ANHE: Enfermagem "vive um momento de mudança"

segunda, 06 novembro 2017 11:11 Óscar Ferreira, presidente da direção da ANHE

ANHE: Enfermagem "vive um momento de mudança"A Enfermagem "vive um momento de mudança" e, por isso, torna-se importante olhar para o passado e perceber bem o presente para poder idealizar melhor ainda o futuro. É essa a convicção de Óscar Ferreira, presidente da direção da Associação Nacional de História da Enfermagem (ANHE), que, a poucos dias do terceiro simpósio internacional da associação, partilha as suas expectativas para o evento e destaca algumas temática e parcerias.

 

Jornal Enfermeiro | A 9 e 10 de novembro vai decorrer o III Simpósio Internacional da ANHE e 1.º Simpósio de História de Enfermagem da ESEnfC. Como e porque surgiu esta parceria?

Óscar Ferreira | A nossa associação tem por objeto o estudo, a discussão, a divulgação e o desenvolvimento da história da Enfermagem, tanto no plano nacional como internacional, e neste âmbito coopera com instâncias públicas e privadas.

Neste caso a parceria, entre a ANHE e a ESEnfC, surgiu de uma coincidência de interesses, potenciando as sinergias de ambas as organizações no planeamento e realização de um evento tão trabalhoso, complexo e importante quanto este, não só pela logística, como pelo número de participantes dos diferentes países envolvidos e atividades diversas que irão decorrer durante três dias.

Tal possibilitou também a descentralização desta atividade bienal da ANHE, que nas suas duas primeiras edições (2013 e 2015) ocorreu em Lisboa, levando-a ao centro do país, mais concretamente a Coimbra e às instalações da ESEnfC, uma referência nacional e internacional no desenvolvimento e afirmação da disciplina de enfermagem e uma referência de excelência na produção, difusão, transferência de conhecimentos e na formação de investigadores, nomeadamente de história da enfermagem.

Foi no decorrer da realização do workshop promovido pela ANHE “O estado da arte e os desafios da história de enfermagem. O que se fez? O que se está a fazer? O que está por fazer?”, que decorreu em Lisboa, no Polo Gulbenkian da ESEL, em 23 de maio de 2016, no qual estiveram presentes investigadores de história da enfermagem da ESEnfC, alguns dos quais sócios da ANHE, bem como a presidente dessa escola, professora doutora Conceição Bento, que surgiu o desafio o qual agora se concretiza, decorrido cerca de ano e meio de planeamento e trabalho conjunto.

JE | Em que medida foi importante trabalhar com os investigadores da ESEnfC?

OF | Trabalhar com os investigadores da ESEnfC no planeamento deste evento foi muito importante na medida em que tal atividade permitiu não só o intercâmbio de ideias como também possibilitou a constituição de comissões (organizadora e científica) de excelência e a construção de um programa científico extremamente rico, subordinado ao tema “Enfermagem Ibero-Americana no Séc.XIX (1801-1900)”. Paralelamente, permitiu identificar pesquisas recentes e/ou inovadoras sobre esta temática e seus investigadores; trazer à liça reflexões teóricas e metodológicas sobre a área em questão, bem como tentativas de reflexão e de diálogo sobre a divergência e/ou convergência de temas, objetos e problemas de investigação que os diferentes peritos convidados terão oportunidade de abordar.

JE| Que atividades estão previstas para o simpósio?

OF | Para o simpósio estão previstas imensas atividades. A começar no dia 8 com o pré-simpósio, no qual, durante a tarde, irão decorrer duas oficinas de trabalho.

Para o dia 9 prevê-se, logo pela manhã, uma conferência promovida por dois investigadores da Universidade de Coimbra sobre questões metodológicas na investigação da história da saúde do séc. XIX, a que se seguirá um painel sobre fontes para a história de Enfermagem no séc. XIX, na qual participarão tanto investigadores da ANHE quanto da ESEnfC. A tarde desse dia inicia-se com uma conferência de um investigador espanhol que abordará as alterações legislativas da enfermagem e nas competências dos enfermeiros espanhóis: de barbeiros e sangradores à primeira escola de enfermagem. Segue-se outro painel sobre a arte de enfermagem no séc. XIX onde investigadores portugueses de história da enfermagem apresentam os resultados do seu trabalho.

O dia 10 abre com uma conferência de um investigador brasileiro sobre o cuidado de enfermagem no Brasil: dos primórdios à profissionalização. Segue-se um painel onde participarão investigadores da ANHE e da ESEnfC sobre a importância das instituições na construção da identidade dos enfermeiros.

Na parte da tarde haverá duas conferências: uma de um investigador português sobre Costa Simões e a necessidade de enfermeiros preparados e outra de uma investigadora espanhola da Universidade de Alcalá sobre o prestígio social das enfermeiras do século XIX refletido na filatelia. Terminaremos o dia com um painel sobre a enfermagem nos conflitos bélicos.

Tudo isto será complementado com cerca de 8 mesas de comunicações livres e três exposições que decorrerão em simultâneo com o evento. Uma sobre “135 anos da ESENFC”; outra acerca de “Livros Infantis e Enfermagem” e uma outra que trata “Florence Nightingale” em diversas vertentes.

JE | Em que vão consistir as duas oficinas de trabalho agendadas para o dia 8 de novembro?

OF | As duas oficinas de trabalho que se irão realizar no dia 8 de novembro terão por base duas temáticas: “Fontes arquivísticas para o estudo da História de Enfermagem" e “A Enfermagem nos contos infantis”. Ambas serão orientadas por peritos espanhóis da Universidade Complutense de Madrid e Universidade Rey Juan Carlos (Madrid). Em ambas poderão ser desenvolvidas/aprofundadas competências no uso de fontes arquivísticas para o estudo da história da enfermagem.

Se na primeira oficina citada se irão trabalhar os tipos de arquivos com que o investigador se pode confrontar, a tipologia dos documentos, o valor da informação, a fiabilidade das fontes e técnicas de recuperação da informação, na segunda após a apresentação do tema, far-se-á a entrega de material de trabalho e de um guião para reflexão em grupo, da qual resultará um trabalho a ser exposto no final da oficina.

JE | Porquê a "Enfermagem Ibero-americana no séc. XIX (1801-1900)" como tema central?

OF | O tema central escolhido para este Simpósio foi "Enfermagem Ibero-americana no séc. XIX (1801-1900)" em primeiro lugar porque julgámos ser importante centrar a nossa atenção sobre esta centúria na qual surge a enfermagem dita profissional. É que se em 2013 o simpósio se tinha debruçado sobre a “Investigação sobre História da Enfermagem: Percursos e Desafios”, e em 2015 acerca da “Enfermagem na 1ª Metade do Séc. XX. Cenários e Contextos”, agora fazia todo o sentido tratar o séc. XIX. Depois, porque nos parecia haver pouca investigação com base em fontes datadas desta época e importava estimular o estudo das que existiam e identificar outras com potencial para um período tão rico da história da Enfermagem, o qual de alguma forma orientou os caminhos que a profissão acabou por trilhar no século XX.

“Ibero-americana” porque a história da enfermagem tanto Ibera quanto a Americana são riquíssimas influenciando-se mutuamente. Ambas têm muito para desvelar, compreender e discutir, e também porque desde há muito que investigadores ibéricos quanto americanos, essencialmente do centro e sul, se conhecem mutuamente e vêm estabelecendo redes de contacto e de trabalho que importa continuar a estimular e a desenvolver.

JE | A realidade da Enfermagem nos países do continente americanos pode ser comparada à realidade portuguesa? Em que medida, quais as principais diferenças e semelhanças?

OF | Esta é uma boa questão de partida para um trabalho de investigação, nomeadamente no âmbito da História da Enfermagem Comparada e desconheço que até agora alguém se tenha debruçado sobre o assunto. Mas não deixa de ser interessante.

Grosso modo o que poderei dizer acerca do continente americano prende-se com a enfermagem brasileira, que é a que conheço melhor. No Brasil o ensino desta profissão e ciência integrou a universidade bem mais cedo do que Portugal, cerca de 4 a 5 décadas, pois foi em 1937 que a Escola de Enfermagem Anna Nery foi considerada instituição complementar da Universidade do Brasil, sendo definitivamente incorporada em 1946. Em Portugal tal integração só aconteceu em 1988 e a nível do Ensino Superior Politécnico. No entanto e apesar disso, em Portugal, atualmente só são formados licenciados e mestres, para além de doutores em enfermagem. Logo, no nosso país, só poderão prestar cuidados de enfermagem os detentores do grau académico de licenciado e de mestre em enfermagem depois de inscritos na Ordem dos Enfermeiros. No Brasil podem dispensar cuidados de enfermagem três tipos de profissionais: enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem, uma categoria profissional que em Portugal deixou de existir na década de 70 do século passado. Tal como em Portugal, no Brasil os enfermeiros obtêm as suas competências através de formação superior/universitária ao longo de três/quatro anos. Mas para se ser técnico de enfermagem basta possuir o ensino médio completo e frequentar um curso com uma duração entre 20 a 24 meses, ficando então o formando apto para prestar cuidados planeados pelos enfermeiros. Já os auxiliares de enfermagem frequentam cursos com duração de cerca de 15 meses, adquirindo competências básicas para trabalhar apenas com doentes sem qualquer grau de complexidade. Em Portugal a categoria de técnico de enfermagem e de auxiliar de enfermagem não existem.

JE | Que outras temáticas destaca?

OF | Este é um evento especializado e nesse sentido a História da Enfermagem é por inerência o assunto em destaque. No âmbito desta especialidade qualquer das temáticas que irão estar em análise, ser objeto de reflexão e de discussão como: o ensino da enfermagem, a prestação de cuidados, as biografias, as congregações religiosas, os livros e as fontes históricas, os rituais, os uniformes e os conflitos bélicos irão ser de extrema importância para se pensar o passado, compreender o presente e idealizar o futuro da profissão de enfermagem a qual atualmente no nosso país, à semelhança do que aconteceu no passado, vive um momento de mudança.

JE | A iniciativa vai reunir especialistas internacionais. Quem são os convidados e que mais-valias trarão ao evento?

OF | São cerca de duas dezenas de especialistas internacionais convidados, entre portugueses, espanhóis e brasileiros, das mais reputadas Universidades e Centros de Investigação dos países envolvidos.

As mais valias que trarão ao evento serão obtidas decerto através da divulgação dos resultados mais recentes dos estudos que têm desenvolvido sobre a enfermagem no séc. XIX; da apresentação de uma acurada reflexão teórica e metodológica sobre a área em questão; da partilha dos seus interesses; de novas perspetivas de análise; do desenvolvimento e solidificação de redes de investigação, tanto nacionais como intercontinentais, a criar ou já existentes.

JE | Quais as expectativas da ANHE para o simpósio?

OF | As expetativas da ANHE para o simpósio são enormes. Desde o Iº Simpósio Internacional realizado em 2013 que temos visto um aumento de interesse tanto de investigadores, quanto de utilizadores e estudiosos de história de enfermagem por esta especialidade, com o consequente aumento do número de participantes tanto nacionais quanto internacionais nos eventos que vimos desenvolvendo. Aliado a tudo isto soma-se a excelência dos especialistas convidados e do trabalho que têm vindo a desenvolver no âmbito da História de Enfermagem, associado à grande capacidade organizativa e de divulgação da ESEnfC que criou todas as condições para que o simpósio seja um enorme sucesso. Resta apenas acrescentar que temos a certeza de que dado o número de painéis, conferências, oficinas de trabalho, exposições simultâneas e numero de comunicações livres e participantes inscritos, este ficará para a história da Enfermagem como um dos maiores e melhores simpósios que sobre esta temática e até hoje ocorreu em Portugal.

E não me canso de lembrar que tal só foi possível graças à sintonia estabelecida entre as duas organizações envolvidas – ANHE e ESEnfC – e os membros das diferentes comissões do evento, não podendo deixar de mencionar entre eles os nomes dos professores e investigadores Viriato Moreira, pela ANHE, e Paulo Pina Queirós, pela ESEnfC, a quem o êxito que se espera deste evento muito deve.

 

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