinas, o que não corresponde minimamente à verdade. É um facto que os casos de autismo continuam a aumentar, mas variadíssimos estudos realizados em diversos países afastam a hipótese do autismo estar diretamente relacionado com as vacinas. A ligação entre dois eventos não implica necessariamente uma relação de causalidade. Para o Centro de Controle das Doenças (CDC) dos Estados Unidos as vacinas não estão entre os suspeitos do autismo. Atualmente as atenções estão viradas para erros genéticos do acaso, cesarianas efetuadas por conveniência, poluição difusa provocada por pesticidas no ambiente, entre outros, como possíveis causas do autismo. Mas para quem continua na dúvida que consulte o estudo norte-americano, efetuado entre 2001 e 2012, pela Comissão de Revisão de Segurança de Imunização do Instituto de Medicina (IOM), realizado com 95.727 crianças, das quais 2% tinham irmãos mais velhos que se enquadravam no espetro autista. Concluíram não existir qualquer relação entre a vacina tríplice DTP e as crianças diagnosticadas com autismo, que as hipóteses geradas até à data relativas a um mecanismo biológico para tal causalidade eram apenas teóricas, que os benefícios da vacinação estão sobejamente comprovados, que a rejeição generalizada das vacinas pode conduzir a aumentos de incidência de doenças infeciosas graves como o sarampo, tosse convulsa e meningite bacteriana.

Entretanto, à medida que vão surgindo cada vez mais estudos comprovando não existir uma relação direta entre vacinas e autismo, viraram-se para os conservantes, adjuvantes, aditivos e substâncias utilizadas no processo de fabrico, argumentando que os laboratórios escondem os ingredientes das vacinas e sua toxicidade. Não existe nenhum estudo que prove que a quantidade de timerosal, um derivado do mercúrio, usado nas vacinas provoque perturbações no desenvolvimento neurológico das crianças, como autismo, défice de atenção ou hiperatividade e na idade adulta doenças degenerativas como Alzheimer, Parkinson, entre outras. Na Dinamarca e na Suécia o timerosal foi removido das vacinas em 1992 por precaução, no entanto, um estudo apresentado em 2003 demonstrou que o número de autistas não parou de aumentar. Em clara demonstração de transparência o Centro de Controle das Doenças (CDC) dos Estados Unidos, fez questão de publicar online a composição de todas as vacinas e ingredientes utilizados no seu fabrico. Apesar de, até hoje, nenhum estudo científico ter comprovado que o conservante timerosal utilizado nas vacinas é responsável por qualquer tipo de patologia, foi recomendado em 2001, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a sua substituição para a maioria das vacinas por sais de alumínio, sendo o mais utilizado o hidróxido de alumínio. De imediato começou a contestação pela utilização deste elemento. Os sais de alumínio, nas suas várias formas, hidróxido, fosfato, sulfato e potássio (alúmen) A32, estão amplamente dispersos por todo o planeta, pelo que, estamos em contacto com eles diariamente. Podemos encontra-lo na água, solo, plantas e animais. A quantidade máxima tolerada pelos seres humanos é de 2mg/kg/dia, quantidade muitíssimo superior à utilizada nas vacinas que é cerca de 225 microgramas por litro, sensivelmente a mesma quantidade encontrada no leite de fórmula que nenhum pai se recusa a dar aos filhos. O leite materno contém cerca de 40 ug/litro e o leite de vaca cerca de 14 vezes mais. A ignorância é inimiga da verdade.

Relativamente às substâncias utilizadas no processo de fabrico (formaldeído, antibióticos, proteínas de ovo, proteínas de levedura, etc.) também não existe nenhum estudo, à luz dos conhecimentos atuais, que comprove cientificamente serem responsáveis por qualquer distúrbio nos seres humanos. O uso de formaldeído, o mais criticado, não excede 0,1mg, sendo considerado seguro por duas razões: todos os seres humanos têm formaldeído na sua circulação sanguínea, 2,5 ug por ml de sangue, onde desempenha ação importante no metabolismo para a síntese de timina, purinas e aminoácidos, valor 10 vezes superior ao usado nas vacinas. A outra razão, é que foram experimentadas quantidades 600 vezes maiores de forma segura em animais de laboratório.

Em estudo realizado no estado de Texas sobre a incidência de cancro infantil entre os anos de 1998 e 2006 (a39), foram diagnosticados 2800 crianças com cancro. Paralelamente, os investigadores analisaram os registos de vacinação destas crianças e verificaram que existia um menor índice de cancro nas vacinadas. A vacinação está contra indicada apenas em indivíduos imunodeprimidos, mas apenas as vacinas vivas, as outras podem ser administradas sob vigilância médica apertada. Mesmo as crianças alérgicas a proteína do ovo podem ser vacinadas, sendo recomendável que o façam nos hospitais pediátricos. Temos que ter a consciência que a partir da concepção, tendo em conta que o ser humano é uma máquina complexa, a probabilidade de erros genéticos é muito grande, mais ainda quando também sabemos que fatores externos presentes no meio ambiente podem igualmente contribuir para esses erros.

Outro argumento contra a vacinação é o de que “são administradas muitas vacinas ao mesmo tempo e muito cedo, não dando a possibilidade ao sistema imunitário da criança de se desenvolver de forma natural”. Vários estudos provam que a administração de várias vacinas ao mesmo tempo não aumenta as reações adversas, por outro lado, porque não vivemos num meio ambiente completamente estéril, as crianças estão constantemente expostas a todo o tipo de microrganismos, embora o sistema imunitário de uma criança saudável esteja preparado para lidar com a maioria deles, mas não com todos, por isso necessita de ajuda conferida pelas vacinas, que devem serem administradas o mais precocemente possível, preferencialmente até um ano de idade. Neste período de 12 meses, o sistema imunitário das crianças apresenta-se ainda muito vulnerável, por insuficiente maturidade para atuar com rapidez suficiente contra alguns tipos de microrganismos, uma vez que a imunidade conferida pela mãe desaparece no primeiro ano de vida deixando a criança exposta aos agentes infeciosos. Relativamente à teoria da supressão do sistema imunitário provocada pela vacinação, em que referem que esta altera o equilíbrio linfocitário Th1/Th2, com predominância do Th2, provocando uma diminuição do número de leucócitos, a segmentação de neutrófilos e a capacidade fagocitária do neutrófilo polimorfo nuclear (A5) não é mais do que uma crendice, sem qualquer fundamentação científica. O efeito provocado pela vacinação no sistema imunitário é equivalente ao provocado pela doença, mas sem os ricos dessa doença que pode deixar sequelas graves e provocar a morte. O primeiro ano de vida é o período mais crítico do sistema imunitário humano. Pensar que os antigénios passados pela mãe e o leite materno confere imunidade durante o período de amamentação é outra crendice que pode conduzir a resultados trágicos. Aliás, hoje, recomenda-se durante a gravidez, entre as 20 e as 36 semanas, a vacinação com uma dose combinada contra a tosse convulsa, tétano e difteria (Tdpa), em doses reduzidas, precisamente para reforçar o sistema imunitário do bebé contra estas doenças nos primeiros dois meses de vida.

Outro argumento utilizado pelos pais é o de que “contrair a doença é mais vantajoso que apanhar a vacina para essa doença”. Embora se sabia que o contato com alguns microrganismos produz imunidade para o resto da vida, também não é menos verdade que algumas destas doenças podem ter cursos benignos, mas também consequências fatais, não tão raras assim, como aliás se tem constatado com os surtos de sarampo e tosse convulsa.

Ultimamente, encontrando-se esgotados os argumentos contra a vacinação, alguns pais refugiam-se na defesa e respeito pela sua tomada de decisão. Ora, aqui coloca-se o problema dos direitos e dos deveres. Um pai tem tanto o direito de não vacinar o seu filho, como bater-lhe ou maltratá-lo, ou inclusive escolher o seu curriculum escolar. Nunca é demais lembrar que o direito de um individuo termina onde começa o do outro. Os direitos de uma comunidade devem prevalecer sobre os direitos individuais. Uma criança não vacinada, pode colocar em perigo toda uma comunidade que está dependente da imunidade de grupo, ou seja, para esta imunidade funcionar em pleno é necessário que praticamente toda a comunidade esteja vacinada, numa percentagem entre 95% e os 100%. Se a diferença entre vacinados e não vacinados for pequena, significa que os não vacinados e alguns dos vacinados correm um grande risco de virem a ser infetados, sendo que o prognóstico para os não vacinados é muito pior. O direito de não ser vacinado acaba quando começa o direito de não ser contagiado. Neste sentido, entendo que o PNV deveria ser de implementação obrigatória e que no ato das matriculas nas creches, infantários e escolas, tal como era exigido a alguns anos atrás, todos os pais deveriam fazer prova de vacinação dos seus filhos. Praticamente todas as instituições privadas de ensino em Portugal exigem que os seus alunos estejam vacinados, por que razão o ensino público não procede de igual forma? Nos últimos anos devido à ausência de surtos, tem-se vindo a desleixar alguns procedimentos, quer ao nível do ensino, quer ao nível dos centros de saúde. Está realidade pode-nos sair cara no futuro próximo. Na Austrália perante o ressurgimento de doenças dadas como extintas, o Governo decretou o corte de incentivos fiscais a todos os pais que recusem dar vacinas aos filhos. Assim, como outros produtos (antibióticos, por exemplo), a vacina foi a descoberta médica que mais evitou mortes em todo mundo, ao impedir que as crianças e os adultos contraíssem doenças antes devastadoras, como a varíola, a raiva humana, a poliomielite, o tétano, entre outras (Plotkin et al., 2004). Doenças antes consideradas comuns na infância, atualmente fazem parte da história, graças às vacinas. Segundo Moylett et al. (2004) e Kimmel et al. (2002), as vacinas são a mais poderosa ferramenta disponível no combate aos agentes infecciosos. Em um futuro que pode estar bem próximo, devido aos avanços da medicina e da tecnologia, as atuais vacinas poderão apresentar outras formas de aplicação, como as inaláveis e as oferecidas em alimentos (Plotkin, 2005).

Uma defesa a favor da vacinação elaborada em 2007 pelos Institutos Robert Kock e Paul Erlich, apresenta um cardápio das objeções mais em voga e que vão da dúvida razoável “as vacinas não conferem imunidade a longo prazo, pelo que tem que ser repetidas” ou “podemos adoecer apesar de vacinados” à teoria da conspiração “a industria farmacêutica só quer ganhar dinheiro”, à pura iliteracia científica “a eficácia das vacinas nunca foi provada” ou “nenhum dos supostos agentes causadores de doença foi até hoje visto ou isolado”, sendo a melhor ou a mais idiota de todas que “muitas das doenças contra as quais somos vacinados já não existem na europa”. Sendo caso para lhes perguntar a que se deve este fenómeno.

A saúde pública tem um problema: o êxito desvaloriza-a. Quando há uma epidemia como a do ébola, do vírus zico ou surtos de legionella, facilmente reconhecemos a sua utilidade e até o fascínio. Quando tudo corre bem e a prevenção é eficaz, ninguém adoece, não há sequelas, nem mortes, facilmente se esquece o que arduamente se ganhou. Hahnemann, considerado por muitos como o pai da homeopatia, referiu sobre a vacinação o seguinte: “Esta parece ser a razão deste fato benéfico notável: desde a distribuição geral da vacina de Jenner, a varíola no homem nunca mais apareceu de forma tão epidêmica quanto há 40 ou 50 anos, quando uma cidade atingida perdia pelo menos metade e muitas vezes três quartos de sua população infantil em virtude dessa peste”.

A ciência nem sempre está certa, é outra falácia usada. A ciência, à luz do conhecimento atual está sempre certa, o que acontece é que a ciência evolui à medida que se vão adquirindo novos conhecimentos e novas tecnologias, por vezes, conhecimentos dados como certos em determinada altura, deixam de o ser. Todos nós temos o direito de questionar a ciência, desde que o façamos de forma científica e séria, conscientes de que a ciência é dinâmica, está em constante mutação, o que hoje é uma certeza, amanhã pode não o ser, mas temos que acreditar no que a ciência produz ao nível do conhecimento atual.

O progresso da Humanidade tem custos, o progresso da ciência tem custos, alguns terão que ser sacrificados para que muitos outros possam sobreviver. Mais vale num milhão uma criança ter um problema grave com uma vacina, do que morrerem novecentos e noventa e nove mil contaminados por um criança que não foi vacinada. A ciência é isto, quando se colocar numa balança os pós e os contra. Realço, no entanto, que é tão irresponsável questionar a vacinação que tem protegidos milhões de pessoas, como é igualmente irresponsável acreditar que tudo o que a comunidade científica afirma é uma verdade absoluta. Uma coisa é contestar por ser contra, outra é contestar para ser obter um produto melhor. Sem dúvida que as vacinas evoluíram muito também graças aos movimentos de contestação. Também recusar a vacinação baseados no facto de que a indústria farmacêutica apenas visa o lucro, parece-me uma atitude muito redutora, perante a importância e os benefícios profiláticos comprovados das vacinas. O preço das vacinas, reconheço, é por vezes exorbitante, mas isso é um problema económico e político que nada tem que a ver com a segurança e o benefício das vacinas. Termino colocando a questão: porque será que tão poucos acreditam que tantos estão errados? O mundo estará sempre seguro enquanto o bem permanecer sobre o mal.