Reabilitação cardíaca: cobertura é "insuficiente" mas de "elevada qualidade"

segunda, 15 janeiro 2018 11:49 Bruno Delgado, enfermeiro especialista em Enfermagem de Reabilitação

 Reabilitação cardíaca: cobertura é "insuficiente" mas de "elevada qualidade""O atendimento é excelente, a cobertura nacional é que é insuficiente". Esta é a opinião de Bruno Delgado, especialista em Enfermagem de Reabilitação, sobre a reabilitação cardíaca em Portugal. Por considerar que há falta de investigação na área, como trabalho de doutoramento (que está a fazer no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto) o enfermeiro decidiu desenvolver um estudo sobre exercício físico para o doente com insuficiência cardíaca (IC) durante a fase de internamento. O estudo "Enfermagem de Reabilitação no Doente com Insuficiência Cardíaca  - programa ERIC, impacto de um programa de exercício físico" arrancou no Hospital de Santo António, na cidade invicta, mas a ideia é alarga-lo a todo o país.

Jornal Enfermeiro | Em que consiste o estudo que está a desenvolver e quais os objetivos?

Bruno Delgado | O estudo em questão consiste num ensaio clínico randomizado multicêntrico, em que se pretende validar a segurança e eficácia do exercício físico em doentes admitidos por insuficiência cardíaca descompensada, através da aplicação de um programa de treino designado programa ERIC. O estudo divide-se em dois ramos, essencialmente: o estudo piloto, que decorre no hospital de Sto. António, onde exerço funções como enfermeiro de reabilitação, e o estudo multicêntrico nacional. Em todos os centros de colheita a metodologia é a mesma e os procedimentos são iguais. Existe um grupo teste a quem é aplicado o programa ERIC e o grupo controlo a quem é implementado o tratamento standard de reabilitação.

Dado que não existe, neste momento, a nível nacional ou internacional, evidência acerca da eficácia e segurança do treino de exercício físico no doente admitido por insuficiência cardíaca descompensada, pretende-se dar resposta a esta lacuna, procurando também perceber se de facto a abordagem pelo exercício físico é mais eficaz que o tratamento standard de reabilitação.

JE | Há quanto tempo decorre o estudo piloto no Hospital de Santo António e até quando se vai estender? Já é possível tirar algumas conclusões?

BD | O estudo piloto teve início em janeiro de 2017 e vais estender-se, provavelmente, até março de 2018, altura em que se prevê atingir o número de doentes desejado. Com base nos resultados obtidos até agora podemos dizer que o programa ERIC é seguro, pois não existiram até agora eventos adversos, o que nos leva a inferir sobre a segurança do exercício físico nesta fase, desde que cumpridos os critérios de segurança. Podemos também verificar que, de facto, os doentes que são alvo da intervenção exercício físico, apresentam um melhor desempenho nas atividades de vida diária e tem uma melhoria mais significativa da sua capacidade funcional.

JE | Porquê estender o estudo a nível nacional? A que entidades pretende chegar?

BD | A ideia de estender o estudo a nível nacional surge para responder a duas necessidades. A primeira será perceber se a intervenção que pretendemos testar - ou seja, o programa ERIC - tem resultados semelhantes sendo aplicado por diferentes enfermeiros de reabilitação, dos diferentes serviços de cardiologia, permitindo assim criar uma intervenção padrão para os doentes com insuficiência cardíaca descompensada. A outra necessidade prende-se com a obtenção de um maior número de doentes num curto espaço de tempo e de diversas realidades, a fim de obtermos uma representatividade nacional.

JE | Já teve resposta de alguma instituição?

BD | Foram contactadas oito instituições, das quais uma já iniciou colheita de dados, três aguardam resposta da comissão de ética e quatro não deram ainda resposta.

JE | O projeto conta com o apoio do Núcleo de Enfermeiros de Cardiologia da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Em que consiste esse apoio?

BD | Sim. O NEC colaborou de forma bastante importante com a identificação dos hospitais que poderiam ser centros de colheita de dados para o estudo, dado que nem em todos os serviços de cardiologia possuem enfermeiro de reabilitação na sua equipa.

JE | O estudo é co-orientado por um investigador italiano? Como surgiu essa ligação?

BD | Durante a fase de pesquisa da evidência existente acerca do tema, identifiquei o Dr. Alessandro Mezzani, co-autor de vários documentos científicos da sociedade europeia de cardiologia, acerca do tema do exercício físico e doente com insuficiência cardíaca. Entrei em contacto com o mesmo e acabei por realizar um estágio em Itália, em Veruno, no centro onde trabalha, a fim de aumentar os meus conhecimentos e solicitar avaliação do protocolo de treino por parte de um perito nesta área, com imenso trabalho produzido. Desta forma surgiu a co-orientação do trabalho que se mantém ate agora, com contactos frequentes de forma a dar conhecimento do trabalho que vai sendo produzido.

JE | Qual a importância do exercício físico para o doente com insuficiência cardíaca?

BD | Para responder a esta questão devemos previamente clarificar que quando falamos em doente com insuficiência cardíaca devemos considerar dois tipos de doentes: os doentes com insuficiência cardíaca crónica estabilizada, ou seja, não internados, e os doentes com insuficiência cardíaca crónica agudizada ou descompensada ou doentes com insuficiência cardíaca inaugural, ou seja, doentes internados para estabilização clínica.

O exercício físico está bem estudado e validado para o doente com insuficiência cardíaca crónica, ou seja após a estabilização clínica. Sabemos hoje em dia qual o volume de exercício, a modalidade de treino e as tipologias mais vantajosas para o doente, não só para manutenção da sua capacidade funcional mas também para garantir a saúde cardiovascular. Existem inúmeros estudos que demonstram a importância e necessidade de prática de exercício físico para manutenção de um bom estado de saúde nestes doentes. Portanto o exercício físico no doente com insuficiência cardíaca é um elemento fundamental no seu tratamento e manutenção. O que infelizmente ainda não sabemos é qual a importância do exercício físico no doente com insuficiência cardíaca em fase de compensação.

JE | Diz que a reabilitação cardíaca fase I no doente com IC está "pouco desenvolvida". Porquê?

BD | A reabilitação cardíaca fase I é aquela que decorre durante a fase de internamento. Afirmo que se encontra pouco desenvolvida pois existem pouquíssimas publicações sobre intervenções de reabilitação relativamente a doentes em fase de estabilização clínica, nomeadamente estudos sobre intervenções diferenciadas ou sobre caracterização funcional do doente. Mesmo no que respeita a guidelines sobre tratamento e reabilitação do doente com insuficiência cardíaca, existem muito poucas orientações e a sua maioria são apenas consensos, diretrizes baseadas em evidência não direta, baseadas naquilo que os peritos consideram ser adequado, sem no entanto terem sido devidamente estudadas ou testadas.

JE | O que falta fazer nesse âmbito?

BD | Considero emergente realizar estudos de investigação quer sobre a caracterização funcional do doente quando é admitido com insuficiência cardíaca descompensada, quer sobre as intervenções que lhe são dirigidas, de forma a ser possível determinar qual o core de intervenções mais eficazes neste tipo de doentes, podendo assim definir diretrizes baseadas em evidencia prática clínica.

JE | Na sua opinião, os doentes têm o atendimento devido, nesta área?

BD | Tendo em consideração as condições existentes no nosso país e tendo em conta que a taxa de reabilitação cardíaca é das mais baixas na Europa, com cerca de 12%, quando a média são 45%, considero que os doentes que beneficiam de reabilitação cardíaca têm um excelente atendimento, pois apesar da cobertura nacional não ser a suficiente para os doentes que dela necessitam, aquela que existe é de elevada qualidade. São poucos os centros que têm programas de reabilitação cardíaca, mas os que existem e que eu conheço têm excelentes equipamentos e profissionais bastante dedicados e onde são cumpridas as orientações europeias de forma criteriosa. De um forma geral, o atendimento é excelente, a cobertura nacional é que é insuficiente.

JE | De que forma poderá o seu estudo contribuir para o desenvolvimento da reabilitação cardíaca?

BD | Tendo em consideração que não existe evidência nacional ou europeia acerca da importância, eficácia e segurança do exercício físico no doente admitido com insuficiência cardíaca descompensada, considero que os resultados do meu estudo possam vir a ajudar a colmatar esta lacuna. Espero que seja o início de um fase de produção científica acerca desta área em geral e da enfermagem de reabilitação cardíaca em específico, que é um área que também esta ainda pouco estudada e publicitada.

Quando decidi iniciar este estudo envolvendo vários centros de tratamento ao doente cardíaco, o meu foco era de facto envolver o máximo de profissionais possível, que trabalham diariamente com reabilitação cardíaca, de forma a motivá-los a investigar, a ajudar a evidenciar o trabalho que todos fazemos nesta área e obviamente responder a um necessidade prática do nosso dia a dia, que é saber ao certo o que é correto ou incorreto, seguro ou inseguro, eficaz ou ineficaz na reabilitação cardíaca dirigida ao doente com insuficiência cardíaca.

angeladosvais@newsengage.pt