A Enfermagem e os Cuidados Paliativos

terça, 02 junho 2015 16:57 Manuel Luís Capelas, enfermeiro e professor na Universidade Católica Portuguesa

LuisCapelas 02 f4d46Os cuidados paliativos como hoje os conhecemos, têm cerca de 50 anos, com a sua visão moderna a ser fundada por Dame Cicely Saunders, formada em Medicina, Enfermagem e Serviço Social.

Por aqui se pode desde já vislumbrar que a Enfermagem como ciência e arte que é teve, tem e terá um papel fundamental não só na promoção destes cuidados como na qualidade com que os mesmos são prestados a quem deles necessita.

Hoje, os cuidados paliativos não podem mais ser vistos como cuidados prestados ao doente moribundo, mas como uma área da ciência que se dedica à prevenção e alívio do sofrimento dos doentes, e sua família, com doença incurável e/ou grave, ameaçadora da vida, com recurso à identificação precoce e tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, nomeadamente a dor, mas também dos psicológicos, sociais e espirituais.

Deste modo, podemos assumir que esta conceptualização tanto se enquadra na área de trabalho específico de enfermagem junto destes doentes e sua família, mas também no dia-a-dia da enfermagem em qualquer área do cuidar, pois a prevenção e alívio do sofrimento está no núcleo central do cuidar. Para tal é essencial que os enfermeiros sejam competentes a este nível e, simultaneamente, se sintam confiantes na prestação destes cuidados, abordando estas situações, na generalidade problemáticas, com base na maior evidência científica possível. Por tudo isto, a FORMAÇÃO assume-se como o alicerce fundamental e a enzima catalisadora da mudança.

Só deste modo, a Enfermagem pode levar a cabo e com sucesso, a missão que tem nesta área. Tal passa por participar num efetivo trabalho em equipa transdisciplinar; promover a continuidade dos cuidados ao longo do tempo e entre os diferentes serviços de saúde; ensinar os doentes e suas famílias, assim como promover, mesmo nesta fase, estilos de vida promotores da qualidade de vida; formar outros profissionais e, em muto casos dirigir serviços especializados.

Tudo isto, assenta num total e incondicional apoio ao doente/família, fazendo com que esteja sempre claramente definido o que se deseja e necessita, que os direitos humanos sejam respeitados, representando as opiniões ou decisões dos sujeitos, no sentido de influenciar os restantes elementos intervenientes no processo, ouvir e discutir os diferentes pontos de vista sem efetuar qualquer tipo de julgamento, garantir que os cuidados e/ou serviços necessários são verdadeiramente disponibilizados. Em suma, assenta numa total proteção e promoção da autonomia do doente, no agir em sua representação e defender a justiça social na disponibilidade e acessibilidade aos cuidados de saúde adequados.

O que hoje precisamos de fazer é parar e refletir. Proporcionarmo-nos a nós próprios momentos de autorreflexão para neles podermos encontrar áreas de melhoria no nosso desempenho profissional individual e coletivo.

São várias as questões que nos devemos colocar: temos adequada formação em cuidados paliativos? Se não temos, estamos dispostos a tê-la? Ouvimos cuidadosamente os problemas e preocupações dos nossos doentes assim como os questionamos sobre o que verdadeiramente lhes interessa? Encorajamos os doentes a responder às questões que lhes fazemos assim como os questionamos de forma entendível? Somos capazes de admitir que não dominamos tudo e que nem sempre temos a resposta para os seus problemas? Estamos dispostos a manter um permanente diálogo com os nossos doentes, com adequadas estratégias de comunicação? Ajudamos os doentes a definirem objetivos e expetativas realistas? Usamos o nosso tempo para explicar ao doente tudo aquilo que lhe diz respeito e a tomar decisões de forma partilhada? Estamos abertos a discutir com o doente outras opções de intervenção?

É pois imperiosa esta reflexão pois não estamos a falar de cuidados menores, mas de cuidados de elevada importância, com necessária qualidade associada, para que os efeitos, tanto no doente como nos sobreviventes, possam atingir os resultados desejados.

Nota: texto redigido de acordo com as normas do mais recente acordo ortográfico.