Madeira: faltam enfermeiros "em praticamente todos os serviços"

segunda, 19 junho 2017 10:50 Élvio Jesus, presidente da Secção Regional da Região Autónoma da Madeira da Ordem dos Enfermeiros

Madeira: faltam enfermeiros "em praticamente todos os serviços hospitalares""Existe carência em praticamente todos os serviços hospitalares, centros de saúde, lares, estabelecimento prisional, etc." na Ilha da Madeira, onde faltam mais de 400 enfermeiros. Quem o diz é o presidente da Secção Regional da Região Autónoma da Madeira da Ordem dos Enfermeiros, Élvio Jesus, que espera que em breve sejam contratados "pelo menos" 50 novos profissionais.

 

Jornal Enfermeiro | No final do ano passado faltavam para a Madeira, pelo menos, 400 enfermeiros, segundo o Sindicato dos Enfermeiros da região. Essa falta mantém-se? Qual é a situação atual?

Élvio Jesus | Logo após a nossa tomada de posse, em audiência com o então Secretário Regional da Saúde (SRS), Dr. Faria Nunes, ficou estabelecido um grupo de trabalho entre a Secção Regional da RAM da OE e a SRS, no sentido de equacionar a questão prioritária das dotações. Ficou, então, acordado ser esse o número aceitável para contratação no decurso da legislatura e é nessa base que continuamos a trabalhar com a nova equipa da SRS, embora saibamos tratar-se apenas de uma reposição das perdas ocorridas nos últimos anos.

JE | Há níveis de cuidados mais carenciados que outros? Quais e porquê?

EJ | Diria que existe carência em praticamente todos os serviços hospitalares, centros de saúde, lares, estabelecimento prisional, etc.

JE | Quais as especialidades que estão mais em falta?

EJ | Depende da nova configuração do MDP (Modelo de Desenvolvimento Profissional) e das especialidades que irão ser criadas a breve trecho, como por exemplo a enfermagem de saúde familiar, o perioperatório ou a especialidade em doente crónico e paliativo. Mas diria que as tradicionais especialidades, de reabilitação, de saúde mental, médico-cirúrgica e comunitária são as que maior quantidade de enfermeiros requere. Além de que a área dos idosos também será muito necessária. No entanto, também a saúde materna e a saúde infantil beneficiariam com mais enfermeiros especialistas, pois o que se pretende é um aprofundamento de competências dos prestadores de cuidados de enfermagem.

JE | Há formação especializada na ilha? A suficiente?

EJ | Sim, apesar das dificuldades, dá resposta, à exceção da saúde materna e obstétrica. Obviamente com a colaboração de algumas unidades do continente, particularmente nalguns contextos de prática clínica altamente diferenciados.

JE | Os enfermeiros que saem da Universidade da Madeira têm conseguido empregar-se na região?

EJ | Na Madeira temos duas escolas, a mais antiga é a de S. José de Cluny, a mais recente está integrada a nível do Politécnico na Universidade da Madeira. A reputação é reconhecida, daí a existência de uma grande procura por parte das agências de recrutamento. E até mesmo de colegas a trabalhar no estrangeiro. Por isso, muitos não aguardam por eventuais oportunidades na RAM.

JE | A SRRAM-OE teve, em janeiro, uma audiência com o novo Secretário Regional da Saúde. Essa reunião já surtiu alguns efeitos? Atualmente, há algum tipo de negociação a decorrer com o Governo?

EJ | A questão das dotações foi um dos temas abordado, outro foi a "Reforma dos Cuidados de Saúde Primários”, essa anormalidade que a Madeira parece querer do Continente importar…

A este respeito chegamos a algum acordo, todavia, a pressão médica dos CSP para avançar é muito grande, alegando a necessidade de harmonização nacional. Enfim, na falta de outros, o argumento mais habitual…

JE | Sabe se estão previstos processos concursais para o Serviço Regional de Saúde, a curto prazo?

EJ | Sim. Pelo menos para mais 50 novos enfermeiros, no prosseguimento do acordo anteriormente referido.

JE | Os enfermeiros da região já estão todos com um regime de 35 horas semanais?

EJ | Sim. Felizmente para todos, independentemente do vínculo, desde janeiro de 2015, salvo erro.

JE | Foram incluídos dois profissionais de enfermagem no gabinete do Secretário Regional da Saúde. Qual a importância dessa medida?

EJ | A presença de enfermeiros nos locais onde se decide sobre saúde é um imperativo, pela visão que a profissão tem dos problemas de saúde e da forma de os atender. No entanto, como foram incluídos há poucos meses, ainda é cedo para avaliar. Tudo dependerá do contributo que derem e da persuasão que empreenderem no sentido de fazerem valer o que é certo, justo e compatível com os padrões de qualidade da profissão.

JE | O corrente mandato tem pouco mais de um ano. Quais os objetivos da SRRAM-OE para o próximo biénio?

EJ | O nosso principal desiderato foi recolocar a enfermagem na agenda regional, fortalecendo-a e, com isso, melhorar a saúde e o bem-estar de todos, enfermeiros e cidadãos. Continuaremos a empreender medidas que alarguem a cultura de enfermagem e de saúde dos enfermeiros da Região Autónoma da Madeira. É para isso que estamos a trabalhar. E, como sempre, igualmente disponíveis para colaborar a nível nacional.

 

angeladosvais@newsengage.pt