Ser enfermeiro numa unidade de ortopedia infantil

terça, 30 maio 2017 15:42 Ana Garcia Jesus, enfermeira especialista em Saúde Infantil e Pediatria, Unidade de Ortopedia 5 do CHLC, EPE – Pólo Hospital Dona Estefânia

Ser Enfermeiro numa Unidade de Ortopedia InfantilSe fecharmos os olhos e pensarmos em crianças… vêm-nos à cabeça imagens de pequenos seres humanos ternos, doces, de sorriso fácil, que correm desenfreadamente, que brincam ao faz de conta… brincam sozinhas… brincam em grupo… choram como forma de comunicarem… choram porque se magoaram… choram para chamar a atenção… muitas vezes perguntam “e porquê?”, ou adolescentes sempre a desafiar tudo e todos.

Na Unidade de Ortopedia em que trabalho todas estas imagens fazem parte do dia-a-dia dos enfermeiros que nela trabalham. O internamento provoca uma alteração ao normal funcionamento da família, mas o desenvolvimento da quase totalidade das crianças continua a ser harmonioso e todos os enfermeiros de ortopedia infantil se esforçam para que o internamento seja apenas um pormenor diferente na vida das crianças/famílias, mas tão positivo e feliz quanto possível desde que são admitidos até que têm alta. O ambiente (colorido, luminoso, espaçoso), a sala de atividades lúdicas, as fardas coloridas, a humanidade e o humor dos enfermeiros são aspetos que muito contribuem para que isso seja uma realidade.

O diagnóstico das doenças ortopédicas é geralmente repentino, muitas vezes em consequência de um trauma, queda ou acidente. Em situações mais simples, como fraturas alinhadas dos braços ou das pernas, em que o tempo de internamento muitas vezes não excede as 24h, rapidamente a criança se adapta à sua nova condição, a presença de gesso constituí um motivo de brincadeira, dá-lhes super poderes nas mãos ou nos pés, pedem-nos para desenhar ou assinar o mesmo e rapidamente o choro se transforma em sorrisos e gargalhadas.

Os grandes desafios desta área de cuidado de enfermagem dizem respeito às doenças crónicas ou doenças cujo tratamento leva a grandes alterações da imagem corporal como as amputações traumáticas, os tumores que levam à amputação ou alteração de estruturas anatómicas (cirurgia de rotação de Van Ness), deformidades que exigem a colocação de fixadores externos, colocação de trações esqueléticas na cabeça (escolioses) ou situações em que haja uma grande limitação das atividades características desta faixa etária (p.e. internamentos prolongados, com ou sem imobilização no leito). A adaptação a estes tratamentos é na maioria das vezes reduzida pela parceria, empatia e relação de ajuda estabelecida entre as crianças, os pais e os enfermeiros. Nem sempre é fácil para nós, enfermeiros lidar com situações tão complicadas como estas… choramos, gritamos em silêncio e de seguida colocamos um olhar sereno e um sorriso para cuidar das crianças e famílias, dar-lhes esperança no futuro e competências para seguirem os seus projetos de vida. São os enfermeiros que 24 sobre 24h os ajudam a adaptar à sua nova condição, a encontrar aspetos positivos (algumas vezes onde existem poucos ou nenhuns) mas também reforçam a autonomia da criança/família.

No internamento, os enfermeiros, em conjunto com a restante equipa multidisciplinar, de tudo fazem para proteger as crianças de possíveis complicações físicas ou psicológica, mas tão rápido quanto possível estas crianças/famílias estarão em casa e são os enfermeiros que os ensinam, através do exemplo, desenhos ou gestos, durante dias ou semanas, a cuidar o melhor possível da criança, minimizando complicações e reconhecendo precocemente sinais de alarme. Certo é que nenhuma criança tem alta sem que estes aspetos sejam do efetivo conhecimento da criança/família (muitas vezes a família alargada), a fim de que haja continuidade de cuidados, sem grande alteração da dinâmica familiar previamente existente.

O choro de dor distingue-se de todos os outros, incomoda todo - quase fere os órgãos dos sentidos da audição e da visão - pelo que o controlo da dor é um aspeto fundamental ao longo do internamento, tendo especial relevo no período perioperatório da cirurgia ortopédica. O avanço da farmacologia e da técnica tem permitido a utilização de um maior número de analgésicos em idade pediátrica, bem como a utilização da analgesia epidural, perineural ou controlada pelo doente. Mas, nesta faixa etária, as medidas não farmacológicas de controlo da dor como o colo, o abraço, a sução, a musicoterapia, a brincadeira ou a distração fazem muitas vezes a diferença e tornam a experiência de internamento mais aprazível e humanizada.

As relações estabelecidas entre crianças/famílias são tão fortes… muitos voltam, uma e outra vez para nos dar conta dos seus percursos… conquistas… evolução positiva ou negativa da sua condição clínica. Nos reinternamentos conhecemo-nos pelo nome, o pai e a mãe… a criança às vezes está tão crescida que já quase não a reconheceríamos se não fosse pelo sorriso, expressão característica ou olhar… quase sempre rimos com histórias dos nossos cuidados que permanecerão nas suas memórias enquanto as marcas físicas existirem… pelo que todos os dias nos esforçamos, enquanto equipa de enfermagem, para que sejam positivas.