APE reclama Especialidade de Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica

segunda, 16 outubro 2017 11:00 Pedro Filipe Vasconcelos, Departamento de Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica da APE

APE reclama Especialidade de Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica"Atualmente, tudo parece começar e acabar na Enfermagem Médico-Cirúrgica, mas estamos em crer que a Especialidade de Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica terá de ser uma realidade nos tempos vindouros." Esta é a convicção de Pedro Filipe Vasconcelos, enfermeiro, membro do Departamento de Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica da Associação Portuguesa de Enfermeiros (APE), que organiza, nos dias 20 e 21 de outubro, a iniciativa "Doente Crítico'17". O evento terá lugar na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa e engloba o 4.º Encontro de Enfermagem de Emergência e as 10.ªs Jornadas de Enfermagem de Cuidados Intensivos.

 

Jornal Enfermeiro | A APE promove este mês a iniciativa "Doente Crítico'17". Que temáticas destaca?

Pedro Filipe Vasconcelos | As temáticas abordadas neste evento englobam uma série de áreas, desde a intervenção na emergência pré-hospitalar até aos cuidados intensivos. Destacando alguma delas, talvez o papel que os enfermeiros têm na preparação e planeamento dos sistemas de emergência face às novas ameaças de terrorismo. Também a temática referente à especialização em Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica deve ser de especial relevo, nomeadamente tendo em conta a grande mediatização recente face às especialidades e aos enfermeiros especialistas.

JE | Quais as expectativas para o evento?

PFV | O evento esgotou as inscrições um mês antes da sua data de realização, situação que é rara em Portugal. Prevemos, por isso, grande participação e envolvimento de todos os congressistas. O interesse manifestado pelas temáticas abrangidas faz prever “casa cheia” em todas as mesas do congresso.

JE | Os workshops e cursos pré-evento expressam a necessidade de formação contínua nesta área?

PFV | Sem dúvida. Nos workshops e cursos pré-evento são tocadas várias áreas de interesse para os enfermeiros que trabalham na esfera do doente crítico, desde o suporte avançado de vida às técnicas dialíticas. Pelo meio, de realçar dois cursos recentes e inovadores em Portugal, da criação e responsabilidade de enfermeiros que fazem parte do Departamento de Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica da APE: O curso de SAV Queimados e o curso de Abordagem e Transporte do Doente Crítico.

JE | Os enfermeiros têm um papel crucial no tratamento destes doentes, nomeadamente na emergência pré-hospitalar?

PFV | A abordagem ao doente crítico começa, de facto, na emergência pré-hospitalar, onde os enfermeiros detêm uma posição determinante, seja ao nível das VMER, dos helicópteros ou das ambulâncias SIV. Estas últimas constituem, de facto, um meio onde o papel e intervenção do enfermeiro é determinante para a identificação e estabilização do doente crítico até à sua chegada à unidade hospitalar. Será também abordada a temática dos enfermeiros nos bombeiros, aspeto este que é ainda muito dúbio na realidade nacional.

JE | Em que outros cenários interferem os enfermeiros?

PFV | Ao unir as Jornadas Nacionais de Cuidados Intensivos com o Encontro de Enfermagem de Emergência, este congresso pretende passar a ideia de que o paradigma inerente ao cuidado do doente crítico envolve as três esferas: emergência pré-hospitalar, serviços de urgência e cuidados intensivos.

JE | Um dos temas que estará em debate é "Novas realidades nos cuidados à pessoa em UCI". Quais são essas novas realidades?

PFV | Uma destas novas realidades tem precisamente a ver com a mudança de paradigma necessária para que o cuidado do doente crítico deixe de ser visto de forma espartilhada e passe a ser vista como um todo. O circuito do doente crítico, que envolve as três esferas acima mencionadas, encerra em si uma mudança de paradigma dos modelos de gestão hospitalares para que os enfermeiros de doente crítico possam prestar cuidados nestas três valências. Será também abordada de forma exaustiva o ECMO, tanto ao nível do adulto como da criança gravemente doente.

JE | Quais as especialidades necessárias para tratar pessoas em situação crítica?

PFV | Este vai ser precisamente o “tema quente” da terceira mesa do congresso. Atualmente, tudo parece começar e acabar na Enfermagem Médico-Cirúrgica, mas estamos em crer que a Especialidade de Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica terá de ser uma realidade nos tempos vindouros. Urge dotar os enfermeiros que trabalham nesta área de competências específicas que permitam disponibilizar ao doente os cuidados dentro dos mais elevados padrões de qualidade como, aliás, já vai acontecendo noutros países.

JE | Portugal tem os especialistas necessários? E os meios?

PFV | Esta é uma questão deveras interessante para a qual ninguém tem resposta no nosso país. Não apenas porque não existe ainda definida uma especialidade própria à realidade do doente crítico, mas também porque não existe ainda a definição de uma “dotação segura” de enfermeiros especialistas nos serviços. Será uma questão também a ser abordada no congresso.

JE | Em "cenários ímpares" como ataques terroristas, incêndios ou outras catástrofes, que abordagem deve ter um enfermeiro que não esteja em serviço?

PFV | Em cenário de catástrofe, o enfermeiro que não está de serviço terá a adoptar os comportamentos de qualquer cidadão: garantir a sua segurança e daqueles que lhe são próximos. Estando resolvidas estas premissas essenciais, e havendo possibilidade para isso (por exemplo: acessos rodoviários disponíveis), o enfermeiro poderá e deverá responder integrado no plano de emergência externo da instituição onde trabalha e que deverá ter acautelada estas questões para os enfermeiros que não estando de serviço têm disponibilidade para ajudar: Como ajudar, quando ajudar e em que condições ajudar.

angeladosvais@newsengage.pt