Bombeiros-Enfermeiros querem dar segurança nos teatros de operações

sexta, 04 agosto 2017 13:32 Nelson Nascimento, presidente da direção do GNBE

Bombeiros-Enfermeiros querem dar segurança nos teatros de operações "Quem garante a segurança só o pode fazer sentindo-se seguro", afirma Nelson Nascimento, presidente da direção da Associação Grupo Nacional de Bombeiros-Enfermeiros (GNBE), justificando a criação desta "especialidade". A associação defende a criação de uma Equipa Nacional de Bombeiros-Enfermeiros que possa levar cuidados de saúde aos teatros de operações, apoiando a Proteção Civil, Bombeiros e civis.

 

Jornal Enfermeiro | A Associação Grupo Nacional de Bombeiros-Enfermeiros foi criada recentemente. Com que objetivo e quem a constitui?

Nelson Nascimento | A GNBE é uma associação sem fins lucrativos empenhada no estudo e desenvolvimento de competências especializadas da enfermagem como especialidade dos âmbitos de Proteção Civil e Bombeiros. A sua ação contextualiza-se dentro de um caráter científico bidisciplinar, direcionado ao estudo e desenvolvimento das ações de prevenção da doença, riscos, acidentes e promoção, manutenção e recuperação da saúde das pessoas envolvidas nas situações que requerem intervenções de Proteção Civil e Bombeiros.

O objetivo prioritário é a viabilização do "Projeto Bombeiros-Enfermeiros" que, essencialmente, defende a criação de uma Equipa Nacional de Bombeiros-Enfermeiros (ENBE), para dar lugar a um conceito de saúde específico para a emergência vinculada à Proteção Civil, nomeadamente Bombeiros, a que designamos de Suporte de Cuidados de Saúde Operacional (SCSO), que assenta na capacidade de acompanhamento in loco.

À semelhança do desejado para a ENBE, o GNBE é constituído por enfermeiros e enfermeiros especialistas registados em Portugal ou com reconhecida equivalência, que simultaneamente mantém vínculo com associações, corpos ou forças de bombeiros de Portugal.

JE | Apresentaram, em fevereiro, o "Projeto Bombeiros-Enfermeiros" ao Ministério da Administração Interna. Em que consiste e qual foi a aceitação?

NN | O projeto consiste, essencialmente, na criação da ENBE. Entre outras coisas, nela preconiza-se a dotação de capacidade para o acompanhamento extra-hospitalar de cuidados de enfermagem dos seus indivíduos, ou seja, dos Agentes de Proteção Civil (APC) e dos benificiários das suas ações. Estes cuidados, advindos do modelo de SCSO, têm início nos quarteis de bombeiros: são para eles mesmos e, ao mesmo tempo, têm a capacidade para se estender até ao local das suas intervenções. Aí, diante as incidências, pode intervir-se numa fase inicial, com atuações de urgência e emergência, para as vítimas resultantes, sejam elas civis ou APC, maioritariamente bombeiros.

A intervenção implicará sempre a utilização de equipamento de proteção individual numeroso, pesado e complexo e o domínio de conhecimentos muito para além da Enfermagem de Saúde Ocupacional e de Emergência, já que tais situações, frequentemente, requerem uma estratégia alternativa para possíveis complicações do sinistro, sobretudo quando este resulta em incidente crítico.

Após termos sido ouvidos pela Ordem dos Enfermeiros (OE) e pela Direção Nacional de Bombeiros (DNB) da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), decidimos recorrer ao Ministério da Administração interna (MAI). Recebidos pelo Gabinete da Secretaria Geral da Administração Interna, este revelou interesse em conhecer a estratégia para a implícita articulação entre o Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro (SIOPS) e o Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) e saber se já existiam elementos preparados para estar no terreno.

Foi bastante positiva a reação do MAI, mas na verdade não nos surpreende, se tomarmos por base a incidência de incidentes críticos ocorridos nos últimos tempos, senão nesta última década.

JE | As competências de um bombeiro-enfermeiro são obrigatoriamente diferentes das de um enfermeiro? Quais as diferenças?

NN | Primeiro, há que referir que para o Bombeiro-Enfermeiro (B-E) consideramos um plano formativo algo "desviado" daquilo que estamos habituados para os vários perfis de enfermagem.

Sobre as competências, estas não têm necessariamente de ser diferentes das de um enfermeiro (ainda que o sejam). Trata-se de uma "ramificação" dos cuidados que aplicamos ao longo do ciclo vital.

O B-E, para o ser, tem obrigatoriamente de mergulhar numa “família” repleta de usos, costumes e tradições, revestida de cultura paramilitar, onde as missões, tal qual como o são, não cabem a mais nenhum elemento da sociedade. Daí que, neste sentido, usar o termo "Enfermeiro Bombeiro" é rotundamente incorreto.

Os bombeiros são frequentemente considerados pela sociedade como heróis e, portanto, pode ser difícil para eles vocalizar as suas observações pessoais ou pedir ajuda; daí a nossa razão de ser como B-E’s e não como Enfermeiros Bombeiros.

JE | A ideia é que sejam reconhecidos como bombeiros especialistas?

NN | Sim, partindo da atividade própria de bombeiro, a ideia é que nos seja concedido um papel de especialista, que aceita, reconhece e regula a implementação de uma praxis técnico-científica de enfermagem em contexto extra-hospitalar, exclusivo do âmbito de Proteção Civil e Bombeiros. O Quadro de Bombeiro Especialista é algo que já existe, mas não obstante da interpretação que retiramos, ele é insuficiente. Segundo refere o Despacho do DR, "ao bombeiro especialista incumbem funções de apoio e assessoria ao corpo de bombeiros diretamente associadas à sua especialidade" e não da respetiva profissão, além de que o remete única e exclusivamente para uma única área, cujas competências não aportam nada de novo comparando com a sui generis carreira de bombeiro voluntário.

JE | Em que circunstâncias pode ser relevante a participação da Equipa Nacional de Bombeiros-Enfermeiros? Os incêndios são um dos cenários em que são fundamentais?

NN | Pretendemos intervenções precoces, na manipulação do risco e na emergência, dentro das áreas de especialização de Proteção Civil e Bombeiros - Emergência Pré-hospitalar, Prevenção e Segurança Contra Incêndios, Socorro a Náufragos e Buscas Subaquáticas, Busca e Salvamento, Manutenção nas Áreas Funcionais Relacionadas e outras que urjam de necessidade nos contextos formativo, preventivo e prático.

Espera-se, assim, dar lugar à implementação de um suporte de cuidados de saúde ativo, que concretiza o SCSO. Acompanhar in loco, fornecer aos atuantes do teatro de operações monitorizações várias, promover a prevenção de "incidentes críticos" e, em casos graves, intervir com cuidados de enfermagem avançados até que os cuidados de emergência médica estejam disponíveis e praticáveis.

Refletindo sobre os incidentes críticos, os incêndios são, sem dúvida, um dos cenários fundamentais. Daremos ênfase aos florestais, não só pela sua frequência, mas também porque os registos públicos da casuística portuguesa pouco ou nada coincidem com os valores qualitativos e quantitativos da epidemiologia europeia e mundial. Tal é sinonimo de muito trabalho por fazer, extensível a todas as áreas, num contexto que é ainda "virgem".

JE | O GNBE diz que há uma crescente necessidade de segurança nas missões da Proteção Civil. Porquê?

NN | O mundo é uma peça dinâmica do universo. Nele tudo evolui e se transforma, inclusivamente os agentes responsáveis pelo eustresse e o distresse. Ou seja, sabe-se que a tendência é para que os teatros de operações venham a ser cada vez mais complexos e nas formas mais inusitadas. De encontro ao propósito da enfermagem, os cuidados desta caracterizam-se pela utilização de metodologia científica, que inclui entre outros "a identificação dos problemas de saúde em geral e de enfermagem em especial" e "a recolha e apreciação de dados sobre cada situação que se apresenta". O contexto de Proteção Civil e Bombeiros passa a ser mais um deles. Quem garante a segurança só o pode fazer sentindo-se seguro.

É nosso dever encorajar para a criação de profissionais de saúde homólogos que completem o rol interdisciplinar, nomeadamente farmacêuticos, médicos, psicólogos, técnicos superiores e veterinários. Por exemplo, no atentado ao Bataclan, em Paris, o terceiro elemento policial dos RAID a entrar na zona crítica era um médico.

JE | Além de auxiliar nas situações de emergência, estes enfermeiros podem também ter um papel a desempenhar na promoção da saúde, nomeadamente juntos aos próprios bombeiros?

NN | Sim, essa é a essência. De tal forma que, pela aplicação do SCSO, as intervenções da ENBE estariam colocadas entre os limites finais da Saúde Ocupacional e iniciais da Emergência Pré-Hospitalar, pelo conjunto de ações determinado para essa índole.

JE | O Grupo quer avançar com uma fase piloto. Têm os meios necessários, quer materiais quer humanos?

NN | O Grupo, tal como o nome ilustra, pode apenas ser motivo para a criação do conceito. A ação, ou seja, a concretização da ENBE, não pode ser diretamente da nossa responsabilidade, ainda que queiramos participar nela. Carece de um enquadramento político, social e legal e implica compromissos económicos.

No entanto, temos à-vontade para dizer que os elementos de que dispomos, com a ajuda dos já experimentados nesta realidade (Espanhóis e Franceses), têm capacidade para corresponder às necessidades.

Aquando da tragédia de Pedrogão, foram muitos os pertencentes a entidades públicas e privadas que, individualmente, se voluntariaram para dar lugar à imediata ativação do SCSO, ainda que com o "projeto" em stand by. Porém, pelo risco de distorção do conceito, ousámos negar.

JE | O projeto é apadrinhado por várias entidades europeias. Quem são e em que consiste esse apoio?

NN | A solidez das determinações do GNBE é garantida através do notável apoio de entidades nacionais e europeias. De Portugal, a Associação Bombeiros para Sempre, a OE e a Universidade Lusófona do Porto; do estrangeiro, a Association Nationale des Infirmiers de Sapeurs-Pompiers, a Asociación de Sanitarios Bomberos de España, Bomberos de Zaragoza, Bombers da Generalitat de Catalunya, Bombers de Barcelona, Fédération Nationale des Sapeurs-Pompiers de France, Servicio de Asistencia Municipal de Urgencia y Rescate – Protección Civil, Société Européenne de Médecine de Sapeurs-Pompiers, entre outras. Estas permitem uma valiosa ajuda na hora de alertar para as prioridades e, particularidades, das necessidades da nossa própria realidade.

JE | Quando esperam poder ter a primeira equipa oficial no terreno?

NN | Não depende do GNBE, não depende da OE, não depende das entidades de bombeiros, não depende dos organismos de proteção civil, não depende do MAI ou dos Governos. Depende do empenho integral na consciencialização da sociedade, para a priorização das necessidades de uma população, por ela mesma e para ela mesma, já que se diz "Proteção Civil Somos Todos Nós".

 

angeladosvais@newsengage.pt