Estudantes de Enfermagem acreditam no potencial do SNS

sexta, 12 janeiro 2018 18:09 Maria Ana Sales Spratley, 21 anos, natural de Lisboa, frequenta o 4º ano de Enfermagem na Escola Superior de Enfermagem São Francisco das Misericórdias

Estudantes de Enfermagem acreditam no potencial do SNSNo 4.º ano de curso de Enfermagem, mesmo na reta final, Maria Ana Sales Spratley mostra-se "otimista", tanto com a entrada no mercado de trabalho, como com a capacidade do Sistema Nacional de Saúde proporcionar bons cuidados. "Considero o SNS português um sistema acessível para os seus utentes, um sistema que se empenha em prevenir e proteger a sua população", diz a estudante, que acredita no "potencial" do organismo.

Enfermagem porque...

Desde pequena que o corpo humano era para mim um fascínio. Sempre conseguiu despertar a minha atenção e curiosidade para o seu funcionamento e interação com o meio. Já crescida, a perspetiva relacional é algo que gosto de analisar; compreender o fenómeno. Embora complexo. Este gosto aliou-se a um sentimento intrínseco de preocupação com os outros e ao sentir que tinha que ajudar, qualquer que fosse o problema, independentemente da idade que a pessoa teria. Ajudar a minimizar o sofrimento humano, aliviar, saber consolar, falar com o outro, foram focos de uma inteligência emocional (sensibilidade) desenvolvida pela educação social que recebi e, mais tarde, dirigida pelo curso.

A escolha da universidade

A escolha foi ponderada entre inúmeras escolas de Enfermagem em Lisboa. Fui à Futurália inquerir alunos e reunir documentação. O critério a que atribui mais peso foi à oportunidade de realizar estágio logo no primeiro ano do curso. Na altura, a única escola que o possibilitava em Lisboa era a Escola Superior de Enfermagem São Francisco das Misericórdias.

O curso

No primeiro dia de aulas, vários professores (enfermeiros com uma vasta experiência) alertaram 45 alunos de várias idades que não seria fácil, que iríamos sofrer, que iríamos querer desistir, que não iríamos chegar todos ao fim do curso... Em panorama algo negro, mas que rapidamente se dissipou, dada a ingenuidade dos ouvintes. Com o passar dos anos, todos os comentários se provaram detentores de uma honestidade crua. A nossa sorte é que, da mesma forma que os professores da escola foram honestos connosco desde do primeiro dia, para aqueles que realmente quiseram apreender e que efetivamente estavam dispostos a isso, deu-nos ferramentas para trabalhar todas e as mais complexas emoções. Estruturou jovens não só numa profissão complexa e exigente, como amadureceu pessoalmente a mim e aos meus colegas.

Num ambiente de elevada exigência, o programa curricular trouxe-nos não só competências teóricas e relacionais, que se traduzem em técnico-científicas e comunicacionais, na prática, como tentou alargar a nossa cultura em questões antropológicas, éticas e bioéticas, legais, de estatística e inúmeras outras, que nos permitiram e permitem relacionar e compreender o ser holístico.

O programa da ESESFM está estruturado para promover a construção de um enfermeiro que assume a responsabilidade e fundamenta as suas intervenções. Para tal, o programa de ensino dual, ou seja, a realização de um semestre teórico que antecede o prático, de forma a adquirir progressivamente os conhecimentos, melhora a integração dos mesmos, pois são aplicados numa breve temporalidade. Todas as competências desenvolvidas desde do 1º ano são de natureza cumulativa, no sentido de preparar um profissional que se implica na sua prática e no seu processo de auto-formação contínuo. O rigor e o humanismo são matrizes da escola, transmitidos aos seus estudantes, embora que por vezes desafiante, o aluno tem consciência que, no final, o caminho que constrói em conjunto com a instituição, traduz-se numa transição para enfermeiro. Ainda tenho muito para aprender, tanto com os utentes como com os meus futuros colegas de profissão. Mas já desejo fazer essa transição.

Os desafios

Considero que é preciso tempo para se compreender o que realmente é a Enfermagem e ainda mais tempo para se compreender e desenvolver o "ser enfermeiro". O enfermeiro é um gestor de cuidados e saber priorizar inúmeras intervenções, definir um plano de cuidados, gerir e articular com membros da equipa é uma tarefa que necessita de empenho, dedicação, intercomunicação, além das competências adquiridas. É um exercício diário, que com a experiência se torna mais fluído. Em relação à componente relacional, considero-a enriquecedora, mas conforme os diferentes contextos, tem que existir uma adaptação e, posteriormente, uma personalização para o utente. Como futura profissional de Enfermagem, o maior desafio será conjugar todos estes fatores, atuando segundo um pensamento crítico, fundamentado e de acordo com os princípios deontológicos da profissão. Acompanhando e promovendo os novos desenvolvimentos científicos, num constante mundo em alteração.

Experiência 'in loco'

As práticas clínicas foram momentos de mobilização de conhecimentos, de saber ser e estar em meio hospitalar. Nas primeiras práticas clínicas que realizei nos serviços de Comunidade, Obstetrícia, Gerontologia e Medicina Interna estava muito focada em executar bem a técnica e tinha uma visão do utente um pouco compartimentada; isto é, tratando cada dimensão da pessoa de forma individual, em vez de assumir nos cuidados o utente como ser biopsicosócio-cultural e espiritual. Só a partir do 3º. ano, quando realizei estágio nos serviços de Cirurgia, Pediatria e Psiquiatria, é que o olhar sobre o mesmo foi-se alterando, compreendendo melhor a necessidade de cuidar o utente abrangendo todas as suas componentes, individualizando assim os cuidados. O que se traduziu numa maior segurança na execução de intervenções e num diálogo informado durante a realização da mesma. Terminei agora a prática clínica em Cuidados Intensivos. Ao início estava receosa do meu desempenho, mas, com o apoio dos enfermeiros e professores, consegui arranjar estratégias para compreender melhor a vulnerabilidade dos utentes naquele contexto e, assim, definir melhor as prioridades face a mesma. É um local que assume uma carga e ambiente emocionalmente desafiantes, tanto para os profissionais como para os familiares e utente e, nessa medida, foi imprescindível o apoio dos orientadores e professores. Sem dúvida uma prática clínica muito enriquecedora e completa a nível pedagógico.

Preocupações

As preocupações tocam muito o desempenho e a questão do erro. Quer este seja o terapêutico, o relacional ou de outra natureza. Mas a responsabilidade pelos nossos atos motiva-nos para moralmente assumir, apreender e agir em conformidade. Ao longo do tempo, a pessoa vai arranjando estratégias para conseguir superar as suas dificuldades e desempenhar uma prática de excelência. Quanto ao futuro mantenho-me otimista, nomeadamente em relação à entrada para o mercado de trabalho, dada a valorização e distinta reputação da escola em meio hospitalar.

Depois do curso, Portugal ou estrangeiro?

Tenho uma mente aberta a novas experiências, mas gostaria de permanecer em Portugal. Considero o SNS português um sistema acessível para os seus utentes, um sistema que se empenha em prevenir e proteger a sua população. Obviamente que tem particularidades que necessitam ser intervencionadas e melhoradas. Mas acredito no seu potencial para prevenir, promover e vigiar a saúde dos portugueses.

Se pudesse voltar atrás...

Aperfeiçoaria cuidados que prestei. A excelência de um profissional traduz-se na qualidade dos seus cuidados. E, como tal, gostaria de ter feito mais e melhor, ou de outra forma, integrando outros conhecimentos. Acho que é um bom objetivo para qualquer futuro recém-licenciado.