Condições de trabalho e remuneração preocupam jovens enfermeiros

quinta, 18 maio 2017 11:10 Edgar Pereira, 23 anos, frequenta o 1.º ano de Mestrado em Enfermagem na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

100 edgar ced22"Creio que, de momento, o 'arranjar emprego' vai além da questão de 'ausência de emprego' e está mais direcionado para a questão de conseguir um emprego com condições de trabalho e de remuneração dignas. "A afirmação é de Edgar Pereira, mestrando de Enfermagem - Especialização em Gestão de Unidades de Cuidados na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, que considera "preocupantes" as condições oferecidas por algumas instituições.

 

Enfermagem porque...

Porque sempre tive um certo magnetismo pela área da saúde, o que, aliado a uma experiência de “cuidar” no contexto familiar, acabou por me fazer ponderar a possibilidade da enfermagem para o futuro profissional (era a enfermagem ou a medicina dentária, para ser sincero). Posteriormente, após os exames nacionais, os resultados mostraram-me o caminho para a enfermagem e eu, sinceramente, acabei por não forçar a possibilidade da medicina dentária. Depois, o curso revelou-se fascinante para mim e percebi que o meu futuro passava pela enfermagem. E foi em redor da enfermagem que decidi começar a construir o meu futuro.

Ligação com a área

Não tenho familiares diretos que sejam enfermeiros, apenas primos em 2.º grau, mas sem um grau de convivência muito significativo.

A escolha da universidade

Existe toda uma mística em volta de se escolher Coimbra: para os mais velhos Coimbra é a cidade “dos estudos da saúde”, para os mais jovens é a cidade dos estudantes e da vida académica. Para mim, pesaram ambos os pontos de vista, pois se por um lado me interessava ser formado na maior instituição de ensino do país e ter a oportunidade de desenvolver a minha prática no contexto do Centro Hospital e Universitário de Coimbra, por outro sentia que deixar Leiria e sair de casa dos pais me iria dotar de ferramentas preciosas para o resto da vida.

O curso

O curso de licenciatura correspondeu às expetativas, tendo mesmo superado as expetativas iniciais no que diz respeito à estimulação para o desenvolvimento de um pensamento crítico, algo que verifico também no curso de mestrado onde estou de momento. No essencial, creio que a oferta da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra surpreende os seus estudantes pelo enorme contributo que traz a nível pessoal, levando os seus cursos bem além das componentes teóricas ou da componente prática e foi isso que mais me surpreendeu. O simples facto de sermos incentivados a “pensar” ao invés de “decorar” traz benefícios para nós (para o resto da vida), como também traz benefícios às organizações onde nos inserimos e aos utentes que cuidamos. Para além do curso em si, ao longo de todo o percurso académico somos sempre incentivados a participar em projetos da escola e em contribuir para o associativismo estudantil, o que também nos dota de determinadas competências que só o trabalho nesses contextos nos traz. O curso de mestrado não foge à regra: está a revelar-se não só um curso, mas também um percurso bastante enriquecedor.

Quando agora oiço os meus colegas do curso de licenciatura a falarem que gostariam de ter “praticado mais” procedimento x e procedimento y, vejo que agora tenho uma leitura tão diferente da que tinha no mesmo estádio do percurso académico deles. A maturidade que desenvolvemos no último ano do curso e no primeiro ano de prática dá-nos uma perceção tão diferente do nosso percurso, das oportunidades de aprendizagem que tivemos e de determinados eventos/momentos/casos tão enaltecidos por professores e tutores e que, na altura, não assumem o devido relevo por não se possuir uma maturidade para a qual o início da vida profissional contribui em grande escala. Noto hoje, claramente, que o curso me deu as ferramentas necessárias não só para trabalhar em parceria com o utente e sua família e as ferramentas necessárias para pensar, repensar e de olhar tudo de forma não só curiosa, mas também de forma muito crítica. É esse estímulo a sermos mentes inquietas associado à passagem por campos de ensino clínico tão diferentes que nos prepara não só para lidar com a diversidade de contextos da vida profissional, mas também para não perder o fio condutor que traduz a essência dos valores transmitidos pela escola. O mesmo se aplica no curso de mestrado: mais do que a componente teórica que caracteriza o seu plano de estudos, somos chamados a refletir e a discutir, por forma a compreender e planear devidamente como intervir nos mais variados contextos.

Os desafios

Creio que o maior desafio no curso de enfermagem seja a conciliação dos estudos com todo o processo de crescimento pessoal e ganho de independência. No curso de mestrado verifico uma extensão desse mesmo desafio, pelo facto de continuar a estudar e estar a trabalhar enquanto enfermeiro. No fundo, todo o percurso académico na área de enfermagem é caracterizado por muitas mudanças, especialmente quando se está em ensino clínico (mudança de contextos, de grupos de trabalho, de equipas e, principalmente, de formas de trabalhar e de focos de atenção), aliada a uma componente pessoal de cada um de nós que também está a crescer, a aprender e a definir-se.

No contexto profissional, a afirmação enquanto profissional dentro de uma equipa enquanto “recém-licenciado” é, sem dúvida, o maior desafio. Verifica-se em muitos contextos que há alguma resistência à mudança e hoje somos educados para ser vetores de mudança, sendo que, por vezes, não sabemos bem como atuar em serviços já antigos ou com formas já muito vincadas de se trabalhar.

Experiência 'in loco'

Terminei o meu curso de licenciatura em julho de 2015 e iniciei atividade profissional desde agosto desse mesmo ano. Estive um ano e cinco meses num contexto de cuidados continuados e desde dezembro que me encontro a trabalhar no contexto hospital e posso dizer que foi ao encontro das experiências que tive em ensino clínico durante a licenciatura! É claro que há um enorme peso extra, pois, afinal, “sou enfermeiro, não estudante” e o grau de expetativas em torno de mim próprio e o grau de autoexigência é ainda superior ao que havia vivenciado anteriormente em qualquer contexto do meu percurso académico.

Preocupações

Creio que, de momento, o “arranjar emprego” vai além da questão de “ausência de emprego” e está mais direcionado para a questão de conseguir um emprego com condições de trabalho e de remuneração dignas. Se dantes era escassa a procura de enfermeiros no país, o que obrigava muitos recém-licenciados a emigrar, hoje essa escassez não se verifica, muito por causa da mobilização de enfermeiros para a área hospitalar, fruto dos vários procedimentos concursais que temos observado recentemente. As estruturas residenciais para idosos (ERPI) e as estruturas da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) têm absorvido muitos dos nossos recém-licenciados recentemente, todavia as condições oferecidas por essas estruturas são fonte de preocupação. Se estou confiante no futuro? Sim, acredito que eu e os meus colegas recém-licenciados constituímos uma geração de enfermeiros que se preocupa com a dignidade em que exerce a sua profissão, que está disposta a aceitar desafios, que está disposta a arregaçar as mangas de forma a que o seu contributo individual se traduza num impacto no coletivo onde se inserem. Um dia, quando tivermos mais maturidade e experiência, creio que as equipas terão provas dadas do potencial dos profissionais que as escolas estão agora a formar e os saberão encaminhar para áreas onde cada um será uma mais-valia.

Depois do curso, Portugal ou estrangeiro?

Exerço a profissão em Portugal, como já referi anteriormente, e farei por aqui continuar a exercer, tal como muitos dos meus colegas. Ainda há muito trabalho a fazer na enfermagem em Portugal e junto dos utentes portugueses. Temos tido alguns sinais positivos, o que nos deixa mais otimistas e com mais vontade de trabalharmos por cá.

Se pudesse voltar atrás...

Escolheria o mesmo trajeto, sem dúvida.