Ajustar a oferta formativa à empregabilidade "é um mito"

sexta, 28 julho 2017 12:08 José Manuel Silva, presidente do Conselho de Direção da Escola Superior de Saúde de Santa Maria

Ajustar a oferta formativa à empregabilidade "é um mito""A correspondência entre a oferta de formação e a empregabilidade é um mito", diz José Manuel Silva, presidente do Conselho de Direção da Escola Superior de Saúde de Santa Maria (ESSSM), que parte para o novo ano letivo com novas pós-graduações. Apesar de serem tempos difíceis para a enfermagem, o responsável garante que "os dados disponíveis são muito entusiasmantes relativamente ao futuro" e que o curso continua a ter procura. Nos últimos anos, o número de inscritos "triplicou".

 

Jornal Enfermeiro | Em 2016, a Escola Superior de Enfermagem de Santa Maria passou a ser Escola Superior de Saúde de Santa Maria. O que motivou a mudança?

José Manuel Silva | Em 2014 foi elaborado um Plano Estratégico que definiu as linhas de orientação futuras – aumento do número de estudantes, novos cursos, passagem a escola de saúde, condição indispensável para poder ministrar formações que não enfermagem.

JE | Ponderam novas licenciaturas?

JMS | Está em análise a possibilidade de criação de uma nova licenciatura na área dos cuidados de longa duração, cuja denominação ainda não está definida e que visa dar sequência ao curso Técnico Superior Profissional em Gerontologia e Cuidados de Longa Duração.

JE | Além de licenciaturas, pós-licenciaturas e pós-graduações, a ESSSM oferece também cursos técnicos superiores profissionais. Em que consiste esta modalidade e a quem se destina?

JMS | Os cursos TESP destinam-se a estudantes que queiram fazer uma nova abordagem aos estudos no ensino superior, através de um percurso essencialmente virado para a aquisição de competências práticas.

JE | O que diferencia as pós-licenciaturas das pós-graduações?

JMS | As pós-licenciaturas conferem uma especialização; as pós-graduações apenas um certificado.

JE | As pós-licenciaturas abrangem a Enfermagem de Reabilitação e a Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia. Consideram ser estas as áreas com maior necessidade de especialistas, atualmente?

JMS | Não necessariamente, mas são cursos com procura e na escola há tradição de oferecer a PL em Saúde Materna e Obstetrícia. A Enfermagem de Reabilitação está na primeira edição, mas alcançou um nível de inscritos muito significativo.

JE | Este ano, lançam duas novas pós-graduações, em Tele-Saúde e Cuidados Paliativos Pediátricos. Porquê esta aposta?

JMS | A Tele-Saúde é claramente uma área emergente e o futuro vai torná-la cada vez mais importante e necessária. Os Cuidados Paliativos Pediátricos corresponde a uma resposta qualificada numa área muito delicada e onde há um caminho a percorrer no aprofundamento do apoio e na melhoria das respostas aos docentes e famílias.

JE | As novas pós-graduações serão realizadas em parceria com a Universidade da Beira Interior e a Casa Kastelo, respetivamente. Em que sentido é que estas parcerias são uma mais-valia para a formação?

JMS | A escola aposta no trabalho colaborativo, em rede e assente em parcerias que constituam mais-valias para os objetivos a alcançar. Uma universidade ou um prestador de serviços qualificado são ambos importantes apostas no reforço da qualidade das formações oferecidas.

JE | Quais são, na sua opinião, e na área da enfermagem, as principais necessidades do mercado de trabalho hoje em dia? A Escola tem sempre em conta essas necessidades quando pondera novas formações? Há que ajustar a oferta formativa à procura do mercado?

JMS | A correspondência entre a oferta de formação e a empregabilidade é um mito, salvo perspetivas malthusianas, não é possível regular administrativamente o mercado do ensino e formação, o que não significa que não seja desejável procurar ter atenção ao mercado e às tendências em cada momento. A enfermagem continua a ser uma área apetecível para muitos milhares de estudantes e o mercado interno e global absorvem todos os diplomados. A ESSSM tem um Observatório da Vida Profissional que acompanha o percurso dos diplomados e intervém proactivamente na busca de emprego, quando para isso solicitado, e faz estudos regulares sobre a situação dos novos profissionais. Os dados disponíveis são muito entusiasmantes relativamente ao futuro.

JE | É difícil atrair alunos para Enfermagem numa altura em que a profissão está a atravessar uma fase complicada?

JMS | Não temos essa experiência, pelo contrário, a escola triplicou nos últimos anos o número de estudantes inscritos no 1.º ano, em cada novo ano escolar.

JE | Os alunos mostram-se preocupados com o futuro? Considera que têm motivos para estar preocupados, ou acredita numa melhoria das condições de trabalho dos enfermeiros em breve?

JMS | Entrar no mercado de trabalho é sempre uma experiência geradora de ansiedade mas os dados disponíveis permitem afirmar que a esmagadora maioria dos licenciados encontra emprego num prazo curto, seja no país, seja noutros países, e aqui é necessário ter em conta que o mercado de trabalho se globalizou e que quem quer emprego tem de o procurar onde existe oferta. Outra alternativa, altamente fomentada pela ESSSM é a criação do próprio emprego ou mesmo a criação de negócios nesta ou noutra área. Ser enfermeiro não significa trabalhar apenas em enfermagem, hoje há uma multiplicidade de oportunidades profissionais a que os enfermeiros se podem candidatar e que não são, necessariamente, para desempenhar tarefas como enfermeiros no sentido mais tradicional da profissão.

JE | É presidente do conselho de direção da escola desde 2013. Que balanço faz destes quatro anos e quais são as suas expectativas e objetivos para os próximos tempos?

JMS | Não serei a pessoa mais isenta para falar do que se fez, mas mesmo correndo o risco de advogar em causa própria, considero que o percurso tem sido extremamente positivo. Todos os objetivos do Plano Estratégico foram concretizados, a reestruturação da escola e a aprovação dos novos estatutos criaram as bases para uma organização mais coesa, mais eficaz e mais qualificada, através da criação do Sistema Interno de Gestão da Qualidade, a sustentabilidade pedagógica e financeira é muito mais robusta do que era, a qualificação do corpo docente é incomparavelmente superior, a imagem pública da escola é muito mais forte e o espírito de equipa e de pertença de estudantes, docentes e pessoal de administração e serviços é a base do sentimento geral de quem estuda e trabalha na ESSSM – "Aqui somos felizes".

No futuro desejamos consolidar as mudanças realizadas e projetar novos desafios tendo sido eleita a área do envelhecimento ativo e saudável como nova área estratégica a desenvolver em torno de um projeto de desenvolvimento social, onde se plasmam todas as competência e know how da escola, e que se designou por vintAGEING.

 

angeladosvais@newsengage.pt