"Com mais recursos os enfermeiros chegariam a mais pessoas", diz a APE

quarta, 05 abril 2017 12:49 João Fernandes, presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros

"Com mais recursos os enfermeiros chegariam a mais pessoas""É fundamental que o poder político reconheça os benefícios que a intervenção de enfermagem tem na promoção da saúde", afirma João Fernandes, presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros (APE), salientando que "com mais recursos os enfermeiros chegariam a mais pessoas". Com o aproximar do Dia Mundial da Saúde, o enfermeiro revela o que gostaria de ver mudado no setor e na saúde dos portugueses.

 

Jornal Enfermeiro | Além de cuidar de pessoas em situações de doença, os enfermeiros têm um papel na promoção da saúde. Em que consiste?

João Fernandes | Cuidar pessoas em situação de doença é apenas uma das vertentes dos cuidados de enfermagem. A promoção e a vigilância da saúde, a prevenção da doença, os cuidados à pessoa doente e o acompanhamento desde o nascimento até à morte fazem parte do dia a dia dos cuidados de enfermagem. Os enfermeiros cuidam das pessoas em todo o seu ciclo da vida. Na promoção da saúde os enfermeiros desempenham um importante papel quer através da educação para a saúde, do ensino, da vigilância da saúde e da deteção precoce da doença.

JE | Esse papel cabe apenas aos enfermeiros dos cuidados de saúde primários, ou estende-se aos enfermeiros especialistas?

JF | Importa clarificar que também nos cuidados de saúde primários encontramos enfermeiros especialistas das diferentes áreas de intervenção.

A promoção da saúde é uma responsabilidade de todos os enfermeiros e integra todos os momentos da sua actividade, independentemente do local onde a exercem. As funções de enfermagem existem sempre que existam pessoas a necessitar de cuidados sejam eles de promoção da saúde, de prevenção de doença ou de assistência ou acompanhamento.

JE | É um papel que ganha maior relevância em certas alturas do ano, por exemplo na primavera, com as alergias, ou no inverno, com as gripes?

JF | A educação e promoção para a saúde faz-se ao longo de todo o ano e de acordo com planos de intervenção de enfermagem na comunidade. Contudo existem momentos durante o ano em que se torna crucial incidir a educação para a saúde em certas patologias de forma a potenciar a sua prevenção e a deteção precoce.

JE | Esse trabalho de consciencialização, e até de educação, é valorizado como parte integrante da profissão, tanto pela restante equipa de saúde como pelos cidadãos?

JF | Talvez não tanto como deveria ser, mas isso será conseguido através do trabalho dos próprios enfermeiros que devem assumir sem receios o seu papel na equipa de saúde. É preciso termos a certeza de quais as nossas competências e não abdicar do papel que os enfermeiros desempenham na equipa de saúde e na sociedade.

JE | Além do que fazem, que mais poderiam fazer os enfermeiros enquanto promotores de saúde, se tivessem tempo e meios?

JF | Com mais recursos os enfermeiros chegariam a mais pessoas e incidiriam a sua ação na avaliação dos resultados das intervenções, de modo a introduzir eventuais medidas corretivas, desencadeando melhoria das práticas sempre com o objetivo de uma melhor e mais individualizada prestação de cuidados às pessoas.

A intervenção de enfermagem na promoção da saúde é crucial em todos os locais onde existem pessoas, como sejam, as escolas, os locais de trabalho, os locais de lazer, estabelecimentos de apoio social, etc. É fundamental que o poder político reconheça os benefícios que a intervenção de enfermagem tem na promoção da saúde, melhorando as condições das pessoas e evitando problemas de saúde na comunidade.

JE | O papel e a imagem do enfermeiro tem mudado com o passar dos tempos. Há muito que deixaram de ser o "apoio" dos médicos e passaram a ter, em muitos casos, um papel autónomo. As especializações são as responsáveis por essa mudança? A formação especializada tem uma importância crescente?

JF | A verdadeira razão da enfermagem ter progressivamente afirmado a sua importância socialmente tem a ver com diferentes fatores, não só por se ter afirmado através das suas especialidades. Atualmente, é uma disciplina e profissão reconhecida pelas suas caraterísticas de influenciar o bem-estar de todas as pessoas. A enfermagem foi construindo, ao longo do tempo, a sua autonomia. Hoje a formação dos enfermeiros está integrada no ensino superior politécnico, conferindo o grau de licenciados em enfermagem e, deste modo, o acesso a todos os graus académicos. A existência de cursos de doutoramento em enfermagem é reconhecer que esta é uma área da ciência. Esta alteração no grau académico dos enfermeiros tem implicações na construção e na consolidação da sua autonomia.

Em saúde, constitui uma mais valia para a pessoa o desenvolvimento de um trabalho de equipa multidisciplinar, onde os vários intervenientes contribuem para a promoção da saúde e/ou tratamento da doença, respeitando as competências de cada profissional.

As especializações, não tendo sido as responsáveis pela mudança que refere na sua questão, deram um grande contributo para tal. A formação especializada pressupõe uma diferenciação dos enfermeiros numa determinada área do cuidar e, como tal, detentores de competências acrescidas, enriquecendo e dotando os enfermeiros de crescente nível de conhecimento científico, com preparação teórica e prática que permite assumir, no seio da equipa, um papel de relevância na sua área de intervenção, num contributo para resolver os problemas das pessoas e consequentemente melhorando-lhes a qualidade de vida.

JE | Qual a relevância da definição de competências de cada especialidade dentro das instituições?

JF | As especializações existem, estão reconhecidas e têm o seu âmbito de intervenção bem definido. A eventual criação e/ou alteração das áreas de especialização deverá ser feita em função das necessidades das pessoas, integradas numa sociedade, sempre numa perspectiva de melhoria na intervenção dos enfermeiros.

Em Portugal, a realidade das instituições traduz uma diferenciação, com contornos específicos em cada caso, no que respeita à potenciação dos ganhos em saúde, com a intervenção dos enfermeiros especialistas. Os resultados estão espelhados nos inúmeros estudos científicos, realizados pelos enfermeiros portugueses e esse potencial dos profissionais deveria ser rentabilizado ao serviço das pessoas e das instituições, não estando, contudo, na generalidade dos casos.

É fundamental que as instituições conheçam as competências especializadas dos enfermeiros, no sentido de poderem fornecerem cuidados de enfermagem especializados à comunidade. E, por outro lado, criem condições para o desempenho dos enfermeiros especialistas nas diferentes áreas.

JE | Hoje, exige-se mais aos enfermeiros? Mais atenção às novidades, mais formação, mais disponibilidade?

JF | Sim. Actualmente exige-se mais a qualquer profissional. O desenvolvimento da ciência é contínuo e a sua divulgação é quase imediata. A pessoa está mais informada, com acesso fácil ao conhecimento e com mais e melhores recursos que lhe permitem aumentar o grau de exigência aos profissionais. Apesar da prática demonstrar que nem sempre a informação é clara e explícita nos meios de consulta da informação a que as pessoas têm acesso, os enfermeiros devem procurar manter-se atualizados.

Ser enfermeiro tem esta responsabilidade acrescida, no que respeita à formação contínua e atualização inerente ao desenvolvimento técnico-científico, exigido pelo próprio, pelas pessoas, pelas instituições e sociedade em geral.

JE | Como lidam os enfermeiros com essa exigência? É vista como um desafio ou como um entrave à profissão?

JF | A história da profissão de enfermagem mostra claramente que desde cedo os enfermeiros se envolvem em processos formativos no sentido de desenvolver a disciplina e melhorar as competências profissionais dos enfermeiros no seu dia a dia. Estes profissionais pautam o seu agir em evidência científica que obtêm através de formação contínua e autoformação.

Os programas de ensino, das organizações e os projetos profissionais denunciam essa exigência, numa perspetiva de desenvolvimento, com o reconhecimento de um nível formativo de ensino superior, da divulgação do elevado nível profissional dos enfermeiros portugueses na diáspora, como um desafio ao qual os enfermeiros devem responder "sim", vamos continuar a melhorar e a aumentar o patamar do nosso desempenho profissional.

JE | A Ordem dos Enfermeiros deixou, recentemente, de representar o FNOPE no ICN (International Council of Nurses) e, consequentemente, a enfermagem portuguesa. Qual a importância dos enfermeiros portugueses estarem representados no ICN e qual seria, na sua opinião, a melhor solução para resolver esta questão?

JF | O que a OE comunicou às restantes organizações que integram o FNOPE foi que se desvinculava deste Fórum e não que iria deixar de representar a enfermagem no ICN.

No ano 2000, o ICN iniciou um processo de discussão do seu estatuto no sentido de trabalhar no sentido da inclusão. Até essa alteração apenas era permitida a filiação de uma organização por país e essa organização não poderia ser governamental, sindical ou de cariz religioso. Foi essa uma das razões que, entre 1958 e 1968, um grupo de enfermeiros iniciaram um processo de criação de uma organização que reunisse os requisitos para se tornar membro do ICN e assim incluir a enfermagem portuguesa como membro deste Conselho.

Foi assim que, em 11 de Janeiro de 1968, foi criada a Associação das Enfermeiras e Enfermeiros Portugueses – AEEP, hoje designada de Associação Portuguesa de Enfermeiros – APE. A candidatura da APE ao ICN foi apresentada e a sua admissão como membro de pleno direito teve lugar em 1969. Até 2003 a APE foi a que representou no ICN a enfermagem portuguesa.

Resultado do processo de discussão iniciado no ICN para revisão do seu estatuto, a APE deu inicio à discussão sobre um modelo de filiação que respondesse aos interesses da enfermagem portuguesa, entre as diferentes associações, sindicatos e Ordem. Desta discussão resultou a criação, em 2003, de um Fórum Nacional de Organizações Profissionais de Enfermagem – FNOPE, que incluía todas as organizações que a quiseram integrar. Estavam assim assegurados os três pilares do ICN – o desenvolvimento profissional, a força do trabalho e a regulação, através do modelo colaborativo. Em 2004, a OE tornou-se o membro do ICN suportado no FNOPE. Até ao ano de 2016, assim foi desenvolvida a atividade internacional sendo os assuntos discutidos entre os membros do FNOPE assumindo-se as posições que seriam tomadas nas reuniões magnas do ICN e de outras organizações internacionais.

Importa referir que, ao longo destes anos, o modelo adotado pelas organizações profissionais de enfermagem portuguesas para a representação internacional foi apresentada pelo ICN como modelar e exemplo a seguir.

Em 2016, fomos confrontados com a informação de que o CD da OE tinha decidido sair do FNOPE e requerer no ICN a sua filiação no modelo tradicional. Foi solicitada uma reunião à OE, que nos foi recusada. Assim, apesar de o modelo colaborativo continuar a ser o modelo da representação portuguesa no ICN a OE deixou de reunir com os restantes membros como se este modelo já tivesse sido alterado. Ora os modelos de filiação não são decididos pelos membros. São solicitados ao ICN e será este que o irá decidir no CNR, muito provavelmente já não no próximo, mas sim no seguinte que terá lugar em 2019.

A importância da presença da enfermagem portuguesa nas organizações internacionais não tem discussão numa altura em que o mundo se tornou numa autêntica aldeia global e em que as decisões se tomam cada vez mais de forma centralizada.

A melhor solução, pelo facto de assegurar a participação dos pilares que cada tipo de organização representa, continua a ser o modelo colaborativo.

JE | No dia 7 de abril celebra-se o Dia Mundial da Saúde. O que gostaria de ver mudado no setor da saúde, em Portugal? E em relação à saúde dos portugueses?

JF | A comemoração do Dia Mundial da Saúde é mais uma oportunidade de reforçar as áreas da atualidade, com significativo destaque para a importância dos hábitos de vida saudáveis.

Criar impacto e visibilidade na sociedade em geral e apostar em programas de vigilância da saúde, com a dinamização dos cuidados de saúde primários e envolvimento das organizações com politicas de saúde laboral, na sensibilização e na consciencialização das pessoas para a importância de três pilares: alimentação saudável com aumento do consumo de água, atividade física e parar de fumar. Estas medidas, traduzem-se em ganhos em saúde, com mais anos de vida saudável e, consequente, redução no impacto da doença e melhor gestão dos efeitos nefastos, com reflexos na produtividade e no controlo financeiro.

 

angeladosvais@newsengage.pt