Formação dos enfermeiros para a diabetes

terça, 03 janeiro 2017 11:51 Maria Henriqueta Figueiredo, Professora Doutora da Escola Superior de Enfermagem do Porto

Formação dos enfermeiros para a diabetesNo âmbito dos padrões de qualidade dos cuidados de enfermagem, publicados pela Ordem dos Enfermeiros em 2001, os cuidados de enfermagem centram-se na promoção dos projetos de saúde da pessoa cliente de cuidados.

A promoção da saúde, a prevenção de complicações para a saúde do cliente, o bem-estar e o autocuidado englobam alguns dos aspetos referentes ao mandato social dos enfermeiros.

Neste enquadramento é conjeturado que o enfermeiro deverá assumir o papel de pivot na equipa de saúde, assumindo-se como gestor de recursos para a maximização do potencial de saúde da pessoa e, consequentemente, da família e da sociedade.

No seu exercício profissional, o enfermeiro diferencia-se pela formação e experiência que possibilita o estabelecimento de uma relação terapêutica conducente à capacitação do cliente no que se reporta aos processos de tomada de decisão que lhes permite o autodomínio das suas vidas. A formação dos enfermeiros alicerça-se nos saberes e conhecimentos integrados na trajetória formativa, que agrega a formação contínua, ação e experiência. Deste modo os processos de formação deverão ser impulsionadores de experiências conducentes ao desenvolvimento de conhecimento, aptidões e atitudes para a prestação profissional competente, sustentada na evidência que emerge do conhecimento científico, num padrão de reciprocidade entre conhecimento, ação e postura crítica reflexiva.

Pretendendo o domínio praxeológico, resultante da tomada de decisão clínica, converter o conhecimento em ação e inovação, os cuidados de enfermagem incorporam a promoção de estratégias de coping, favorecedoras de autonomia do seu cliente, face às especificidades do seu desenvolvimento, que implicam transições acidentais, como é o caso da doença crónica.

A Diabetes Mellitus (DM), enquanto doença crónica, assume-se como uma das principais causas de morbilidade e de diminuição da qualidade de vida, com consequente impacto na saúde individual, saúde familiar e saúde pública.

A retinopatia diabética, a insuficiência renal crónica, o acidente vascular cerebral, enfarte agudo do miocárdio e amputações são alguns dos quadros clínicos descritos, subsequentes, em simultaneidade com outras doenças crónicas presentes na pessoa com DM, como é o caso da hipertensão arterial, doenças osteoarticulares, obesidade, depressão, entre outras.

Neste contexto, o impacto na saúde individual pode determinar alterações no equilíbrio dinâmico referente ao controlo do sofrimento, ao bem-estar físico e no conforto emocional, espiritual e cultural da pessoa. Assumido este impacto como fator de stresse associado a transição acidental, requer a identificação e mobilização de recursos capazes de potencializar a funcionalidade individual, no que se reporta à manutenção da autonomia e independência e/ou à capacidade da família e sociedade em darem respostas adequadas às necessidades dos seus membros.

Na resposta às necessidades da pessoa portadora de DM, além da avaliação, diagnóstico e eventual intervenção no âmbito das áreas descritas no Processo Assistencial Integrado da Diabetes Mellitus tipo 2, nomeadamente a gestão do regime terapêutico e a autovigilância, é imperativo a avaliação suplementar relativa ao impacto da doença nos processos de saúde da pessoa, no domínio emocional, espiritual e cultural, integrando a atribuição de significado à adversidade, esperança, redes de apoio, sistema de crenças, resiliência e outros fatores associados à capacidade de “encontrar um lugar para a doença e ao mesmo tempo coloca-la no seu próprio lugar”.

O ajuste e a adaptação de cada pessoa à circunstância derivada de uma doença crónica em geral, e da DM em particular, resultam tanto das suas particularidades pessoais, como das interações familiares estabelecidas, que por sua vez influenciam a evolução do problema e resolução da crise.

Inerentes ao impacto da DM no sistema familiares estão as exigências decorrentes da situação de doença crónica de um dos membros da família, no caso da DM, situadas nas dimensões estruturais, de desenvolvimento ou de funcionamento. A avaliação destas dimensões permitirá a identificação de recursos e necessidades, das quais surgirão intervenções de enfermagem colaborativas com o propósito de empoderar a família nas fases de ajuste e adaptação à doença.

Na perspetiva da saúde pública, com vista quer à diminuição dos custos financeiros decorrentes, entre outros, dos medicamentos e hospitalização, assim como dos custos sociais provenientes da dependência, as estratégias previstas no Programa Nacional para a Diabetes assentam na prevenção primária da diabetes, na prevenção secundária e na prevenção terciária. Visando a introdução de modelos de boas práticas na gestão da diabetes, os enfermeiros têm um papel decisivo na definição de políticas sociais no que diz respeito ao apoio à gestão, acessibilidade ao SNS e consolidação de redes sociais de apoio. Um papel relevante no desenvolvimento de estratégias de empoderamento, a nível intrapessoal, organizacional e comunitário.

A formação específica dos enfermeiros sobre DM e o impacto das suas especificidades permite, no exercício profissional, aumentar o reportório de recursos pessoais, familiares e comunitários, para lidar com este desafio de saúde, produzindo ganhos em saúde efetivos nos clientes dos seus cuidados.