Enfermeiros especialistas: reconhecimento precisa-se

segunda, 03 julho 2017 09:15 Humberto Domingues, enfermeiro especialista em Saúde Comunitária

Enfermeiros especialistas: reconhecimento precisa-seÉ vergonhoso como o poder político se comporta e trata os enfermeiros portugueses e, neste particular, os enfermeiros especialistas.Os enfermeiros portugueses são técnicos altamente formados e, por isso, afirmam-se com o nível de conhecimentos científicos e do saber cuidar a pessoa no seu todo, ou seja, de forma holística. Daí os países da Europa, países árabes e outros destinos do mundo nos recebem de braços abertos.

Em Portugal, os enfermeiros detêm um vasto curriculum de experiências no cuidar, no saber ser e saber fazer, acompanhados de formações académicas de especialização, mestrados e doutoramentos quer nas Ciências de Enfermagem, quer noutras disciplinas e saberes. E a grande maioria destas formações e competências são adquiridas e pagas a expensas próprias.

Apesar desta realidade e de estes técnicos superiormente formados estarem, na sua grande parte, ao serviço do Serviço Nacional de Saúde (SNS), o Estado Português paga-lhes mal, não reconhece o devido valor e nem sequer tem noção de que, sem enfermeiros, o SNS já tinha colapsado (para gáudio de muitos “tubarões” dos serviços de saúde privados e interesses políticos, uns mais explícitos e outros mais encobertos).

Os baixos salários/remunerações, a falta de carreira e a destruição da anterior carreira não são só da responsabilidade do poder político. É também dos sindicatos de enfermagem e da Ordem dos Enfermeiros, que permitiram que se chegasse a este estado de coisas, e esta delapidação e desvalorização das ciências, saberes e práticas de enfermagem. Interessa perguntar: quem protagonizou a destruição da carreira de enfermagem onde estavam contempladas as várias especialidades, com a colaboração/conivência de quem?

Este novo movimento de afirmação e de reivindicação dos enfermeiros especialistas está a causar alguns incómodos ao poder político e a alguns sindicalistas, que já pouco ou nada representam a classe.

Quem tem aversão a que os enfermeiros tenham especialidades e sejam especialistas nas várias disciplinas? Convém lembrar que os enfermeiros possuem especialidades conforme o Diploma do Estatuto da Ordem dos Enfermeiros, consagrado pela Lei nº. 156/2015 de 16 de Setembro, no seu artigo 40º. consagra os seguintes títulos de especialidade: Saúde Comunitária, Saúde Materna e Obstetrícia, Reabilitação, Infantil e Pediatria, Médico-Cirúrgica e Saúde Mental e Psiquiátrica.

Os enfermeiros especialistas estão a reivindicar o pagamento do salário idêntico às funções que desempenham. Estamos apenas, de forma ordeira, civilizacionais, cumprindo a lei, por isso dentro da legalidade, a exigir o reconhecimento do nosso trabalho com habilitações próprias e adequadas ao desempenho de funções.

Os enfermeiros não reivindicam os seus direitos à queima-roupa sr. ministro. O poder político é que nos trata à queima-roupa. É uma desigualdade de tratamento, de reconhecimento e de falta de pagamento, por quem em primeiro lugar tem obrigação de dar o exemplo – o Estado – através dos respectivos ministérios. Este mesmo Eestado e poder político que é muito rápido a decidir e a injectar dinheiro público para a banca é o mesmo Estado lento, inoperante e parasita que se aproveita dos serviços dos seus servidores, que se formaram e especializaram a expensas próprias, e não lhes paga o salário/remuneração de acordo com o serviço que prestam (neste caso pelos enfermeiros especialistas).

Lembrar. sr. ministro, que esta reivindicação não é à queima-roupa. Antes de mais, o senhor, antes de ser ministro, já era administrador hospitalar, e por isso conhecia a situação dos enfermeiros e particularmente dos enfermeiros especialistas. Se não conhecia, devia de conhecer por diversas razões (inclusive pela via familiar próxima). E, portanto, esta não é uma questão de hoje, mas de pelo menos, há uma década. E se chama a esta reivindicação uma atitude de queima-roupa, como foi rápido a caracterizá-la, o que chama à greve dos Professores em dia de exames? O que chama à greve dos controladores aéreos em períodos de férias e momentos festivos especiais? A ameaça de greve dos juízes que pode afectar o período eleitoral? A própria greve da sua classe profissional (os médicos)?

Volto a escrever o que já escrevi. Apesar de ser um defensor do diálogo e da negociação, parece-me que esta possibilidade se esgotou há muito tempo por um cinismo e incompetência latente e, por isso, só o uso de um radicalismo de posição conseguiremos fazer valer o reconhecimento da nossa importância insubstituível no SNS. Os enfermeiros, se quiserem, são capazes de estagnar/paralisar o SNS! Só assim serão capazes de fazer ouvir a sua voz e capacidade de intervenção, de gestão e de melhoria do SNS. Sindicatos e Ordem dos Enfermeiros, em uníssono, dignifiquem quem representam.

Urge tomar medidas políticas! Por isso, também não colhe a permanente alusão e defesa cínica de que não há condições orçamentais, ou adiar a decisão para próximos orçamentos do Estado, porque para os problemas da banca e dos seus buracos há sempre dinheiro disponível, à custa dos contribuintes. Há dinheiro para resolver os “problemas“ de outras classes, as parcerias público-privadas (as célebres PPP) que continuam a levar milhões de euros do Estado, etc.

A todos os enfermeiros: não toleremos esta falta de respeito por nós. Exijamos comportamentos democráticos e de respeito pelo que somos e por quem tratamos/cuidamos. Estes governantes, os de hoje, os de ontem e possivelmente, os de amanhã, precisam de ser ensinados a saber respeitar os enfermeiros portugueses.