Entrevistas

Enfermeiros perioperatórios: AESOP quer aumentar literacia em segurança cirúrgica

15 Fev. 2021

A AESOP – Associação dos Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses considera o Dia Europeu do Enfermeiro Perioperatório importante para a promoção e visibilidade do trabalho desenvolvido pelos enfermeiros perioperatórios, mas também para a contribuição da literacia e empoderamento do cidadão na área da segurança cirúrgica. Em entrevista, a presidente, enfermeira Graça Miguel, aborda também a importância destes enfermeiros em todo o processo das intervenções cirúrgicas.

Jornal Enfermeiro | Qual a importância de celebrar o Dia Europeu do Enfermeiro Perioperatório?

Graça Miguel | O Dia Europeu do Enfermeiro Perioperatório – EPND - celebra-se em toda a Europa no dia 15 de fevereiro desde 2005, sob chancela da EORNA (European Operating Room Nurses Association) da qual a AESOP é membro fundador ativo.

O seu primeiro objetivo é promover a visibilidade do trabalho desenvolvido pelos enfermeiros perioperatórios, mas também contribuir para a literacia e empoderamento do cidadão na área da segurança cirúrgica através de iniciativas levadas a cabo neste dia.

JE | “Uma ideia, uma mudança” foi o lema das celebrações em Portugal. Porquê?

GM | O lema das celebrações do EPND é proposto pela EORNA. Este ano, o lema foi Perioperative Nurses “Together we will Succeed”. O que fizemos foi repescar o lema do nosso XIX Congresso realizado em 2020 “Uma ideia, uma mudança!” criando uma sinergia com o lema europeu.

A pandemia por Covid-19 tem vindo a exercer uma enorme pressão nos diferentes contextos de saúde, em que se incluem os blocos operatórios, obrigando à adoção de estratégias excecionais a nível organizacional, à modificação ou adaptação de procedimentos e práticas habituais para dar resposta às necessidades de cuidados da população, procurando diminuir a disseminação do agente infecioso, promover a proteção dos profissionais de saúde e controlar a contaminação de outros doentes, mantendo sempre os princípios de prevenção e controlo da ILC (Infeção do Local Cirúrgico).

Com esta proposta, pretendemos que cada equipa de enfermagem perioperatória partilhe projetos centrados nas competências e responsabilidades dos enfermeiros perioperatórios, que tenham sido implementados para manter ou melhorar a qualidade dos cuidados prestados, à pessoa em situação perioperatória neste contexto de pandemia.

Ou seja, uma ideia que ocasionou uma mudança e que, ao ser partilhada em rede, com todos os enfermeiros perioperatórios a nível nacional e internacional, permitirá cuidados mais seguros para profissionais e doentes.

A mensagem que se pretende passar é que juntos conseguimos fazer mais e melhor. Na busca da melhor evidência, investigando, refletindo sobre as práticas clínicas diárias, construindo orientações e partilhando, disseminando a boa prática e procurando também ir ao encontro do cidadão comum, contribuindo para o aumento da literacia em saúde e segurança cirúrgica.

JE | Qual a importância destes enfermeiros em todo o processo das intervenções cirúrgicas?

GM | O papel dos enfermeiros perioperatórios é semelhante ao de qualquer enfermeiro, num ambiente/contexto desafiante e agressivo para as pessoas. O seu papel profissional decorre de um conjunto de competências específicas e especializadas adequadas às necessidades particulares da pessoa que necessita de procedimentos anestésicos e cirúrgicos e desenvolve-se fomentando o potencial humano em situação perioperatória, isto é, garantindo condições de segurança que aumentem a probabilidade do melhor resultado da terapêutica cirúrgica.

O seu papel está centrado nas necessidades dos utentes, capacitando-os para melhor gerir o processo de transição saúde/doença/recuperação da saúde e substituindo-os naquilo que eles fariam caso estivessem capazes. Potenciam ainda a implementação de práticas de segurança, com vista a reduzir erros e infeções associados aos cuidados de saúde.

Caracterizam-se ainda por uma atitude antecipatória dos riscos inerentes à situação cirúrgica e anestésica, sendo os enfermeiros perioperatórios responsáveis pela identificação das necessidades, planeamento, executando e avaliando os resultados obtidos, nas áreas do perioperatório, complementares entre si: anestesia, circulação, instrumentação, cuidados pós-anestésicos e consultas perioperatórias.

JE | Há conhecimento suficiente sobre o papel destes enfermeiros?

GM | Iniciativas como a celebração do Dia Europeu do Enfermeiro Perioperatório têm contribuído para a divulgação do papel dos enfermeiros perioperatórios. 

Em contexto de bloco operatório, o tempo de contacto dos doentes com os enfermeiros perioperatórios pode ser breve e associado a processos com necessidade de indução de estados de consciência muito diminuídos, pelo que estas iniciativas de aproximação do publico alvo aos profissionais são muito ricas para ambos.

JE | Desde a fundação da AESOP até aos dias de hoje, sente que o papel dos enfermeiros perioperatórios tem evoluído?

GM | A AESOP, nos seus 35 anos de existência (celebrados no passado dia 10 de fevereiro), tem contribuído para a evolução e desenvolvimento da enfermagem perioperatória, promovendo práticas baseadas na evidência, afirmando-se como o seu foco a pessoa alvo de procedimento invasivos; na outra vertente, tem promovido a reflexão profissional, condutora da regulação da certificação de competências especializadas de enfermagem perioperatória, junto da administração pública ou mais recentemente no âmbito do órgão regulador da profissão de enfermagem (Ordem dos Enfermeiros).

Este facto culminou com o reconhecimento por parte da Ordem dos Enfermeiros da especialização de cuidados de enfermagem à pessoa em situação perioperatória, no ano de 2015, tendo a especialidade sido regulada em 2018.

JE | Quantos são os enfermeiros perioperatórios em Portugal? São suficientes para as necessidades?

GM | Os dados oficiais do Ministério da Saúde (Relatório: Avaliação da Situação Nacional dos Blocos Operatórios 2015) falam-nos em cerca de 3000 enfermeiros perioperatórios. Considerando que só se referem aos enfermeiros a exercer em hospitais públicos e que a hospitalização privada tem uma capacidade instalada para a terapêutica cirúrgica muito forte, não será difícil chegarmos aos 5000 enfermeiros perioperatórios, em Portugal.  Provavelmente não será a área onde o deficit será maior em termos quantitativos, mas em termos qualitativos o número de enfermeiros especialistas, de momento, ainda é residual.

JE | A pandemia de Covid-19 impactou a vossa atividade? Em que medida?

GM | A nível organizacional, várias medidas impactaram na atividade cirúrgica, dado que em vários momentos a atividade foi suspensa, no que concerne a atividade não urgente e por consequência na atividade dos enfermeiros perioperatórios.

Por outro lado, e porque as necessidades de capacidade instalada para dar resposta a doentes críticos sofreu enorme crescimento, houve áreas de cuidados perioperatórios que foram transformadas em áreas para doentes críticos – fecharam-se bloco operatórios e no seu lugar abriram-se unidades de cuidados intensivos. Finalmente e no meio de cada vaga da doença Covid19, como forma de dar resposta aos atrasos condicionados nas listas de espera cirúrgica, foram efetuadas tentativas de as recuperar, colocando as áreas de produção cirúrgica, diremos, em funcionamento continuo. Todos estes factos têm condicionado um elevado risco psicossocial aos profissionais de saúde, em especial aos enfermeiros perioperatórios, por se desdobarem em esforços e ações para dar resposta global aos utentes do SNS, e que devem ser monitorizados de forma muito abrangente, com vista a evitar situações de “burnout” profissional, potencialmente perturbadoras do funcionamento do SNS em situação limite de recursos.

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