Atualidade

“A maioria das pessoas está educada e alerta em relação ao melanoma”

03 Fev. 2021

O dermatologista Miguel Peres Correia, ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, considera que “a maioria das pessoas está educada e alerta em relação ao melanoma” e que, por isso, não negligencia a procura de cuidados médicos. O que está a acontecer, no atual contexto de pandemia, é uma dificuldade de acesso aos serviços.

Na sua perspetiva, que acredita ser partilhada pelos dermatologistas, no seu todo, está a verificar-se uma afluência menor aos serviços de saúde, o que, no caso do cancro cutâneo, se pode traduzir nas curvas de sobrevivência e – sublinha – numa maior morbilidade. “A maior parte dos cancros da pele não matam, mas desfiguram substancialmente, porque têm uma considerável capacidade de crescimento local e de destruição dos tecidos”, nota.

Não existem números sólidos sobre esse efeito, sendo necessários vários anos para se confirmar esta perceção. Ainda assim, o especialista distingue o carcinoma baso-celular e o espino-celular do melanoma, considerando que, no primeiro caso, se está a assistir a manifestações da doença “que não eram costume acontecer”, dado os doentes não valorizam tanto o problema e evitam deslocar-se ao hospital ou a uma clínica por receio da infeção por Covid-19.

“No melanoma, não será tanto assim, porque ninguém desleixa. Hão de haver atrasos no diagnóstico e tratamento, mas sobretudo pela dificuldade de acesso”, afirma.

Quanto a um possível efeito positivo do confinamento, devido a uma menor exposição solar, Miguel Peres Correia chama a atenção para o facto de os efeitos não serem de curto prazo: “Se venho a ter cancro de pele, ainda que esteja entre quatro paredes, venho a ter cancro de pele porque o fator causal é muito anterior”, comenta.

E o desconfinamento, associado à chegada da primavera, que efeitos poderá ter? “Vai ser uma altura especialmente complexa, porque, como Sérgio Godinho dizia na canção, ‘a saída de uma espera só se estanca na corrente’. Quando uma barragem abre, a água corre com grande violência. Quando passamos semanas fechados em casa, com tudo cinzento lá fora, assim que o sol brilhe, a vontade de apanhar sol e de o apanharmos descontroladamente vai ser muito maior do que habitualmente. Por estarmos fechados em casa, vai-nos apetecer bastante mais ter comportamentos de risco em relação ao sol do que é habitual”, antecipa.

Numa análise da dimensão do cancro cutâneo em Portugal, o dermatologista contextualiza que, comparando com o norte da Europa, se correm menos riscos: “Temos mais sol, mas uma genética diferente. É claro que o ambiente tem muita importância, mas a genética é decisiva”.

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