Vacinar sim, sempre (parte 1)

segunda, 10 julho 2017 11:34 Vitor Marques, enfermeiro, Associação Portuguesa de Enfermeiros de Cuidado Saúde Primários

Vacinar sim, sempre Embora não existam em Portugal movimentos anti-vacinação organizados como em outros países, é fácil encontrar na internet, blogues, entre outros, comentários contra a vacinação, alguns deles fazendo referência a profissionais de saúde que defendem a não vacinação. Ora aqui começa desde logo um dos problemas da não vacinação.

Todos sabemos o peso que tem na decisão dos pais a opinião dos profissionais de saúde, que, em meu entender, todos deveriam ser acérrimos defensores da vacinação, uma vez que possuem conhecimentos científicos suficientes para perceberem que a vacinação é a forma mais segura e eficaz no combate a doenças que outrora matavam aos milhares. Todos os profissionais de saúde que diariamente lidam com a vacinação deviam abster-se de opiniões pessoais, esclarecer cabalmente os pais com dúvidas utilizando argumentação científica validada e incentivar a aplicação do Plano Nacional de Vacinação (PNV) recomendado pelo Serviço Nacional de Saúde e Sociedade Portuguesa de Pediatria.

É por demais evidente que a vacinação está a ser vítima do seu enorme sucesso. A maioria dos profissionais de saúde da atualidade, nunca contactaram com algumas destas doenças, nunca viram morrer crianças de tosse convulsa ou sarampo, entre outras igualmente mortais, como a difteria ou o tétano. Devemos ter em conta, que os profissionais de saúde, seja em que especialidade for, não são donos da verdade, e as suas afirmações devem ser conscientemente confirmadas e validadas por outros profissionais de saúde. Também não devemos alimentar o mito de que uma alimentação saudável é suficiente para proteger os nossos filhos destas doenças, ajuda mas não é suficiente e pode trazer dissabores aos pais que insistem na teoria de que tudo o que não seja natural não é bom para a nossa saúde. Nesta ordem de ideias, podemos questionar se atualmente existe alimentação segura. A água que bebemos seja da canalizada ou da engarrafada, a carne e os legumes que comemos, mesmo os que provém de quintas biológicas podem conter nitrofuranos, beta-agonistas, dioxinas, glifosatos, etc. O peixe que ingerimos, mesmo o de origem selvagem, quando sabemos que hoje os mares estão altamente poluídos com metais pesados. Os doces que os nossos filhos ingerem às carradas cheios de conservantes e óleo de palma.

Faz-me espécie alguns destes pais preocuparem-se com uns míseros microgramas de hidróxido de alumínio presente nas vacinas, quando na natureza, o alumínio nas suas várias formas está presente em praticamente tudo o que nos rodeia, inclusive no leite materno, nas fórmulas de leite infantil ou no leite biológico de vaca. O corpo humano é ele próprio uma máquina química inteligente com capacidade para reter ou eliminar substâncias químicas desde que em quantidades insuficientes para causar toxicidade.

Hoje virou moda consultar o Dr. Google, muitas vezes sem a noção que muita da informação que circula na internet é falsa, na maioria das vezes é utilizada pelos donos de blogues para ganhar dinheiro, apresentando estudos falsos e adulterados, ou para servirem de ligação a outros sítios onde apresentam toda uma série de produtos “milagrosos”, que tentam vender aos mais incautos, ou tentando fazer o que fez em 1998 o médico inglês Andrew Wakefield com o seu estudo de apenas doze crianças, com o qual pretendia provar a existência de uma correlação entre a VASPR e o autismo, tendo depois sido desmascarado pelo seus colegas, expulso da Ordem dos Médicos e obrigado pelos tribunais a fazer um retratamento público do artigo que escreveu sobre o assunto. Felizmente, na altura as comunicações e as redes sociais não estavam tão desenvolvidas como atualmente, o que de certa forma impediu que muitos países não fossem devassados por esta publicidade enganosa, nomeadamente Portugal, que, felizmente, hoje mantém uma cobertura vacinal nacional altíssima entre os 95% e 98% para a maioria das doenças abrangidas pelo PNV, situação que está a ser comprovada pelo registo de muito poucos casos de sarampo em Portugal, ao contrário do que se passa na maioria dos outros países europeus, onde os casos registados são muitíssimo superiores, nomeadamente na vizinha Espanha.

Quero aqui também expressar o meu desagrado pela forma como os media nacionais têm tratado o assunto, ao promoverem debates com pessoas mal informadas e que não são da mesma área de formação. Não se pode promover debates sobre um problema sério de saúde publica, colocando lado a lado um homeopata e um médico, ou um médico-cirurgião e um delegado de saúde publica, ou um zé-ninguém com um pediatra, o assunto deve ser sempre discutido entre pares, com argumentos científicos válidos, ou acreditamos na ciência, conscientes - que infelizmente esta ainda não consegue resolver todas as enfermidades acometidas pela Humanidade -, ou voltamos à idade das trevas, na qual o homem respirava ar puro, bebia água pura, comia alimentos biológicos e morria aos 30 anos.

Vários estudos confirmam que as vacinas, por si só, aumentaram em cerca de 30 anos a esperança média de vida. As evidências científicas são provas que levam imenso tempo a obter, sendo as provas, uma forma especializada do conhecimento. É por isso que artigos e livros científicos são submetidos a “revisão por pares” e não a “revisão por todos”. Ter uma forte opinião sobre algo não é o mesmo que saber algo. É fácil perceber porque documentos e vídeos do Youtube anti-vacinação têm algum sucesso. A maioria das pessoas que os lê e vê não se dá ao trabalho de confirmar a veracidade dos dados apresentados e as fontes utilizadas. Basta alguém fazer-se passar por um especialista na matéria, umas meias-verdades, uns quantos gráficos mal interpretados, testemunhos pessoais para apelar à emoção e temos a desconfiança instalada.

Também é notório que, ao nível dos cuidados de saúde primários, tem vindo progressivamente a aumentar a passividade dos profissionais de saúde perante a recusa vacinal, nomeadamente por parte dos enfermeiros com grande responsabilidade no cumprimento integral do PNV. É mais fácil solicitar aos país a assinatura de uma declaração em como se responsabilizam pela não vacinação dos filhos, do que utilizar argumentos científicos validados. Defendo que os enfermeiros responsáveis pela administração de vacinas devem ser possuidores de formação específica sobre vacinação, bem como, possuírem argumentos científicos capazes de refutar os argumentos apresentados pelos pais, na maioria das vezes, baseados em opiniões de outros pais, amigos, profissionais de saúde, sem qualquer sustentação científica. A vacinação é um ato com características muitos especiais. É a inoculação de algo estranho no corpo de pessoas sãs, pelo que é natural que gere alguma polémica e desconfiança. Assim, é crucial explicar às pessoas o que são as vacinas e como funcionam, de forma clara, rigorosa e persistente, para que as aceitem de livre vontade.