Emancipação das marionetas

domingo, 04 dezembro 2016 18:44 Alexandre Tomás, Enfermeiro, docente na Universidade Atlântica

Emancipação das marionetasA Enfermagem em Portugal, na Europa e em vários países do mundo desenvolveu-se na justa medida da evolução do Sistema de Saúde do respetivo país.

Os desafios e exigências colocados por progressivas e cada vez mais complexas necessidades em saúde da população influenciaram os planos de estudo de escolas/universidades, bem como cursos de formação contínua dos profissionais, com inevitável reconfiguração de conteúdos funcionais. Foi assim na nossa história, provavelmente será assim no nosso futuro.

Da análise histórica sobre a relação dos Sistemas de Saúde com as profissões/ocupações da saúde, constatamos que os primeiros determinam a criação, existência, evolução, afirmação e até extinção das segundas. Naturalmente que qualquer pessoa ou profissional da saúde mais míope "olha" para a digladiação entre profissionais como titãs altamente corporativos, que mais não são do que pigmeus nas mãos do titereiro decisor.

A evidência económica, social, demográfica e também política permite-nos afirmar que o aumento da esperança média de vida e o incremento da qualidade de vida dos portugueses foi consequência não apenas da melhoria das condições gerais de vida, mas também como resultado das atividades altamente diferenciadas prestadas no Serviço Nacional de Saúde, público, universal e geral.

O novo milénio trouxe o bug do ano 2000, não tecnológico, porque esse foi alegadamente controlado pela então designada Task Force do Ministério da Saúde, mas sim organizacional. Assistimos à inexorável implantação de modelos de gestão e organização das unidades prestadoras de cuidados de saúde centrados essencialmente em resultados económicos (bons) e financeiros (por vezes muito redutores), baseados em famosos indicadores de desempenho. Se algumas profissões rapidamente souberam definir não só os seus indicadores mas aqueles que seriam utilizados para medir em euros o desempenho de cada serviços/instituição, outras emaranharam-se em tais complexidades conceptuais e de aplicação estratosférica que ainda hoje andam à procura de query’s e arquétipos em Marte…

Neste contexto, vamos assistindo reiterada e ciclicamente às reivindicações por parte das diferentes organizações socioprofissionais, as quais de forma intencional ocupam o espaço umas das outras, sem se darem conta, ou talvez dando, que dessa forma apenas condicionam a sua efetiva afirmação.

No nosso caso em concreto, assistimos à sistemática exigência de contratação de mais profissionais… já dissemos que seria necessário contratar 2000 enfermeiros, depois 2500. Mais recentemente foi apresentada uma proposta de contratação de 3000 enfermeiros por ano durante cada ano da próxima década e na greve da semana passada o caderno reivindicativo incluía a exigência de “aumento da contratação pelas Instituições Hospitalares ainda em 2016 e contratação de 4 000 enfermeiros em 2017”.

Ora nessa mesma semana foi anunciado, na apresentação do Orçamento do Estado para 2017, um incremento de mais 350 milhões de euros para o Ministério da Saúde, pelo que será interessante vir a saber, depois do respetivo processo negocial, para qual ou quais dos oito pontos do tal caderno reivindicativo será alocada essa verba.

Numa sociedade moderna seria expectável que os dirigentes das organizações socioprofissionais fossem de facto obreiros da definição e concretização de políticas de saúde, com inegáveis benefícios para cidadãos e profissionais, ao invés de se eternizarem nos cargos ou serem apenas estrelas cadentes com luminosidade para vídeos e fotografias de circunstância. Também por isso, é cada vez mais emergente renovar com equilíbrio.

Seria igualmente relevante, para uma resposta mais adequada às populações, que fosse reconhecido e valorizado, também em termos remuneratórios, o percurso profissional de cada enfermeiro. Como bem se sabe, fruto da experiência, formação contínua e desenvolvimento profissional, vamos progressivamente ficando peritos e/ou especialistas em diversas áreas, gerando obviamente melhores resultados em saúde para as pessoas, famílias, grupos e comunidade.

A manter-se a bizarra constatação de que enfermeiros que trabalhem desde 2000 ou 2015 sejam de cuidados gerais ou já especialistas têm o mesmo vencimento, iremos continuar a assistir ao anúncio de políticas que se tornam estéreis, como sejam: investir na plataforma contra a obesidade infantil, mas não há enfermeiros dedicados em exclusivo à saúde escolar; a rede de cuidados continuados vai integrar respostas em saúde mental, mas afinal não há enfermeiros especialistas; precisamos de capacitar os cuidadores, mas as equipas de intervenção domiciliária estão descapitalizadas de recursos humanos…

É também por isso que, apesar de vivermos sob forte influência da ‘geração pokémon’, dos post e dos likes que nos remetem para a alienação silenciosa, tem de haver esperança na mobilização convergente do coletivo por forma a permitir a emancipação das marionetas.