Licenciatura, mestrado ou doutoramento significam "quase o mesmo" em enfermagem

quinta, 16 fevereiro 2017 10:34 Felismina Mendes, diretora da Escola Superior de Enfermagem de S. João de Deus da Universidade de Évora

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"A enfermagem deve ser das poucas profissões em que ter uma licenciatura, um mestrado, ou um doutoramento, significa na prática quase o mesmo. Isto não pode continuar a acontecer." A crítica é de Felismina Mendes, que tomou posse recentemente como diretora da Escola Superior de Enfermagem de S. João de Deus (ESESJD) da Universidade de Évora. Para a professora, é urgente a valorização do percurso académico dos enfermeiros, assim como a valorização social e a mudança de processos de trabalho para que se criem melhores condições para a classe.

 

Jornal Enfermeiro | Qual é o panorama do ensino da enfermagem em Portugal? O ensino tem evoluído conforme as novidades e necessidades? Atualmente, é adequado à prática?

Felismina Mendes | O ensino da enfermagem em Portugal tem feito o seu caminho (e continuará a fazer) evoluindo sempre consoante a evidência científica produzida e adaptando-se às novas exigências académicas, de saúde e de mercado. Consistentemente, o ensino tem evoluído de acordo com as necessidades de saúde do país e tem contribuído quer para dar resposta a muitas dessas necessidades, quer para a melhoria de muitos indicadores de saúde em Portugal. Desde os cursos de licenciatura em enfermagem, aos cursos de pós-graduações, aos cursos de pós licenciatura de especialização em enfermagem, aos mestrados e aos doutoramentos, as Escolas de Enfermagem e de Saúde e as Universidades têm feito um trabalho extraordinário na adequação das respostas do Ensino e da Investigação às necessidades de saúde locais e globais, sempre segundo os mais elevados padrões de qualidade e a evidência científica disponível, formando enfermeiros com cada vez mais competências (conceptuais e instrumentais) indispensáveis para promoverem e dignificarem os cuidados de enfermagem às populações e para pugnarem sempre pela qualidade dos mesmos. Considero que o ensino está totalmente adequado à prática/clínica e não entendo porque é que sistematicamente esta questão vem à tona quando se fala do ensino da enfermagem em Portugal. Aliás, pergunto-me frequentemente porque é que não se questiona também se a prática/clínica se tem adaptado cabalmente e se tem usufruído eficazmente das novas dinâmicas do ensino de enfermagem em Portugal.

Prova desta adequação do ensino à prática/clínica é, entre outras, a aceitação dos recém-formados que, por necessidade ou opção, emigram para os países do centro da Europa, onde as suas competências são enaltecidas e a sua aceitação supera expectativas.

JE | Está na Escola Superior de Enfermagem São João de Deus, da Universidade de Évora, há mais de 20 anos. Ser diretora sempre esteve nos planos? O que motivou a sua candidatura?

FM | Nunca esteve nos meus planos ser diretora. Foram as circunstâncias, do momento e da escola, que ditaram a minha candidatura.

JE | Quais são os seus objetivos enquanto diretora?

FM | Reforçar e consolidar a afirmação da ESESJD na região, no país e internacionalmente; desenvolver e valorizar a oferta formativa graduada e pós-graduada – antecipar necessidades e responder aos novos desafios com rigor, eficácia e eficiência; desenvolver e dinamizar a investigação em enfermagem/enfermagem especializada/ciências da saúde; estimular, incentivar e apoiar candidatura às diferentes calls nacionais e internacionais; estimular a internacionalização – estudantes, docentes e funcionários não docentes; aprofundar e consolidar as ligações à comunidade – com a implementação e monitorização de projetos de médio e longo prazo e reforçar e aprofundar parcerias e redes científicas internacionais - espaço europeu e ibero-americano.

JE | A escola tem conseguido preencher todas as vagas disponíveis? Como tem sido a procura nos últimos anos?

FM | Na tabela seguinte encontra-se a procura do Curso de Licenciatura em Enfermagem na UÉESESJD e os números correspondentes ao preenchimento das vagas. Eles falam por si.

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JE | Estão previstas novas áreas de especialização na ESESJD?

FM | A escola não tem neste momento em funcionamento qualquer Curso de Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem, só cursos de Mestrado em Enfermagem que permitem o desenvolvimento académico mas simultaneamente dão acesso ao título profissional de enfermeiro especialista, atribuído pela Ordem dos Enfermeiros. Estamos perante um nível de ensino que promove o desenvolvimento de conhecimentos e competências nomeadamente na investigação, ferramenta imprescindível para o desenvolvimento da profissão e para o avanço dos cuidados de saúde. Estes mestres têm obrigatoriamente de ser aproveitados para conduzir processos de mudança nas organizações de saúde e nos cuidados de enfermagem.

JE | E quanto aos mestrados?

FM | A escola tem neste momento a funcionar 2 mestrados:

1. Curso de Mestrado em Enfermagem em Associação com as Escolas de Saúde dos Institutos Politécnicos de Beja, Castelo Branco, Portalegre e Setúbal - com 7 ramos (cada um dos ramos equivale a uma especialidade reconhecida ou em processo de reconhecimento pela OE): Enfermagem de Reabilitação; Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica; Enfermagem Médico-cirúrgica/A Pessoa em situação crónica e paliativa; Enfermagem Médico-cirúrgica/A Pessoa em situação crítica; Enfermagem de Saúde Familiar; Enfermagem Comunitária e de Saúde Pública e Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica.

Não foram ainda reconhecidos pela OE os ramos de Enfermagem Médico-cirúrgica/A Pessoa em situação crónica e paliativa e o ramo de Enfermagem de Saúde Familiar.

Este Mestrado de Enfermagem iniciou-se neste ano letivo, 110 estudantes, distribuídos pelos diferentes ramos.

Realço que esta estratégia de trabalho em associação/rede entre instituições de ensino superior concorrentes entre si, resultou da noção de que o esforço conjunto tem potencial para acrescentar valor e melhorar o resultado final (nesta caso e para já ainda só na formação de 2º ciclo e de especialização em enfermagem).

2. Curso de Mestrado em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia.

JE | Quais as especialidades que mais fazem falta no nosso país?

FM | Já existe um número significativo de especialidades, mas claro que novas necessidades em saúde exigirão novos domínios de competências. Também é claro que cada grupo/associação desejará sempre ver a sua área ou subárea reconhecida como um domínio específico e especializado de competências (ex. enfermagem no trabalho, enfermagem perioperatória...). É preciso, no entanto, ter atenção à fragmentação, e assim, considero que mais do que criar/aprovar novas especialidades é necessário resgatar na carreira o lugar do enfermeiro especialista. Sem carreira não há enquadramento, motivação ou desafios que suportem e incentivem o trabalho do enfermeiro especialista e os novos domínios específicos e especializados de competências.

JE | Com as dificuldades sentidas pela classe, os alunos mantêm-se motivados com a escolha que fizeram, ou estão preocupados com o futuro?

FM | Não disponho de evidência científica que me permita dar uma resposta fundamentada a esta questão. Porém, nos estudantes que anualmente são formados na UEESESJD, nota-se alguma apreensão com o futuro nomeadamente em termos de mercado de trabalho (direitos laborais), preocupação que se evidenciou claramente nos anos mais duros da crise. A motivação com a escolha que fizeram, no final do curso, parece no entanto manter-se intacta, na maioria deles.

JE | Desemprego, emigração, horas extra, salários baixos e/ou em atraso e burnout são algumas nas palavras que marcaram os últimos anos da enfermagem. Na sua opinião, o que é preciso fazer para mudar este cenário?

FM | Todos este temas estão presentes não apenas nos profissionais de enfermagem, mas em muitos outros grupos profissionais no país. A situação de crise foi experimentada por todos e sem dúvida que os enfermeiros foram um dos grupos profissionais afetados.

O que fazer? Primeiro “resolver” os problemas do país para atenuar ou eliminar os efeitos da crise. Certamente que isso ajudará a mitigar muitas das questões assinaladas. Mas não chega. Concretamente em relação aos enfermeiros há desafios, quer para os profissionais, quer para os órgãos que os representam, que não dependem nem se esgotam da crise económico financeira que o país viveu.

Para mudar o cenário há questões centrais que têm que ser refletidas/discutidas/debatidas/negociadas. Deixo alguns exemplos, sem ter a pretensão de esgotar todas as (questões) que neste momento são críticas para os enfermeiros e para a profissão:

Valorização social do enfermeiro e da enfermagem – Será alcançada quando todos compreenderem que mais do que estar 24 horas com o doente, têm que efetivamente afirmar-se pela qualidade e valor acrescentado dos cuidados que prestam. O slogan “nós enfermeiros estamos 24 horas com o doente” é útil, mas está esgotado. A sociedade, as famílias, os indivíduos, querem cuidados de qualidade – escuta, atenção, presença, perguntas que são respondidas; orientações/indicações claras concisas e objetivas, respostas adequadas à capacidade de entendimento de cada um. Na sociedade atual, já não é suficiente ser-se um bom técnico. Espera-se e exige-se mais dos enfermeiros. Espera-se e exige-se o domínio de competências instrumentais, relacionais, comunicacionais que vão ao encontro das necessidades de saúde de uma população cada vez mais envelhecida, mas também cada vez com mais literacia em saúde. No fundo, um enfermeiro que está presente e que se afirma pelo domínio completo da sua profissionalidade, em cada momento do quotidiano de cuidados.

Valorização socioprofissional do percurso académico dos enfermeiros (título e graus) - Hoje essa valorização não existe e o pior é que parece não se sentir a sua falta no universo profissional. A enfermagem deve ser das poucas profissões em que ter uma licenciatura, um mestrado, ou um doutoramento, significa na prática quase o mesmo. Isto não pode continuar a acontecer. Relativamente aos títulos (especialista), efetivamente há diferenças na designação dos profissionais que os obtém. Porém, estes profissionais passam a exercer como enfermeiros especialistas e a colocar quotidianamente em prática as suas competências especializadas, nos diferentes serviços da referida especialidade ou noutros onde as suas competências sejam necessárias? Depende. Ora nenhum profissional pode estar à mercê do depende! Que incentivos têm pelo trabalho que desenvolvem? Que perspetivas de carreira têm? Qual o reconhecimento socioprofissional que auferem? A resposta a estas questões centram-se inevitavelmente na renegociação da carreira, que é urgente e decisiva para os enfermeiros. Mas apesar de importante, esta nunca será suficiente, por si só, para a afirmação social e profissional dos enfermeiros e da enfermagem. É preciso um trabalho e empenhamento sociopolítico constante de todos os profissionais para isso ser conseguido. Irá demorar, mas chegaremos lá.

Processos de trabalho – os enfermeiros têm que se assumir como protagonistas centrais na discussão dos processos de trabalho em que estão envolvidos e questionar a adequação desses mesmos processos aos desafios da saúde e da sociedade/indivíduos, na atualidade (ex. tempo gasto com os diferentes sistemas de informação nomeadamente o classificação de doentes em desfavor da efetiva presença junto dos utentes/doentes; turnos de 12 horas; normas organizacionais arcaicas que perduram em muitas unidades de saúde; papel das chefias intermédias na dinamização dos cuidados de enfermagem; papel dos enfermeiros especialistas na melhoria dos cuidados, sistema de avaliação dos enfermeiros, entre muito outros).

 

angeladosvais@newsengage.pt