Diálogo de uma vida

quinta, 02 março 2017 09:46 Bruno Costa, aluno de Enfermagem na Escola Superior de Saúde de Santa Maria

Bruno Costa 100 82943Palavras. São elas que se apoderam de nós em muitos momentos. São elas que nos ultrapassam, que nos espelham o interior. São palavras que salvam, que curam, melhor que a ciência. Mas o que será desses conjuntos de letras se não existir nenhum pensamento prévio?

Palavras pensadas são o oposto de vocábulos disparados ou despachados, tudo porque no primeiro caso existe comunicação eficaz, já no segundo essa comunicação estará presente também, mas não da mesma forma. Uma é capaz de rasgar um sorriso na nossa cara, a outra de inundar um olhar inocente de lágrimas. Será impossível relacionar tudo isto com a enfermagem?

Quantas vezes sentimos falta de uma palavra, de um gesto? Sim, porque a comunicação não é apenas verbal. Será o termo “saúde” independente da comunicação? Pelo que tenho visto, há falta de enfermeiros com um coração cheio de sentimentos, apenas um cérebro repleto de pensamentos. A formatação das palavras não será feita de forma humana, será mecanizada. É por isso que alguém acamado vê, muitas vezes, apenas um teto em vez de um sorriso, uma seringa em vez de uma abraço, um profissional em vez de um enfermeiro… Hoje em dia deveríamos combater o que até hoje foi criado, um mundo focado no profissionalismo, nos valores monetários, na ciência e nos conhecimentos apenas, isolados dos humanos que somos. Parece que temos uma mente tão pequena que apenas armazena factos, teorias, fórmulas. É essa a base do diálogo com o paciente? Paciente esse numa fase de sofrimento, de tristeza, de dor. A única coisa que espera é a chegada de alguém que não lhe dê simplesmente a medicação essencial para a cura da doença, mas que lhe dê um gesto fulcral na cura do seu espírito, à espera de que esse enfermeiro lhe traga serenidade, paz e felicidade. Será que é necessário um curso para isso? Parece que quem estuda hoje em dia preocupa-se apenas consigo, quer seja relativamente a razões monetárias, quer seja devido a horários. Não é com o Sr. António que nos preocupamos, é com o seu traumatismo cranioencefálico, porque se a sua recuperação for bem sucedida, quem será valorizado no fim será o profissional. O enfermeiro será recordado apenas pelo paciente, pois foi com esse que passou a maior parte do tempo no seu quarto. Foi o enfermeiro que lhe encheu o coração com tudo aquilo que ele precisava de sentir, que lhe preencheu o cérebro com todas as ideias e palavras essenciais. Foi o enfermeiro que o olhou no olhos em vez de olhar para os botões da sua bata, que lhe transmitiu a mensagem essencial em vez de se basear na simples explicação da doença. E no fim? No fim o profissional é visto como um enfermeiro.

Será assim tão complicado perceber a necessidade que o ser humano tem de alimentar os seus ouvidos e a sua mente? Não é a ciência que o faz por si só, por isso para quê tentar que assim seja? Porque não seguir um caminho mais difícil e mais longo mas com uma luz ao fundo em vez de caminhar por um atalho onde nem saberemos qual será a sua saída?

É assim que vemos a importância que tem comunicarmos com o doente, quer para o bem estar do próprio, quer pela nossa felicidade e concretização. A comunicação na enfermagem torna uma simples palavra num diálogo de uma vida.