Apostar nas UCC é assegurar uma visão salutogénica no SNS

quarta, 15 junho 2016 15:14 Enfermeira Anabela Simões

Os cuidados de saúde primários (CSP) são uma componente dos sistemas de saúde importantíssima na melhoria do estado de saúde da população em todo mundo.

Neste contexto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem vindo a referir a elevada importância, no reforço que é necessário efetuar nomeadamente ao nível dos CSP, transitando-se de um sistema centrado no hospital e na doença em que todas as ações têm como objetivo e alvo o doente, para um sistema centrado nas pessoas e na saúde, onde os cidadãos são parceiros na promoção da saúde e nos cuidados de saúde. Esta nova visão vem implementar o aconselhamento e os serviços de elevada qualidade não só em hospitais e centros especializados mas também na comunidade e no domicílio.

Em Portugal, a última reforma dos CSP implicou a criação e reorganização de novas estruturas, como sejam os agrupamentos de centros de saúde (ACES) e unidades funcionais que os compõem. De entre as unidades funcionais que surgiram, constam as unidades de cuidados na comunidade (UCC) que representam uma novidade de carácter organizacional e são unidades fundamentais na identificação e resolução das necessidades em saúde das populações, através de abordagens de intervenção apropriadas, implicando por isso a necessidade de planear, abraçando uma perspetiva pró-ativa, de proximidade e de acessibilidade, e não unicamente de resposta à procura de cuidados de saúde.

As UCC dão resposta não só a diversos programas nacionais de saúde, nomeadamente à Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) através das criação das Equipas de Cuidados Continuados Integrados (ECCI) e Equipas Coordenadoras Locais (ECL), na constituição de Equipas Comunitárias de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP), participam no Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância (SNIPI) através da criação de Equipas de Intervenção Direta (EID) e Equipas Locais de Intervenção (ELI), participam no Programa Nacional de Saúde Escolar e Programa Nacional de Saúde Oral, através das suas Equipas de Saúde Escolar, respondendo também às necessidades de saúde regionais e locais através do planeamento e implementação de projetos no âmbito da promoção da saúde, prevenção da doença e de reabilitação, aos cidadãos/grupos mais vulneráveis ou em situações de maior risco ou dependência física e funcional. A sua intervenção ocorre nos mais diversos contextos, como sejam o domicílio, escolas, locais de trabalho e/ou de lazer, sempre numa dinâmica de articulação, de desenvolvimento intersectorial, com uma perspetiva de continuidade de cuidados, complementaridade de funções e em rede.

As UCC promovem a acessibilidade aos cuidados de saúde, a rentabilização dos recursos existentes na comunidade, o enfoque na educação para a saúde através da implementação de projetos inovadores no âmbito da literacia em saúde que permitem o aumento dos níveis educacionais, das competências e capacidades para a promoção, proteção, manutenção e reabilitação da saúde individual e coletiva. São disso exemplo os projetos de capacitação dirigidos aos cuidadores informais/formais e familiares com dependentes a cargo para melhor cuidarem, projetos de preparação para a parentalidade, dirigidos às grávidas/casais, os múltiplos projetos e atividades desenvolvidos nas escolas com especial enfoque na promoção dos estilos de vida saudável, entre tantos outros.

O desempenho e a resiliência destas unidades funcionais, coordenadas por um Enfermeiro Especialista que planeia e programa as atividades da unidade e das várias equipas multiprofissionais que a compõem, que assegura o funcionamento eficiente da unidade e os objetivos programados e que em conjunto com as várias equipas multidisciplinares implementam e consolidam boas práticas, têm sido enormes. Muito foi já alcançado pelo desempenho diário das UCC que acrescentam valor à saúde do cidadão e cuja sua tradução se faz em ganhos em saúde para o indivíduo, populações e comunidades, que contribuem inequivocamente para melhores índices de saúde.

Contudo, muito há ainda para fazer neste processo, e importa referir que as UCC se confrontam diariamente com inúmeras dificuldades, tanto ao nível da prestação de cuidados, que atendendo à especificidade dos mesmos e população abrangida, constitui um enorme desafio para todos os profissionais que nelas desempenham funções, como ao nível da gestão, dado ser ainda difícil a estas unidades aferir os seus resultados em comparação com outras unidades funcionais, tronando-se portanto imprescindível colmatar estas dificuldades.

Neste contexto, surge o nosso compromisso enquanto profissionais de saúde, e essencialmente enquanto Enfermeiros com responsabilidade direta sobre estas unidades funcionais para que sob a liderança de um corpo profissional coeso e com uma visão estruturante levemos a cabo não só ações que promovam, difundam e deem a conhecer o trabalho desenvolvido nas UCC, nomeadamente através da divulgação das boas práticas, de modo a que possam ser replicadas nas várias UCC do país, aumentando a equidade no acesso a cuidados cada vez com maior qualidade e diminuindo assimetrias na sua prestação, mas também e muito importante se atue ao nível das políticas de saúde na adoção e aposta mais robusta da visão salutogénica para que a restruturação seja realmente efetiva… “Mais Saúde” para todos ao longo do ciclo vital!