Enfermagem Intensiva: "Começamos a sentir dificuldades"

terça, 19 setembro 2017 18:17 António Almeida, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos

Enfermagem Intensiva: "começamos a sentir dificuldades"No contexto das VII Jornadas Nacionais de Enfermagem Intensiva, da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos (SPCI), que se realizaram a 22 e 23 de setembro, António Almeida, vice-presidente da sociedade e presidente das jornadas, alerta que os enfermeiros começam a sentir dificuldades nas UCI dado o baixo número de profissionais no serviço. "Começamos a sentir dificuldades… E preocupam-nos os sinais que nos chegam e que apontam para a intenção de se alterarem os rácios enfermeiro/doente", diz.

 

Jornal Enfermeiro | A SPCI realizou as VIII Jornadas Nacionais de Enfermagem Intensiva. Quais os objetivos do evento e quais as expectativas para a edição deste ano?

António Almeida | Efetivamente, foram as terceiras Jornadas de Enfermagem Intensiva que se vão realizar durante o mandato desta direção da SPCI, tendo como objetivo principal estabelecer a comunicação entre os profissionais do Sistema Nacional de Saúde que trabalham nos Cuidados de Saúde Primários e nos Cuidados Intensivos, através de partilha de experiências, e perceber de que forma se pode estabelecer articulação entre si na procura da melhor resposta para pessoa/doente.

Em relação às expectativas, são sempre elevadas quando se realiza um evento. Espero que estas jornadas se realizem num ambiente agradável e atrativo, permitindo a adição de conhecimento e o convívio entre os profissionais das várias áreas da prestação de cuidados, constituindo-se como o expoente máximo deste evento.

JE | "O Continuo de Cuidados na UCI. Da Comunidade à UCI – Da UCI à Comunidade" foi o tema central da iniciativa. Em que medida é necessário quebrar muros entre os cuidados intensivos e os cuidados na comunidade?

AA | Para quebrar algo é necessário haver vontade expressa dos profissionais de ambas as partes, no sentido destes “muros” ruírem e conduzirem a uma melhoria no cuidar à pessoa/doente. Isto é unir profissionais que trabalham com o mesmo fim em realidades diferentes e momentos diferentes no cuidado à pessoa/doente através de uma comunicação eficaz.

Na saúde é fundamental saber agir mutuamente com outras pessoas. O profissional da área da saúde tem como um dos suportes do seu trabalho as relações humanas, sejam elas com o doente, seus familiares ou com a equipe pluridisciplinar.

A comunicação é essencial para a implementação do cuidado à pessoa/doente. A DGS refere que “os responsáveis pelo processo de transmissão de informação, na transição de cuidados, devem estar identificados de forma inequívoca”, assim como a passagem de informação dos cuidados deve ter em conta esta comunicação eficaz entre as equipas prestadoras de cuidados, para segurança da pessoa, de forma a garantir a qualidade dos cuidados

JE | Qual o real papel dos enfermeiros das UCI?

AA | A UCI é o local que reúne recursos humanos especializados, materiais específicos e infraestrutura própria para o tratamento de doente em estado crítico. A prática numa UCI assenta num contínuo de ações e procedimentos, de monitorização, avaliação, diagnóstico e tratamento, assegurados em função das necessidades, vinte e quatro horas por dia, conduzindo ao restabelecimento das funções vitais do organismo.

Esta prática assistencial é assegurada, entre outros profissionais, pelo enfermeiro com prática específica e especializada, durante as vinte e quatro horas, contribuindo para a promoção, prevenção, recuperação e reabilitação da pessoa, o que torna este profissional essencial para o sucesso do cuidar do doente crítico. É um dos profissionais que integra o conhecimento científico com a evolução tecnologia na área de saúde, melhorando a qualidade do serviço, aumentando assim a satisfação das pessoas e respeitando a dignidade humana, promovendo uma melhoria da qualidade dos cuidados de enfermagem, mantendo no seu horizonte uma atualização continua dos conhecimentos.

JE | Esta é a 8.ª edição destas jornadas. O que tem mudado nas UCI e na enfermagem intensiva ao longo destes oito anos?

AA | O exercício profissional em cuidados intensivos vem se caracterizando pela utilização de um saber específico, diante da complexidade existente nesta área. Com isso, os enfermeiros envolvidos necessitam de constante aperfeiçoamento, atualização de seu conhecimento e incorporação de novos conceitos.

Com tantos avanços tecnológicos neste campo, a equipa de enfermagem deve acompanhar a evolução e requer enfermeiros treinados para cuidar de doentes em ambiente especializado. Sendo imperativo a especialização deste profissional.

Com a necessidade crescente que existiu nestes oito anos com a evolução da ciência, os enfermeiros sentiram necessidade de aprofundar os seus conhecimentos através da especialização, mestrados e doutoramentos. A título de exemplo, existiam no ano de 2000 cerca de 1.100 enfermeiros especialistas e no ano passado estavam registado na Ordem dos Enfermeiros sensivelmente 2.600 enfermeiros especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica, constando desta bolsa profissionais especializados, um número já considerável de enfermeiro especialista na área da pessoa em situação crítica.

JE | Atualmente, que desafios enfrentam os enfermeiros das UCI?

AA | Cuidar é o objetivo ético da enfermagem, cujo fim é a proteção, a promoção e a preservação da dignidade humana. Este ideal moral do cuidar em enfermagem manifesta-se em atos concretos.

Os enfermeiros das UCIs, como refere e Ordem dos Enfermeiros, são os elementos chave na resposta às necessidades de cuidados seguros à pessoa em situação crítica a vivenciar processos complexos de falência orgânica, nomeadamente na satisfação do cliente a promoção da saúde e prevenção de contro de infeções associados aos cuidados de saúde.

Neste momento, considero que o grande desafio está em estabelecer uma comunicação eficaz entre as UCIs e a comunidade, desta forma, se a articulação entre ambas as dimensões for eficiente, a pessoa poderá regressar o mais cedo possível ao domicílio e o inverso também pode ocorrer se houver uma agudização do seu estado geral.

JE | Outra das temáticas que estará em cima da mesa é a segurança dos cuidados e dos profissionais. Nas UCI há cuidados e profissionais em risco por falta de enfermeiros, à semelhança do que acontece com outros serviços?

AA | Começamos a sentir dificuldades… E preocupam-nos os sinais que nos chegam e que apontam para a intenção de se alterarem os rácios enfermeiro/doente. Tem de se ir de encontro à norma para o cálculo de dotações seguras dos cuidados de Enfermagem da Ordem do Enfermeiros, que foi aprovada em maio de 2014, e tem de se dotar os serviços de recursos capazes de zelar pela segurança e qualidade dos cuidados.

Conforme referiu a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, a enfermeira Ana Rita Cavaco, a propósito de dois estudos, por cada doente acima do que está definido "a mortalidade aumenta 7%" (estudo de 2014, efetuado por um consórcio em que participou a Universidade Católica); e no caso de um enfermeiro ter a seu cuidado seis ou menos doentes "a mortalidade reduz-se em 6%" (um outro estudo, já deste ano).

JE | Como vê os mais recentes acontecimentos no mundo da Enfermagem, nomeadamente a falha nas negociações com o Governo e as greves?

AA | Sendo a SPCI um órgão apartidário, apenas poderei dar a minha opinião pessoal relativamente a esta temática. Como se sabe, a Enfermagem necessita de uma carreira em que se torna imperativo a sua aplicação com alguma urgência, como tem vindo a acontecer com outros técnicos de saúde do SNS, que virão aprovadas as suas carreiras recentemente.

Considero que esse caminho reflete a vontade da grande maioria dos enfermeiros, em que pretendemos algo que dignifique e dê o reconhecimento que merecemos e que seja justa para todos os profissionais de enfermagem. Assim como reconheço que a introdução da categoria de enfermeiro especialista de forma a valorizar este profissional e a dignificar a carreira de enfermagem.

Ainda, julgo que esta negociação passa pela uniformização de horários de trabalho para 35h, assim como a revisão imediata das tabelas remuneratórias, quer na promoção quer na progressão periódica da respetiva categoria como já aconteceu em tempos muito remotos.

angeladosvais@newsengage.pt