Entrevistas

“Os enfermeiros oncologistas mantiveram-se presentes no contacto com os doentes”

02 Fev. 2021

A AEOP – Associação de Enfermagem Oncológica Portuguesa sublinha que não houve um planeamento capaz de apetrechar as unidades de saúde com os meios adequados para enfrentar a covid-19. Em entrevista, a presidente, enfermeira Elisabete Valério, defende que a responsabilidade e a transparência das instituições que cuidam dos doentes oncológicos têm de ser avaliadas com periodicidade. E debruça-se, ainda, sobre dois cancros específicos, o do colo do útero e o da mama.

Jornal Enfermeiro | A pandemia está a ter consequências em todas as latitudes das doenças não covid. O que destacaria, no quadro atual, como preocupações maiores para os enfermeiros oncologistas?

Elisabete Valério | A pandemia do novo coronavírus, responsável pela doença Covid-19, é uma preocupação de saúde pública à escala mundial considerando o elevado número de pessoas infetadas e o número de mortes. Em Portugal, atravessamos uma fase extrema, com o aumento de pessoas internadas nos hospitais do nosso Serviço Nacional de Saúde, que tem vindo a pôr em evidência as fragilidades e constrangimentos de resposta, sobretudo nos diagnósticos e tratamentos de outras patologias. Não houve um planeamento nacional, no sentido de apetrechar as várias unidades de saúde de equipamentos e profissionais treinados para fazer frente ao enorme perigo público que estamos a vivenciar. Não basta abrir camas para doentes covid e ampliar unidades de cuidados intensivos, sem uma estruturação orientada nos profissionais de saúde, com ratios suficientes. A doença oncológica, no quadro atual, com os diagnósticos tardios, por dificuldades acrescidas pela covid-19 e difícil acesso aos exames complementares de diagnóstico, indicia tempos complicados para as pessoas com cancro. Passaremos a cuidar de pessoas com doença oncológica em estádios mais avançados; neste contexto, os tratamentos são mais complexos, requerem mais recursos humanos e financeiros. Também as listas de espera para início dos tratamentos oncológicos vão aumentar com grande impacto, a médio e longo prazo, no aumento da taxa de mortalidade que, segundo especialistas, poderá acontecer entre 3-4 anos. Habitualmente, por ano, morrem em Portugal cerca de mais de 20 mil pessoas por cancro e tendencialmente a incidência e a prevalência desta doença continuarão a aumentar, sendo o envelhecimento da população uma das principais explicações. A Organização Mundial de Saúde estima que, em 2025, o número de mortes em Portugal chegue quase às 31 mil. É do domínio público que, no ano de 2020, cerca de 1.000 casos de cancro não foram diagnosticados, o que terá repercussões na cura desta doença, com agravamento significativo para a pessoa e interferência na sua qualidade de vida. É importante investir na reorganização dos serviços de saúde em oncologia, na prevenção, no diagnóstico precoce, nos rastreios que estiveram suspensos durante um tempo em 2020, mas também nos tratamentos e cuidados de acompanhamento dos doentes. Nestes meses de pandemia, os enfermeiros oncologistas foram observando alguma indefinição relativamente às pessoas em situação de doença oncológica, quer nos tratamentos, nas avaliações, no seguimento e apoio psicossocial nas diferentes instituições de saúde. Algumas consultas médicas efetuaram-se por chamada telefónica ou videochamada, impossibilitando a realização de exame físico. E os enfermeiros oncologistas, não podendo recorrer ao teletrabalho pelas características inerentes à sua profissão, mantiveram-se presentes e disponíveis no contacto diário com o doente oncológico e família, assegurando tratamentos diários.

JE | Que medidas, que soluções propõe a AEOP, no sentido de resolver – ou, pelo menos, minimizar – o problema do diagnóstico e do tratamento tardios da doença oncológica?

EV | A saúde é um direito. Por isso, a AEOP defende que todas as orientações políticas devem saber criar as múltiplas condições que evitem as ameaças ao estado de saúde das populações. Esta proteção, cujos custos económicos são legitimamente um encargo social, pode gerar dificuldades financeiras.  No entanto, os programas de proteção de saúde na prevenção, diagnóstico precoce e rastreio, têm de ser uma prioridade em Portugal. Só assim será possível minimizar os problemas no diagnóstico e tratamentos tardios. O cancro pertence ao grupo de doenças não transmissíveis que partilham fatores de risco comuns e cuja prevenção e controlo beneficiariam a maioria dos cidadãos. Os enfermeiros têm um papel fundamental como educadores na orientação, formação e informação – mas também na prevenção e aconselhamento – sobre hábitos de vida saudáveis, para as pessoas em todo o seu ciclo vital. De acordo com os relatórios sobre o estado de saúde da população europeia, o cancro é reconhecido como um dos principais fatores de mortes prematuras. Dito isto, o cancro tem impacto não só na saúde individual, como nos sistemas de saúde e sociais, nos orçamentos públicos e na produtividade. A AEOP considera que os exames de diagnóstico são de elevada importância na deteção desta patologia, assim como os planos de rastreio, com alargamento nos horários de atendimento, para colmatar os atrasos originados pela covid-19. Deveriam ser criados os “cheques rastreio” (mama, colo do útero, cólon…) aos quais os cidadãos teriam acesso nas suas unidades de cuidados de saúde primários, através do seu médico/enfermeiro de família. Os programas de rastreio têm demonstrado um benefício significativo na redução, em cerca de 20%, da mortalidade por cancro em Portugal.  Para as pessoas com diagnóstico de cancro suspeito e por sugestão da SPO [Sociedade Portuguesa de Oncologia], o que de todo concordamos, deveria ser criada nas instituições que tratam pessoas com doença oncológica uma “via verde do cancro”. A concretizar-se, esta solução permitirá reduzir listas de espera na ida ao médico, no diagnóstico e no início de tratamentos.

 

JE | Já fora do cenário pandémico, falemos do HPV/cancro do colo do útero. Qual o papel dos enfermeiros oncologistas na gestão e no acompanhamento destes doentes – e até, mesmo, em matéria de prevenção e rastreio?

EV | Uma das prioridades traçadas pela União Europeia, em 2021, é o combate ao cancro. Os dados disponíveis sugerem que há uma necessidade urgente de sistemas de saúde mais eficazes, acessíveis e resilientes. É necessário todo o apoio aos estados membros, com a finalidade de garantir que todos os cidadãos tenham acesso a uma prevenção e a cuidados de saúde eficazes. No plano financeiro, estão destinados 5,1 milhões de euros aos países da UE para o fortalecimento dos seus sistemas de saúde. Neste contexto, uma parte significativa dessa quantia será para o desenvolvimento e melhoria das estruturas no combate à doença oncológica. São necessárias medidas rápidas e eficazes, avanços relevantes nos planos céleres de cuidados de saúde primários, no agendamento de rastreios às populações e referenciação, passe a redundância, às unidades de referência. A falta de medidas nos centros de saúde e todas as paragens dos rastreios terão consequências graves nas curvas de sobrevivência de cancro nos próximos anos.  O rastreio do cancro do colo do útero inclui a pesquisa do vírus do papiloma humano (HPV) e atualmente em Portugal recomenda-se o rastreio ativo em mulheres dos 25-60 anos de idade. Estamos perante um cancro que é frequente após os 30 anos de idade, sendo que, em 2018, este tipo de neoplasia representou cerca de 6,6% de todos os cancros na mulher. O HPV é uma doença sexualmente transmissível, razão pela qual é muito importante a utilização de medidas de proteção durante o sexo e a redução do número de parceiros. A introdução da vacinação contra este vírus veio acrescentar uma nova medida de controlo do cancro do colo do útero, mas não elimina a utilidade do rastreio, mesmo em mulheres vacinadas que continuam em risco. Pelo contrário, aumenta a necessidade de melhoria na adesão das mulheres ao rastreio. A infeção por HPV é potenciadora do aparecimento de outros tumores, nomeadamente, vulva, ânus, pénis e cabeça e pescoço. Nos últimos 20 anos, tem-se verificado um crescente aumento na incidência do cancro da cavidade oral em homens com idade inferior a 50 anos, sem fatores de risco associados. Este aumento acontece devido à mudança de hábitos sexuais, com a prática do sexo oral, assim como o número de parceiros sexuais. São necessárias estratégias para prevenir a infeção – a vacinação é importante antes do início da atividade sexual e não deve ficar limitada ao sexo feminino. O acesso deve ser universal e gratuito em ambos os sexos, sendo certo que a vacina do HPV permitiria prevenir a infeção em homens e mulheres, impedindo, assim, o desenvolvimento de tumores. Os enfermeiros oncologistas intervêm sempre no processo de diagnóstico da doença oncológica, num contexto em que a pessoa, a família e cuidadores vivenciam connosco processos complexos de saúde-doença. Intervimos no controlo de sintomas perante o tratamento da doença oncológica face à complexidade e à necessidade, potenciando a qualidade de vida do doente.

 

JE | Por toda a sua relevância, vejamos outro exemplo – o do cancro da mama. Na leitura da AEOP, o que deve ser destacado, também aqui, sobre as competências e a atuação dos enfermeiros desta especialidade?

EV | O cancro de mama é, na Europa, o tipo de cancro com maior incidência no sexo feminino. E, em Portugal, constitui uma das principais causas de morte oncológicas, com cerca de 1.500 óbitos por ano. Donde, um rastreio sistemático com a realização, a cada dois anos, de mamografia em mulheres com idades entre os 45-65 permite diagnosticar esta doença em estádios iniciais, reduzindo as necessidades de tratamentos invasivos – e com aumento significativo da qualidade de vida das mulheres. O diagnóstico precoce do cancro da mama deveria incluir faixas etárias não contempladas no atual rastreio populacional. Importa frisar que, pelo menos 20% dos cancros de mama, aparece entre os 40-50 anos; segundo as estatísticas, este registo representa cerca de 1.500 novos casos por ano. Após os 65 anos de idade, o rastreio também deve ser alargado, porque a esperança média de vida aumentou. Por outras palavras, o rastreio terá de acompanhar essa evolução até aos 75 anos. O cancro de mama é uma doença multifatorial. Surge com mais frequência em mulheres a partir dos 50 anos de idade, sendo que, em idades mais jovens, é de cerca de 10%. Resulta daí que, com uma incidência crescente e elevada frequência de cancro da mama na população feminina – aproximadamente um caso em cada sete mulheres            –, percebemos que o número é considerável em mulheres mais jovens. Estas mulheres vão ter de se adaptar à nova realidade, por vezes numa fase de construção de vida com grandes exigências, quer a nível profissional como familiar. Nas unidades de saúde que tratam estas doentes, têm de existir equipas preparadas para a orientação e acompanhamento de mulheres jovens, nas várias fases de tratamento, mas também nos seus planos futuros, com destaque para a maternidade. O planeamento familiar é algo de extrema importância que deve ser discutido inicialmente aquando do diagnóstico, pelo impacto que a quimioterapia poderá ter na fertilidade. Se por acaso existem filhos pequenos, o apoio psicossocial é da maior relevância. Assim, o diagnóstico e o tratamento do cancro de mama devem ser realizados em centros de referência, reconhecidos como de elevada competência e qualidade na prestação de cuidados de saúde em situação clínica que exijam uma concentração de recursos – humanos e tecnológicos – altamente diferenciados. O objetivo é definir o diagnóstico e o tratamento num curto espaço de tempo, aliado ao conhecimento científico e à experiência; não tem grande significado a quantidade, mas a qualidade e excelência nos tratamentos. Por decisão da DGS, todas as decisões neste domínio [tratamento do cancro da mama] devem ser realizadas em contexto de grupo multidisciplinar com a presença da doente e com toda a informação completa sobre o cancro, que inclui a extensão da doença e a caracterização biológica do tumor. Os enfermeiros oncologistas são de extrema importância nestas unidades, como elo de ligação entre os vários profissionais, sempre despertos e atentos ao impacto individual que o cancro pode ter na vida das mulheres em várias fases do seu ciclo vital. Nas equipas interdisciplinares, são líderes da comunicação, sensibilização e aplicação do conhecimento científico.

 

JE | Que mensagem, que ideia, que pensamento gostaria a AEOP de associar ao Dia Mundial do Cancro assinalado em 2021?

EV | A AEOP pretende continuar a desenvolver e a colaborar na investigação em áreas prioritárias da oncologia que resultem em contributos relevantes para o avanço do conhecimento e para alcançar cuidados de saúde de elevado valor. “A saúde é um estar ativo e feliz no mundo, onde o indivíduo se vai sentindo realizado com as tarefas da vida” – são palavras de Daniel Serrão. No âmbito do SNS, é importante desenvolver-se um modelo organizacional para a doença oncológica, que, garantindo a igualdade de acesso ao diagnóstico e ao tratamento, promova a eficiência na utilização dos recursos. Nesta linha de pensamento, a responsabilidade e a transparência das instituições de saúde que cuidam dos doentes oncológicos têm de ser avaliadas com periodicidade.  

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